Politica Externa teocracia irã

Publicado em 24 de janeiro de 2014 | por Leon Hadar

Como a CIA e o MI6 criaram a teocracia no Irã

Ambos os críticos e admiradores da Agência Central de Inteligência (Central Intelligence Agency, CIA) têm tendência em retratá-la como uma entidade sábia, poderosa, invulnerável e tendem a exagerar a habilidade dos espiões dos EUA de determinar o resultado dos acontecimentos ao redor do mundo. Um repórter dos EUA, ao entrevistar um cidadão comum – ou um funcionário público – em Cairo, Buenos Aires ou Seoul pode ouvir que “todos sabem” que a CIA estava por trás do último aumento de preço dos vegetais ou o recente surto de gripe entre crianças do ensino médio. É algo do tipo, “como se vocês dos EUA não estivessem sabendo do óbvio”.

Novas histórias da agência, com base em informações sigilosas liberadas recentemente e biografias de espiões aposentados, forneceram uma visão mais complexa da CIA, de sua eficácia, e de seu poder geral, sugerindo que, muitas vezes, Langley [cidade sede da CIA] não está cheia de clones de James Bond, mas por um bando de policiais limitados. Minha operação clandestina favorita da CIA, recontada no livro de Tim Weiner’s Legacy of Ashes, envolve a vigilância da CIA sobre a nova embaixadora nomeada dos EUA na Guatemala, em 1994, Marilyn McAfee. Quando a agência pôs escutas em seu quarto, saíram ruídos que levaram os agentes a concluírem que a embaixadora estava tendo um caso lésbico com sua secretária. Na verdade, ela estava acariciando seu poodle preto de dois anos.

Mas a história da CIA inclui esforços para derrubar regimes hostis, assassinar líderes estrangeiros que não acreditavam que o que era bom para Washington e Wall Street era bom para seu povo, e patrocinar golpes e revoluções. Algumas vezes a agência obteve sucesso.

No topo da lista desses sucessos – se sucesso for a palavra certa para uma operação cujos efeitos de longo prazo foram tão desastrosos – foi a derrubada, em Agosto de 1953, do líder eleito do Irã e a instalação de um Xá impopular e autoritário em seu lugar. A Operação Ajax, como ficou conhecida, merece um velho cliché: Se não tivesse realmente acontecido, você pensaria que foi uma trama imaginada por um roteirista de Hollywood vendendo conspirações anti-EUA.

the coupErvand Abrahamian não é um roteirista de Hollywood, mas um renomado estudioso irano-americano que ensina história na City University of New York. Com o livro The Coup, ele foi o autor de uma concisa, porém detalhada, e de certa forma provocativa história da mudança de regime em 1953 no Irã, que a CIA conduziu com o grupo britânico MI6. Se você não sabe nada sobre a história, The Coup é um bom lugar para começar. Se você já leu bastante sobre a Operação Ajax e os eventos que a geraram, o livro ainda oferece novos insights sobre este incrível evento histórico.

Abrahamian construiu sua narrativa analisando documentos dos arquivos da British Petroleum, do British Foreign Office, e do Departamento de Estado, como também analisando biografias dos principais personagens da trama. Estes personagens – espiões britânicos e executivos de negócios, diplomatas dos EUA e jornalistas, agentes soviéticos, ativistas comunistas, propagandistas nazi, mulás xiitas, chefes do crime iranianos – tinham agendas duplas ou até triplas para avançar à medida que pularam de um quadro político para outro através de mentiras, trapaças, roubos e assassinatos. Tudo isso torna a extração conduzida pela CIA dos reféns americanos no Irã, apesar do filme Argo, parecer algo meio, sabe como é, chato.

De um lado havia Muhammad Mossadeq, o primeiro-ministro do Irã eleito democraticamente de 1951 a 1953, um líder secular, esquerdista e nacionalista que queria unir-se ao campo “neutralista” que repudiava o compromisso com qualquer uma das superpotências durante a Guerra Fria. Uma figura aristocrática e excêntrica que acolhia oficiais estrangeiros em sua casa vestindo pijamas, Mossadeq introduziu muitas reformas sociais progressivas e econômicas na sociedade tradicionalmente xiita, e surpreendeu todo o mundo quando nacionalizou a indústria de petróleo do Irã, que estava sob controle britânico desde 1913 através da Anglo-Persian Oil Company.

Do outro lado havia Kermit “Kim” Roosevelt, Jr., neto de Teddy Roosevelt, um lendário mestre da espionagem, um homem que gostava de se auto-promover que jantou com líderes mundiais e executivos de negócios, mas também fez amizade com generais militares iranianos loucos por poder, políticos corruptos, comerciantes do bazzar, e mais alguns bandidos, que o ajudaram a conseguir o que se tornou o objetivo de Washington: retirar Mossadeq e seus aliados políticos do poder, que incluía esquerdistas, social-democratas e comunistas; retornar a indústria de petróleo para as mãos britânicas (com mais presença dos EUA nos negócios de petróleo iranianos); e manter políticas pró-ocidentais confiáveis no poder.

Pareceu funcionar perfeitamente. O Estados Unidos ganhou um aliado estratégico chave no Oriente Médio. As companhias dos EUA receberam uma porção considerável da riqueza da enorme capacidade petrolífera do Irã. Outras nações do Oriente Médio produtoras de petróleo tiveram uma lição sobre o que poderia acontecer se nacionalizassem as indústrias. No tempo em que os americanos estavam enfrentando desafios dos nacionalistas, como Gamal Abdel Nasser no Egito, e estavam tentanto conter a suposta ameaça soviética no Oriente Médio, nosso homem em Teerã saudou os soldados dos EUA e investidores (e comprou várias armas dos EUA). Tudo parecia ir bem até que não ia mais.

Embora o golpe tenha feito a onda de nacionalização dos recursos petrolíferos no Oriente Médio recuar, as nacionalizações recomeçaram em 1970. Nesta década, Abrahamian descreve, um país após outro – não somente estados radicais como a Líbia, o Iraque e a Algéria, mas monarquias conservadoras como o Kuwait e a Arábia Saudita – “tomaram suas reservas de petróleo e, aprendido do passado, tomaram precauções para ter certeza que não perderiam suas companhias petrolíferas”.

Ao mesmo tempo, o golpe dizimou a oposição secular, deixando clérigos xiitas como a maior força política viável quando a Revolução Iraniana destituiu o Xá em 1979. A marionete pró-EUA deu lugar a uma República Islâmica radical e anti-EUA em que a oposição secular e esquerdista permaneceu fraca e sem líder. Isso, como dizem em Langley, é blowback (retrocesso).

O golpe também intensificou o que Abrahamian chamou de “a prevalência de um modelo de paranóia intensa na política iraniana”. Enquanto os clérigos iranianos se preocupavam que Washington poderia refazer uma troca como a mudança de regime de 1953, muitos membros da oposição estavam contando com aquilo. Em Teerã, eles ainda acham que a CIA faz o mundo girar.

// Tradução de Robson Silva. Revisão de Matheus Pacini. | Artigo Original


Sobre o autor

Leon Hadar

Leon Hadar é analista sênior da Wikistrat, uma empresa de consultoria geoestratégica, e o autor de Sandstorm: Policy Failure in the Middle East (Editora Palgrave Macmillan, 2005).



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