Religião Muçulmanos

Publicado em 11 de janeiro de 2015 | por Gabriel Zanotti

Carta Aberta aos Muçulmanos Liberais

Não os conheço. Não sei quem são, nem se quer se existem. Mas se existem, eles são a solução.

Todas as religiões tem a tentação para o fanatismo cruel. O mundo não apareceu de um dia para o outro com um cristianismo com a pomba da paz e com o islamismo como a única religião violenta. O cristianismo tem também sua história de violência. As guerras em nome do cristianismo foram muitas, lamentavelmente; o Sacro Império não era igual a Paulo VI, os papas de não muito tempo atrás eram chefes de seus exércitos, que não eram precisamento os turísticos guardas suíços. Católicos e protestantes se massacraram sem misericórdia durante séculos com o apoio dos seus principais líderes. A perseguição violenta dos cristãos aos judeus foi algo pela qual o próprio João Paulo II teve que pedir perdão – corajosamente – no Muro das Lamentações.

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Por que o Islã não abandona o cruel fanatismo?

Porém o cristianismo teve seu próprio processo de secularização. Igreja e Estado se separaram; a liberdade religiosa, o diálogo com os cristãos e a justa autonomia das realidades temporais foram todas proclamadas pelo Concílio Vaticano II da Igreja Católica. Alguns dirão que este [processo] foi falso, que resultou de pressões externas; outros, com a ajuda do Papa emérito Josef Ratzinger, afirma que não, que foi uma evolução que respondeu as mesmas premissas teológicas do cristianismo.

Contudo, a questão importante da secularização a nível político é que a tivemos.

Os muçulmanos não parecem havê-la tido. Não sou eu quem se colocará a julgar se a luta a qual afirma o Corão é simbólica ou fática, mas a questão é que as escrituras cristãs estão cheias de expressões que podem ser lidar como muito violentas, e hoje formam parte de uma tradição simbólica que nada tem a ver com a guerra como hoje a concebemos. Por que o Corão não pode ter uma interpretação similar? Alguns dirão: não pode, é intrinsecamente violento. E evidentemente, muitos anti-muçulmanos, diante das aberrações espantosas do Estado Islâmico (ISIS), continuarão a dizer. Contudo, então, os únicos preparados e autorizados a demonstrar que não é dessa forma, são os mesmos pensadores muçulmanos. São eles que estão sendo convocados a fazer seu próprio processo de secularização. Refiro-me aos crentes muçulmanos que acreditam verdadeiramente em Alá, no seu último profeta e no Corão e ao mesmo tempo, na liberdade religiosa e na secularidade do Estado; É um grupo inexistente? Existe ao menos um? Porque eles são a chave do futuro.

Digo isto precisamente porque os cristãos tem consciência do seu passado e de que podemos mudar. Todos sabem hoje que entre 19 e 20 de setembro de 1870, Pio IX ordenou resistência armada a entrada do exército italiano aos estados pontifícios. Se tudo na Igreja tivesse continuado igual, o papa estaria planejando topo tipo de ataque armado contra o Estado italiano atual. Mas não, as coisas mudaram, não pela mente de Pio IX, e sim porque havia outras mentes trabalhando que frutificaram no Vaticano II e na pacífica Igreja Católica de hoje.

Irmãos muçulmanos, se não fizerem o mesmo, não haverá esperança para vocês. Eu sou um típico liberal católico que seguirá defendendo sua liberdade religiosa, seguirá defendendo a declaração Nostra aetate do Vaticano II, e manterá sempre a distinção entre “o Islã em si mesmo” e o fanatismo cruel e bestial do ISIS, estes, esses e etc. Porém o mundo é menos filosófico. A guerra que se avizinha fará com que as Cruzadas pareçam como um jogo de tabuleiro. Só vocês podem desarmar a si mesmos mentalmente e evitar este conflito.

//Tradução por Adriel Santana. | Artigo original.


Sobre o autor

Gabriel Zanotti

Gabriel Zanotti é professor universitário e doutor em Filosofia. Mantém um blog pessoal chamado Filosofía para mí, onde aborda diversos temas filosóficos, éticos, religiosos, políticos, econômicos e sociais. Mora em Buenos Aires, na Argentina.



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