Objetivismo sacrifício de isaac

Publicado em 24 de fevereiro de 2014 | por George H. Smith

Ayn Rand e o Altruísmo – A diferença entre auto-interesse e Sacrifício

Veja também as partes anteriores I e II e III. De qualquer modo, não é necessário lê-las para entender a parte IV que segue abaixo.]

Em “Conservatism: An Obituary” (um artigo baseado em uma palestra feita na Universidade de Princeton em 1960), Ayn Rand disse:

O altruísmo diz que o homem não tem o direito de existir para si próprio, que o serviço aos outros é a única justificação de sua existência, e que o auto-sacrifício é seu maior dever, virtude, e valor moral. Capitalismo e altruísmo são incompatíveis; são opostos filosóficos; eles não podem coexistir no mesmo homem e na mesma sociedade.

Afirmações similares se repetem ao longo de muitos dos escritos de Rand, e nós não podemos entender completamente seu significado sem antes entender sua noção de auto-sacrifício. Em uma longa e detalhada carta a John Hospers (29 de Abril de 1961), Rand escreveu:

Eu admirei sua ação porque foi generosa. Generosidade não é um sacrifício—é um presente ou favor maior do que o amigo envolvido poderia, em razão, esperar. Mas se sua ação tivesse sido motivada por um dever altruístico, eu não a teria admirado nem aprovado.

Qual foi o ato de generosidade que Ayn Rand aprovou? Infelizmente, o volume publicado de Letters of Ayn Rand (ed. Michael E. Berliner, Duton, 1995) contém apenas o lado de Rand de sua correspondência com Hospers—uma situação que desagradou Hospers, que por vezes achou “que Ayn não apreendeu corretamente uma questão que eu havia abordado, e seu resumo do que eu disse por vezes não refletiu o que eu realmente disse”.

Apesar do problema de conhecermos apenas um lado do desacordo deles, a carta de Rand a Hospers fornece uma excelente janela para a visão dela sobre altruísmo e auto-sacrifício, e como esses conceitos diferem de generosidade e benevolência.

Parece que Hospers, na época um professor de filosofia na USC, havia (como Rand coloca) uma vez “passado duas noites inteiras datilografando a tese de um aluno” porque ele achou que o aluno havia sido “vítima de uma injustiça”, e Hospers “queria que ele conseguisse seu diploma”. Rand citou Hospers como segue: “e ainda, acredite em mim, foi um sacrifício, e minhas aulas sofreram um pouco, e eu também (fiquei sonolento por dias)”. Depois que Rand aprovou a ajuda dada por Hospers, ele ficou curioso sobre suas razões. Ela não se opunha ao auto-sacrifício, afinal?

Como indicado na passagem citada acima, Rand respondeu fazendo uma distinção entre sacrifício e generosidade. Rand atribuiu a assistência “extraordinariamente generosa” de Hospers ao fato de que ele valoriza seu aluno, que havia sido vítima de uma “injustiça” anterior, e queria ajudá-lo a conseguir seu diploma. Esses eram valores pessoais para Hospers, coisas que ele valorizava mais do que o “desconforto” causado pela falta de sono. Sua ação não foi um “sacrifício”, porque ele não desistiu de um valor maior para o bem de um valor menor. (Como Rand escreveu em outro lugar, o sacrifício “é a renúncia de um valor maior para o bem de um valor menor ou de nenhum valor”).

Suponha, Rand continuou, que as duas noites que Hospers passou sem dormir poderiam ter causado a recaída de uma doença perigosa, ou suponha que seu ensino teria sofrido “consideravelmente”, ao invés de “um pouco”, como resultado. Tais cenários se qualificariam como sacrifícios autênticos, porque Hospers teria arriscado sua própria saúde e felicidade para o bem de uma pessoa que não era especialmente próxima a ele, então Rand não haveria aprovado.

De acordo com Rand, os valores menores que nós renunciamos em nossos esforços para alcançarmos objetivos que valorizamos mais não se qualificam como sacrifícios. Apenas se renunciamos aqueles valores por um senso de dever nós podemos de fato falar sobre auto-sacrifício. Esta é a forma em que Rand coloca a questão em “Aqui é John Galt falando”, de A Revolta de Atlas:

Se uma mãe compra comida para seu filho que tem fome em vez de um chapéu para si própria, isso não é sacrifício: ela dá mais valor ao filho do que ao chapéu; porém isso é um sacrifício para o tipo de mãe que dá mais valor ao chapéu, que preferia ver o próprio filho morrer de fome, e só lhe dá comida por obrigação. Se um homem morrer lutando por sua própria liberdade, isso não é sacrifício: ele não está disposto a viver como escravo; porém isso é um sacrifício para o tipo de homem que está disposto a viver como escravo. Se um homem se recusa a vender suas convicções, isso não é um sacrifício, a menos que ele seja o tipo de homem que não tem convicções.

O exemplo de Rand de um chapéu e uma criança com fome ocasionou uma boa dose de controvérsias vigorosas em vários fóruns de internet. (Eu sei disso porque participei de vários longos debates nos últimos doze anos). Segundo críticos do exemplo do chapéu de Rand, é impossível renunciar um valor maior por um valor menor, porque todas as ações são necessariamente motivadas pelo que valorizamos mais em um determinado momento. Assim, a mãe que escolhe comprar comida para seu filho ao invés de adquirir um chapéu para si supostamente demonstra, por sua ação, que ela valoriza a criança mais do que ela valoriza o chapéu—então é incorreto falar sobre ela sacrificar um valor maior por um valor menor. Tal coisa é literalmente impossível.

Essa objeção ignora a ênfase de Rand em agir por um senso de dever, que ela considerava essencial ao altruísmo. Rand enfatizou esta característica de atos altruístas repetidamente, incluindo em sua carta a John Hospers:

Se sua ação tivesse, de fato, sido um dever moral, o estudante teria um direito à ela; ele teria o direito de demandar isso de você, de lhe condenar moralmente se você se recusasse a fazer, e de não lhe dever nenhum apreço, nenhuma gratidão se você o fizesse. Dever, a uma das partes, implica em direito à outra; assim (de acordo com o altruísmo) você deve seus serviços ao aluno, mas ele não lhe deve nada depois disso—ele apenas recebeu seu direito legítimo. Uma situação moral ou relacionamento humano desse tipo não lhe daria náuseas? Em mim sim. Ainda assim isso seria o altruísmo puro aplicado consistentemente. (Observe que essa é a maneira exata em que é aplicado na política, em uma grande escala: os homens são taxados para sustentar os necessitados, e ainda assim os necessitados não lhes devem nada em troca, nem mesmo gratidão ou respeito—nada além de insultos, denúncias e mais exigências).

O exemplo de Rand foi infeliz na medida em que não leva em consideração as obrigações morais especiais dos pais aos seus filhos (especialmente bebês indefesos)—um elemento que complica as coisas consideravelmente.Todavia, outros exemplos dados por Rand (tanto no Discurso de Galt quanto em outros lugares), como aquele de um homem que morre lutando por sua liberdade, fazem seu argumento básico claro o suficiente.

Rand obviamente entendia que ações são motivadas por julgamentos de valor—de fato, ela enfatizou isso por muitas vezes—e que ações em particular são motivadas pelo que mais valorizamos em um determinado momento. Mas esse significado psicológico (ou subjetivo) de “valor” não era o que ela tinha em mente em suas muitas discussões sobre altruísmo e auto-sacrifício. Conforme Nathaniel Branden explicou em seu artigo “Não somos todos egoístas?” (1962; republicado em A Virtude do Egoísmo):

É uma banalidade psicológica—uma tautologia—de que todo comportamento proposital é motivado. Mas igualar “comportamento motivado” a “comportamento egoísta” é deixar em branco a distinção entre um fato elementar da psicologia humana e o fenômeno da escolha ética. É evadir do problema central da ética, que é: pelo que o homem deve ser motivado?

Branden ilustrou seu ponto de vista com o seguinte exemplo: Suponha que um garoto escolha uma carreira usando “padrões racionais”, mas sua mãe não aprova a decisão dele e o pressiona a buscar uma carreira com mais prestígio social. O garoto adere ao desejo da mãe porque ele acredita ter um “dever moral” como filho de colocar a felicidade de sua mãe acima de sua própria. Nesse caso, de acordo com Branden, seria “absurdo” dizer que nenhum auto-sacrifício aconteceu só porque o garoto subjetivamente valoriza a felicidade da mãe mais do que a dele. Dizer que o garoto agiu partindo de seu mais alto valor psicológico é verdadeiro, mas trivial. Essa observação banal não nos diz nada sobre o julgamento de valor particular que motivou a decisão do garoto.

Resumindo, é a natureza específica de um julgamento de valor que irá determinar se uma ação é de auto-interesse ou de auto-sacrifício. Renunciar certos valores em busca de outros valores é um aspecto inerente da ação propositada e não se qualifica como auto-sacrifício, de acordo com Rand.

O conceito de dever é a linha que corre por todas discussões de Rand sobre auto-sacrifício e altruísmo. O dever (o qual Rand às vezes distinguiu de obrigação moral) prevalece sobre considerações pessoais. O dever exige que sacrifiquemos nossa própria felicidade para o bem de outras pessoas ou para algum objetivo abstrato—como o bem comum, a sociedade, ou o estado. Essa é a noção de altruísmo contra a qual Rand protestou tão veementemente.

Rand reconheceu a possibilidade de defender o auto-sacrifício como um dever voluntário, sem insistir que deveres altruísticos sejam impostos por meio de leis coercivas. Mas ela era muito cética, no mínimo, em dizer que a distinção entre deveres voluntários e coercivos poderiam ser mantidas por qualquer período de tempo. O sistema político de uma dada sociedade, ela acreditava, irá em última análise refletir as crenças morais predominantes daquela sociedade, então pregar o dever do auto-sacrifício, mesmo se esse dever é visto como voluntário, é estabelecer a fundação moral para o coletivismo.

Conforme Rand indicou em uma passagem (citada acima) de sua carta a John Hospers, deveres normalmente vinculam direitos correspondentes, então argumentar que nós temos um dever moral de sacrificarmos nossos próprios interesses em nome dos interesses das outras pessoas é implicitamente sustentar que os outros têm um direito a tais sacrifícios. E a partir dessa posição basta um pequeno e virtualmente inevitável passo para exigir que um governo faça cumprir esses “direitos”.

Dessa forma, de acordo com Rand, o coletivismo político emerge da doutrina moral do altruísmo.

Veja também

Capitalismo: moral, prático e necessário

A Defesa Moral do Capitalismo


Sobre o autor

George H. Smith

George H. Smith é Senior Research Fellow do Institute for Humane Studies, também é professor de História Americana nos Seminários de Verão do CATO Institute. Recentemente, Smith teve seu quarto livro, The System of Liberty, publicado pela Cambridge University Press.



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