Oriente Médio arab christian

Publicado em 21 de julho de 2014 | por Sal Emergui

Os árabes cristãos de Israel

161 mil. É o número de cristãos em Israel. Destes, 80% pertencem ao segmento árabe (de maioria muçulmana) que por sua vez constitui 21% da população israelense. É uma minoria dentro de uma minoria. A comunidade árabe cristã é notícia pelo significativo aumento de jovens que decidem servir no Exército israelense rompendo a histórica isenção árabe e pela campanha a seu favor pelo político do Likud, Yarin Levin, basicamente para diferencia-los dos árabes muçulmanos do país.

Os cristãos e nós temos muito em comum. São nossos aliados naturais. Um contrapeso aos muçulmanos que desejam destruir Israel por dentro e se identificam com os grupos terroristas palestinos”, afirmou há algumas semanas Levin ao jornal Maariv. Este dirigente da ala mais nacionalista do Likud é o artífice de uma lei que outorgou pela primeira vez aos representantes cristãos um cargo separado e independente ao que tem os muçulmanos na comissão estatal para igualdade trabalhista. Uma decisão pontual e menor, mas com enorme carga simbólica.

Se Levin a considera um passo a mais para sua maior integração na sociedade, os deputados árabes no Parlamento israelense e líderes da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) a veem como “uma tentativa censurável de dividir o povo palestino em Israel com base na religião”.

Contudo o grande cenário desta batalha não é o parlamentar, mas o escritório de recrutamento. Em 2013, aumentou o número de jovens cristãos que decidiram usar o uniforme do Tsáhal (Forças Armadas de Israel) ou realizar o serviço alternativo social. Como os drusos ou beduínos.

O padre Gabriel Nadaf é um dos “culpados”. De frente ao Foro de Recrutamento dos cristãos, o sacerdote greco-ortodoxo afirma: “Nós quebramos a barreira do medo. Israel merece que nós também ajudemos na defesa. Somos cidadãos leais e agradecidos. Os que se opõe a integração da comunidade cristã nas instituições do Estado não caminham no caminho do cristianismo”.

Gabriel Nadaf

Nadaf a favor do alistamento militar de sua comunidade (IDF)

“O Estado judeu reconhece e cumpre a necessidade de proteger as minorias. Nenhum país árabe trata os cristãos como em Israel. Ao contrário, são perseguidos por muçulmanos”, declarou Nadaf que há alguns meses se reuniu com o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu.

Não surpreende que seja um dos principais inimigos do Movimento Islâmico. Seu filho, de 17 anos, foi espacando em dezembro por homens encapuzados ao mesmo tempo que a deputada árabe israelense Hanin Zoabi lhe enviou uma carta com a seguinte mensagem: “Você não pode incentivar os cristãos a alistar-se no Exército. Retiraremos sua túnica“.

Contrário ao que chama de “israelização dos árabes”, o deputado Basil Ghattas (Balad) enviou uma carta ao Papa Francisco para que “ponha fim a política de ‘dividir e conquistar’ aplicada por Israel para prejudicar a minoria palestina do país“.

Segundo dados do Foro, 84 árabes cristãos se alistaram no Exército no segundo semestre de 2013. Hoje em dia, 300 jovens desta pequena comunidade servem no Tsáhal.

Entre eles, Monaliza Abdo. Esta jovem cristã de Haifa não recorreu a isenção aos palestinos com nacionalidade israelense e fez história ao converte-se na primeira oficial cristã de uma unidade de combate. ”Decidi me alistar porque sou parte de Israel e creio que como o resto dos cidadãos devo servir ao meu país“, se defende a jovem destacada a atuar na fronteira sul. “Se eu evito a entrada de drogas em Israel não só protejo os judeus israelenses como também os árabes. Em particular, as crianças”.

Quando suas amigas judias do Instituto no norte de Israel receberam a ordem de recrutamento (20 meses de serviço obrigatório), Mona disse a sua mãe que também queria se integrar as Forças Armadas. “Se tornou numa oficial que ensina aos soldados como combater o terror e outras ameaças”, afirmam pessoas ligadas ao Exército. Para muitos na comunidade árabe, ela é uma traidora.

Monaliza Abdo

Oficial árabe cristã no Exército israelense (IDF)

Abdo representa os árabes que abraçam sem temor e com orgulho sua nacionalidade israelense. Não só no passaporte. Alguns inclusive se atrevem a dizer em voz alta que não são palestinos, mas cristãos israelenses. Outros asseguram que votariam num partido árabe cristão que não se foque exclusivamente na causa palestina, mas em maiores investimentos e uma melhor integração à sociedade. Pensam que fazendo o caminho militar, será mais fácil.

Os deputados árabes não acreditam nisso e usam o exemplo dos drusos e beduínos que servem no Exército. Por isso mesmo, condenam o recrutamento a um organismo em permanente conflito armado com seus irmãos palestinos na Cisjordânia (ocupada desde a guerra de 67) e na Faixa de Gaza. O deputado cristão Dr. Hana Sweid explica: “Somos parte do povo palestino. É certo que há diferenças culturais e da mentalidade entre muçulmanos e cristãos e temos fricções de vez em quando, mas não permitiremos que nos separem. Somos poucos, mas unidos”.

A cristã Hanan Ashrawi, uma das porta-vozes e dirigentes mais conhecidas da OLP, acusa Levin de pretender “criar uma nova realidade em nosso povo baseado na religião e não na identidade nacional (…) Constitui uma grave provocação para todos os muçulmanos do mundo“. Na OLP, falam de “lei racista”.

Segundo o historiador e analista israelense Guy Bechor, “os cristãos em Israel vem como os cristãos nos países árabes do Oriente Médio devem fugir ou no pior dos casos são assassinados e convertidos ao Islã. Entendem que aqui estão protegidos“.

 

//Tradução de Adriel Santana. | Artigo original.


Sobre o autor

Sal Emergui

Sal Emergui é um jornalista catalão e freelance na zona israelense desde 1997. Correspondente residente em Jerusalém de vários meios de comunicação, centrando-se no conflito entre palestinos e israelenses. Desde 2007, colabora para El Mundo.



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