Oriente Médio cristãos árabes

Publicado em 21 de julho de 2014 | por José Luis Orella

Árabes cristãos, os grandes esquecidos

Neste momento, os cristãos árabes são minorias em seus países e se encontram divididos em diferentes igrejas, dentro das quais podem existir diversos ritos. As causas dessa divisão são encontradas no passado remoto, quando os conflitos entre os membros da Igreja consistia em definir a natureza de Jesus. O Concílio de Éfeso de 431 rebateu a teoria diofisita de que duas naturezas coexistiam em duas pessoas, por sua vez em uma. Esta divisão ocorreu com a aparição da igreja nestoriana, herética, que conseguiu se expandir pela Ásia central. Vinte anos depois, no Concílio de Calcedônia, se respondeu a heresia oposta, o monofisismo, que defendia a existência de uma só natureza em uma pessoa. Nesta ocasião, as igrejas que se separam foram a ArmêniaCopta (Egito), Etíope e a Síria. A Síria também foi denominada “jacobita” por conta do seu defensor máximo, Jacob Barradai, bispo de Edessa.

Esta separação teve bastante êxito pela oposição dos cristãos árabes as diretrizes provenientes de Bizâncio. A parte que permaneceu fiel ao imperador bizantino, foi denominada melquita; “melker” significa imperador. Contudo, em 1054, Roma e Constantinopla se excomungaram mutuamente e se materializou a divisão dos cristãos do ocidente com os do oriente. Estes últimos formaram a Igreja Ortodoxa, que mantém os patriarcados históricos de Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém.

A irrupção do Islã perturbou as comunidades cristãs, que com o tempo foram se convertendo em minoritárias em seus lugares de origem, e em muitos casos tiveram que se refugiar em lugares montanhosos, de onde era mais fácil se defender nos momentos de massacres. A chegada das cruzadas em 1099 permitiu uma breve época dourada para os cristãos árabes e a aparição de uma pequena comunidade católica latina árabe, proveniente em sua origem do restante das comunidades. Naquele momento, os católicos autóctones se resumiam a comunidade latinizada e a maronita. Esta última, surgida no século IV pelas pregações de São Maron, haviam se refugiado no século VII nas zonas montanhosas do Líbano. A chegada dos cruzados restaurou uma unidade católica, que os maronistas defendiam, jamais rompida depois. Na atualidade, seu patriarcado tem sede perto de Beirute (Líbano) e conta com 800 mil fiéis, principalmente no Líbano.

Nos anos seguintes, sob o domínio otomano, os cristãos isolados estiveram protegidos pela Rússia, e no caso dos ortodoxos e França pelo restante. A influência das ordens religiosas católicas, com um papel protagonista dos franciscanos que chega até nossos dias, fez com que parte daquelas comunidades cristãs, cuja única ajuda recebida procedia dos religiosos europeus, se aproximassem da Igreja Católica. Mantendo as peculiaridades próprias de cada rito, mas resolvendo em acordo as diferenças teológicas, foram reintegrados parte dos cristãos orientais a Igreja de Roma. Em 1552, os nestorianos realizaram seu retorno, com o nome de caldeus, e seu Patriarcado da Babilônia se localiza em Bagdá (Iraque), formando o núcleo essencial da comunidade católica iraquiana, composta por cerca de 500 mil fiéis, enquanto os nestorianos se mantém em torno 150 mil.

Do mesmo modo ocorreu com os jacobitas. Em 1663, uma parte da comunidade siríaca retomou as asas de Roma. Na atualidade, seu Patriarca de Antioquia reside em Beirute (Líbano) e a comunidade reúne 100 mil pessoas, mantendo-se umas 170 mil na igreja jacobita original. Quanto aos melquitas, 1724 se reintegraram em sua maior parte a Roma, mas mantendo sua rica liturgia. Seu patriarcado de Antioquia tem a residência estabelecida em Damasco (Síria) e conta com 450 mil fiéis, núcleo da comunidade católica síria. Quanto aos ortodoxos árabes, mantêm uma florescente comunidade de 800 mil pessoas, também em sua maior parte na Síria.

Com respeito as igrejas nacionais monofisitas, em 1741, se culminou um processo de negociações iniciado pela Igreja Católica que levou a uma parte mínima dos coptos ao reconhecimento da autoridade do Papa. Na atualidade, a Igreja Copta do Egito é calculada em 8 milhões de fiéis, que sofrem uma grande pressão, especialmente no sul do país, pela maioria islâmica. Os católicos são 150 mil e dispõe de seu próprio patriarcado em Cairo. Quanto aos armênios, que formam uma igreja nacional monofisita, seus componentes se espalharam por toda a Ásia menor. Pior: especialmente fora do seu lugar de origem, na Cilicia anatólica. Esta região costeira do Mediterrâneo prestou ajuda aos cruzados na época e sua atitude foi posteriormente próxima a dos ocidentais. Em 1741, se reintegraram a Igreja católica, e mesmo depois do genocídio de 1917, a maioria se refugiou no Líbano. Os armênios que vivem no Oriente Médio são 540 mil fiéis e outros 60 mil formam parte da comunidade católica com seu Patriarca de Cilicia residente em Beirute (Líbano).

Estas comunidades cristãs representam 2% da população de Israel, Palestina e Jordânia; 4% da do Iraque; 8% do da Síria; 10% da do Egito e 44% da do Líbano. Contudo, estas comunidades enfrentam a possibilidade de desaparecer com o despertar do fundamentalismo islâmico que toma os cristãos árabes como bodes expiatórios. Aliás, a frágil situação internacional destes países, especialmente desde a invasão do Iraque, produziu uma fuga em massa de jovens cristãos ao mundo ocidental. As comunidades cristãs enfrentam a terrível situação da emigração de seus melhores quadros profissionais e intelectuais. As aldeias se esvaziam e as comunidades se mantém pela regular chegada de cristãos provenientes do campo. Mas estas comunidades cristãs são de velhos, crianças e essencialmente mulheres. Os homens emigram e as mulheres cristãs, em uma sociedade patriarcal como a árabe, se não se casam, não são ninguém. Diante da ausência de homens jovens cristãos, se casam com muçulmanos, passando a formar parte da comunidade islâmica.

É nesta situação de claro perigo de desaparecimento que estão os cristãos árabes, sob o silêncio do mundo ocidental secular.

 

//Tradução de Adriel Santana. | Artigo original.


Sobre o autor

José Luis Orella

José Luis Orella é diretor do Departamento de História e Pensamento da Universidade San Pablo-CEU, doutor de História Contemporânea, presidente do Foro Abril, porta-voz do Foro de Salvador. Professor titular de História do Direito e das Instituições na Universidade do País Vasco e catedrático de História Medieval na Universidade de Deusto.



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