Esquerda Libertária Anticapitalismo de livre mercado

Publicado em 22 de julho de 2013 | por Sheldon Richman

Esquerda Libertária: o anticapitalismo de livre mercado

A campanha presidencial de Ron Paul de 2008 introduziu a muitas pessoas a palavra “libertário.” Como Paul é Republicano e os Republicanos, do mesmo modo que os libertários, usam a retórica dos mercados livres e da iniciativa privada, as pessoas naturalmente assumem que os libertários são algum tipo de rebento peculiar da direita estadunidense. Na verdade, algumas posições libertárias encaixam-se mal no conservadorismo convencional — completa descriminação das drogas, casamento legal entre pessoas do mesmo sexo e a crítica do estado de segurança nacional que alienam muitas pessoas da direita do libertarismo.

Não obstante, a linha dominante do libertarismo ainda parece à vontade naquele lado do espectro político. Louvor aos direitos de propriedade e à livre iniciativa — a convicção libertária convencional de que o sistema capitalista americano, a despeito da intervenção do governo, encarna fundamentalmente esses valores — parecem justificar essa conclusão.

Em seguida, porém, surgem passagens como esta:

“O capitalismo, surgindo como nova sociedade de classes diretamente da antiga sociedade de classes da Idade Média, foi fundado num ato de roubo tão maciço quanto a mais precoce conquista feudal da terra. Tem sido sustentado, até o presente, por contínua intervenção do estado na proteção de seu sistema de privilégio sem o qual sua sobrevivência é inimaginável.”

E esta:

“Construir solidariedade entre os trabalhadores. De um lado, isso significa organização formal, inclusive sindicalização — mas não estou falando do modelo prevalente de ‘sindicatos empresariais’ … e sim de sindicatos reais, à moda antiga, comprometidos com a classe trabalhadora e não apenas com membros do sindicato e interessados em autonomia dos trabalhadores, não em patrocínio do governo”.

Essas passagens — a primeira do erudito independente Kevin Carson, a segunda do professor de filosofia Roderick Long da Universidade Auburn — parecem vir não de libertários, e sim de esquerdistas radicais, marxistas até. Essa conclusão estaria apenas metade errada: essas palavras foram escritas por libertários da esquerda pró-livre mercado. (O termo preferido para expressar seu ideal econômico é “mercado liberto,” cunhado por William Gillis.)

Esses autores — e um crescente grupo de colegas — veem-se tanto como libertários quanto como esquerdistas. São libertários típicos na medida em que acreditam na legitimidade moral da propriedade privada e do livre comércio, e se opõem a toda interferência do governo em assuntos pessoais e econômicos — uma dicotomia sem fundamento e perniciosa. No entanto, são esquerdistas por compartilharem interesses esquerdistas tradicionais, por exemplo, quanto à exploração e desigualdade, que são em grande parte ignoradas, se não desqualificadas, por outros libertários. Os libertários de esquerda são favoráveis à solidariedade dos trabalhadores diante de seus chefes, ao apoio à ocupação, pelas pessoas, de propriedade do governo ou abandonadas, e preferem que os privilégios corporativos sejam revogados antes das restrições normativas acerca de como esses privilégios possam ser exercidos. Veem o Wal-Mart como um símbolo de favoritismo corporativo — apoiado por subsídios a rodovias e por desapropriações — veem a personalidade fictícia da corporação de responsabilidade limitada com suspeita e duvidam de que os locais de trabalho em condições vis do Terceiro Mundo constituam a “melhor alternativa” quando da ausência de manipulação pelo governo.

Os libertários de esquerda tendem a distanciar-se da política eleitoral, tendo pouca confiança em estratégias que funcionem por meio do governo. Preferem desenvolver soluções e métodos alternativos contornando o estado. A Alliance of the Libertarian Left (Aliança da Esquerda Libertária) estimula a formação de ativistas locais e organizações de ajuda mútua, enquanto seu website promove grupos afins e afixa artigos explicitando sua filosofia. O novo Center for a Stateless Society (Centro por uma sociedade sem estado), o C4SS, estimula os libertários de esquerda a levar ao público em geral suas análises de eventos correntes, por meio de artigos opinativos.

Esses libertários de esquerda do laissez-faire não devem ser confundidos com outras variedades de libertários de esquerda, tais como Noam Chomsky ou Hillel Steiner, os quais, cada um a seu modo, objetam à apropriação individualista de recursos naturais sem dono e à desigualdade econômica que os mercados libertos podem produzir. Os libertários esquerdistas ora considerados têm sido chamados de “libertários de esquerda orientados para o mercado” ou “anarquistas de mercado,” embora nem todos nesse campo sejam anarquistas.

Há fundamento histórico para situar o libertarismo pró-mercado na esquerda. Na primeira metade do século 19, o economista liberal de laissez-faire Frederic Bastiat sentava-se no lado esquerdo da Assembleia Nacional Francesa com outros opositores radicais do Ancien Régime, incluindo um grupo de socialistas. O lado direito era reservado para os defensores reacionários da monarquia absoluta e da plutocracia. Por longo tempo “esquerda” significou radical, até mesmo revolucionária, oposição à autoridade política, demitida pela esperança e otimismo, enquanto a “direita” significava simpatizava por um status quo de privilégio ou retorno a uma ordem autoritária. Esses termos foram utilizados até nos Estados Unidos, até bem dentro do século 20, e só começaram a mudar durante o New Deal, que deflagrou lamentáveis alianças de conveniência que se estenderam até a era da Guerra Fria e além.

Com risco de simplificação excessiva, há duas fontes do moderno libertarismo esquerdista pró-mercado: a teoria de economia política formulada por Murray N. Rothbard, a filosofia conhecida como “Mutualismo” associada ao anarquista pró-mercado Pierre-Joseph Proudhon — que se sentava com Bastiat no lado esquerdo da assembleia enquanto argumentava com ele incessantemente acerca de teoria econômica — e o anarquista individualista americano Benjamin R. Tucker.

Murray Rothbard, exemplo de pensador do libertarianismo

Murray Rothbard, exemplo de pensador do libertarianismo

Rothbard (1926-1995) foi o principal teórico do libertarismo lockeano radical conjugado com a economia Austríaca, a qual explica que os livres mercados produzem prosperidade disseminada, cooperação social e coordenação econômica sem monopólio, depressão ou inflação — males cujas raízes hão de ser encontradas na intervenção do governo. Rothbard, que se denominava “anarcocapitalista,” primeiro via-se como homem da “Old Right” (antiga direita) americana, a vaga coleção de opositores do New Deal e do Império Americano personificada pelo senador Robert Taft, o jornalista John T. Flynn e, mais radicalmente, Albert Jay Nock. Contudo, Rothbard entendia as raízes esquerdistas do libertarianismo.

Em seu clássico e abrangente ensaio de 1965 “Esquerda e Direita: Perspectivas para a Liberdade”, Rothbard identificou o “liberalismo clássico” — aquilo que hoje também é chamado de libertarianismo — com a esquerda como “o grupo da esperança, do radicalismo, da liberdade, da Revolução Industrial, do progresso, da humanidade.” A outra grande ideologia a surgir depois da Revolução Francesa “foi o conservadorismo, o partido da reação, o partido que ansiava restaurar hierarquia, o estatismo, a teocracia, a servidão e exploração de classe da Antiga Ordem”.b

Quando a New Left (nova esquerda) americana surgiu nos anos 1960 para opor-se à Guerra do Vietnã, ao complexo industrial-militar e à centralização burocrática, Rothbard prontamente fez causa comum com ela. “A esquerda mudou muito e é incumbente a toda pessoa interessada em ideologia entender essa mudança… [Essa] mudança marca uma infusão surpreendente e esplêndida do libertarianismo nas fileiras da esquerda”, escreveu ele em “Liberty and the New Left” (tradução livre: a liberdade e a nova esquerda). Seu radicalismo de esquerda ficou claro em seu interesse em descentralização e democracia participativa, favorável à reforma agrária aos camponeses no Terceiro Mundo feudal, “o Black Power” e “apropriação de propriedade” pelo trabalhador de corporações americanos cujos lucros viessem principalmente de contratos com o governo.

Entretanto, com o declínio da New Left, Rothbard deixou de enfatizar essas posições e moveu-se estrategicamente para o paleoconservatism (conservadorismo clássico) de direita. Seu colega libertário de esquerda, o antigo escritor de discursos de Goldwater, Karl Hess (1923-1994), manteve a tocha acesa. Em Dear America Hess escreveu:

“Na extrema direita, lei e ordem significa a lei de quem manda e a ordem que atende ao interesse de quem manda, usualmente a ordem dos trabalhadores sem vontade própria, dos estudantes submissos, dos mais velhos tanto totalmente intimidados à lealdade ou totalmente doutrinados e treinados nessa lealdade”, enquanto a esquerda “tem sido o lado da política e da economia que se opõe à concentração de poder e riqueza e, pelo contrário, defende e trabalha no sentido de distribuição do poder pelo número máximo de mãos.”

Benjamin Tucker, exemplo de pensador do libertarianismo de esquerda. Também conhecido pelo seu anarco-individualismo.

Benjamin Tucker

Benjamin Tucker (1854-1939) foi editor do Liberty, a principal publicação do anarquismo individualista americano.

Como mutualista, Tucker defendia rigorosamente mercados livres e intercâmbio voluntário isentos de todo privilégio e regulamentação do governo. Na verdade, ele se intitulava como “consistente homem de Manchester”, uma referência à filosofia econômica dos livre-mercadistas ingleses Richard Cobden e John Bright. Tucker desdenhava os defensores do status quo americano os quais, ao mesmo tempo em que favoráveis à livre competição entre trabalhadores em busca de emprego, apoiavam a supressão capitalista de competição entre os empregadores por meio dos “quatro monopólios” do governo: terra, tarifa, patentes e dinheiro.

“O que causa a distribuição desigual da riqueza?” perguntava Tucker em 1892.

“Não é a competição, e sim o monopólio, que priva o trabalhador de seu produto… Destruam o monopólio bancário, estabeleçam liberdade no setor financeiro e cairão os juros sobre o dinheiro por meio da influência benéfica da competição. O capital será libertado, os negócios florescerão, novas projetos serão iniciados, haverá demanda por trabalho, e gradualmente a remuneração do trabalho ascenderá ao nível de seu produto.”

Os rothbardianos e mutualistas têm alguns desacordos acerca de posse da terra e teorias do valor, mas sua polinização cruzada intelectual aproximou-os filosoficamente. O que os une, e os distingue de outros libertários de mercado é sua adoção de preocupações de esquerda, inclusive as consequências do poder corporativo plutocrático para os trabalhadores e outros grupos vulneráveis. Contudo, os libertários de esquerda diferem de outros esquerdistas ao identificarem o culpado como sendo a parceria histórica entre governo e empresas — seja ela chamada de estado corporativo, capitalismo de estado, ou simplesmente de capitalismo — e ao verem a solução no laissez-faire radical, na separação total entre economia e estado.

Assim, pois, por trás da filosofia político-econômica há uma visão da história que separa os libertários de esquerda tanto dos esquerdistas comuns quanto dos libertários comuns. As variedades comuns de ambas essas filosofias entendem que mercados essencialmente livres tiveram lugar na Inglaterra desde o tempo da Revolução Industrial, embora avaliem o resultado de maneira muito diferente. Os libertários de esquerda, porém, são revisionistas, insistindo em que a era de quase laissez-faire é um mito. Em vez de radical libertação das atividades econômicas, a Inglaterra viu a elite dominante viciar o sistema social em benefício dos interesses da classe detentora de propriedades. (A análise de classes originou-se com economistas franceses de livre mercado anteriores a Marx.)

Por meio do cerco, camponeses foram destituídos da terra que eles e seus familiares haviam trabalhado por gerações e foram transformados, à força, em arrendatários pagadores de aluguel ou assalariados nas novas fábricas com seus direitos à organização e à mudança, restritos por leis de assentamento, leis dos pobres e outros mais. Nas colônias americanos e no início da república, o sistema foi similarmente aparelhado por meio de doações de terra e especulação (para e por ferrovias, por exemplo), restrições ao voto, tarifas, patentes e controle do dinheiro e da atividade bancária.

Em outras palavras, o crepúsculo do feudalismo e a alvorada do capitalismo não encontraram todo mundo postado na linha de largada em condições de igualdade — longe disso. Como o sociólogo pró-mercado Franz Oppenheimer, que desenvolveu a teoria da conquista do estado, escreveu em seu livro The State (o estado, tradução livre), não foram talento superior, ambição, poupança e nem mesmo sorte que separaram a minoria detentora de propriedades da maioria proletária sem propriedade — e sim a pilhagem legal, parafraseando a famosa expressão de Bastiat.

Eis aqui algo que Marx entendeu corretamente. Na verdade, Kevin Carson endossa a “passagem eloquente” de Marx:

“esses novos homens livres só se tornaram vendedores de si próprios depois de terem sido roubados de todos os seus meios próprios de produção e de todas as garantias aportadas pelos antigos acordos feudais. E a história disso, de sua expropriação, está escrita nos anais do gênero humano em letras de sangue e fogo”.

Esse sistema de privilégio e exploração tem tido efeitos de duradoura distorção que continuam a afligir a maior parte das pessoas até hoje, enquanto beneficia a elite dominante; Carson chama isso de “o subsídio da história”. Isso não significa negar que o padrão de vida tem, de modo geral, aumentado em economias mistas orientadas para o mercado, e sim enfatizar que os padrões de vida para os trabalhadores médios seriam ainda mais altos — para não mencionar menos dívida baseada — e as disparidades de riqueza menos pronunciadas num mercado liberto.

O “anticapitalismo de livre mercado” do libertarianismo de esquerda não é uma contradição, nem desenvolvimento recente. Ele permeava o Liberty de Tucker e a identificação da exploração dos trabalhadores remonta a, pelo menos, Thomas Hodgskin (1787-1869), radical de livre mercado que foi um dos primeiros a aplicar o termo “capitalista” depreciativamente aos beneficiários de favores do governo concedidos ao capital em detrimento do trabalho. Nos séculos XIX e início dos XX, “socialismo” não significava exclusivamente propriedade coletiva ou estatal dos meios de produção, e sim era termo abrangente, para qualquer pessoa que acreditasse que o trabalho tinha seu produto natural ilegitimamente subtraído pelo capitalismo histórico.

Por vezes Tucker referia-se a si próprio como socialista, mas denunciava Marx como representante do “princípio de autoridade, pelo qual vivemos a combater.” Ele considerava Proudhon o teórico superior e o verdadeiro campeão da liberdade. “Marx nacionalizaria as forças produtivas e distributivas; Proudhon as individualizaria e associaria.”

O termo capitalista sugere que o capital deve ser privilegiado acima do trabalho. Como o autor libertário de esquerda Gary Chartier, da Universidade La Sierra, escreve,

“[Faz] sentido para [os libertários de esquerda] dar àquilo a que eles se opõem o nome ‘capitalismo.’ Fazer isso … assegura que os defensores da liberdade não sejam confundidos com pessoas que usam a retórica do mercado para dar sustentação a um injusto status quo, e expressa solidariedade entre os defensores dos mercados livres e os trabalhadores — do mesmo modo que as pessoas comuns em todo o mundo usam ‘capitalismo’ como rótulo abreviado para o sistema mundial que restringe sua liberdade e tolhe suas vidas.”

Em contraste com libertários não esquerdistas, que parecem não se interessar, isso quando não são hostis, às preocupações com o trabalho, os libertários de esquerda naturalmente simpatizam com os esforços dos trabalhadores para melhorarem suas condições. (Bastiat, do mesmo modo que Tucker apoiava associações de trabalhadores.) Entretanto, há pouca afinidade com sindicatos burocráticos certificados pelo governo, que representam pouco mais do que supressão corporativista do movimento pré-New Deal espontâneo e auto-dirigido/de ajuda mútua, com suas greves de solidariedade “não autorizadas” e boicotes. Antes da Lei Wagner do New Deal, grandes líderes de negócios, como Gerard Swope da GE, já por muito tempo haviam apoiado a legislação trabalhista por esse motivo.

Ademais, os libertários de esquerda tendem a abrigar uma inclinação contra emprego assalariado e, geralmente, a autoritária hierarquia corporativa à qual aquele está sujeito. Os trabalhadores, hoje, são prejudicados por uma série de regulamentos, impostos, leis de propriedade intelectual e subsídios às empresas que, em conjunto, tolhem a entrada no mercado de empregadores alternativos em potencial e a atividade de emprego autônomo. Também, crises econômicas periódicas deflagradas por empréstimos contraídos pelo governo e pela gerência do dinheiro e da atividade bancária feita pelo banco central ameaçam os trabalhadores com desemprego, colocando-os ainda mais à mercê dos chefes.

A cartelização inibidora da competição diminui o poder de barganha dos trabalhadores, permitindo que os empregadores os privem de uma porção da renda que eles receberiam numa economia livre e plenamente competitiva, onde os empregadores teriam de competir por trabalhadores — em vez do contrário — e o emprego autônomo livre de exigências de licenciamentos ofereceria uma fuga em relação ao emprego assalariado completamente. Obviamente, a atividade autônoma tem seus riscos e não seria para todos, mas seria mais atraente para mais pessoas se o governo não tornasse o custo de vida e, portanto, o custo de subsistência, artificialmente alto de muitas maneiras diferentes — desde códigos de construção e restrições ao uso da terra a padrões de produtos, subsídios a rodovias e medicina gerida pelo governo.

Num mercado livre, os libertários de esquerda esperam ver menos emprego assalariado e mais empresas de propriedade dos trabalhadores, cooperativas, associações e propriedades únicas. A revolução do desktop de baixo custo, da internet e das máquinas operatrizes baratas torna isso mais viável do que nunca. Não haveria socialização de custos por meio de subsídios ao transporte para favorecer o comércio nacional em vez do regional e local. Pode ser esperado espírito de independência que dê início a movimento rumo a essas alternativas pelo simples motivo de que o emprego, até certo ponto, implica sujeitar a pessoa à vontade arbitrária de outrem e à probabilidade de dispensa abrupta. Por causa da competição do emprego autônomo, o emprego assalariado permanecido, muito provavelmente, ocorreria em um local menos hierárquico, empresas mais humanas que, sem gozar de favores políticos, não poderiam socializar deseconomias de escala tão grandes quanto as grandes corporações de nossos dias.

Os libertários de esquerda, com base na obra dos historiadores da New Left, também discordam do ponto de vista conservador e libertário comum de que as regulamentações econômicas da Era Progressista e do New Deal foram impostas pelos social-democratas goela abaixo a uma comunidade de negócios apaixonada pela liberdade. Pelo contrário, como Gabriel Kolko e outros mostraram, a elite empresarial —  por exemplo, as histórias de bancários descritas no livro House of Morgan (A casa de Morgan, tradução livre) — voltou-se para intervenção do governo ao perceber, no final do século 19, que a competição era forte demais para lhes assegurar fatia de mercado.

Assim, pois, os libertários de esquerda veem os Estados Unidos pós-Guerra Civil não como uma era dourada de laissez-faire e sim, como uma consequência altamente corrupta da guerra dominada pelas empresas, caracterizado pela costumeira indústria militar e especulação com títulos do governo. Como em todas as guerras, o governo ganhou poder, e homens de negócios com boas conexões ganharam fortunas financiadas pelos pagadores de impostos e, portanto, vantagem injusta no alegadamente livre mercado da Gilded Age (a Era Dourada pós-Guerra Civil) americana. “A guerra é a saúde do estado,” escreveu o intelectual esquerdista Randolph Bourne. A Guerra Civil também.

Esses pontos de vistas históricos conflitantes são bem ilustrados nos escritos da novelista pró-capitalista Ayn Rand (1905-1982) e de Roy A. Childs Jr. (1949-1992), escritor-editor libertário com definida inclinação esquerdista. Na década de 1960 Rand escreveu um ensaio com o título autoexplicativo de “A Minoria Perseguida dos Estados Unidos: as Grandes Empresas,” ao qual Childs respondeu com “as Grandes Empresas e a Ascensão do Estatismo Americano”. “Em grande medida foram e continuam sendo os grandes homens de negócios as fontes do estatismo americano,” escreveu Childs.

Uma das maneiras de ver a distinção entre os libertários de esquerda e outros libertários de mercado é a seguinte: os outros olham a economia americano e veem um mercado essencialmente livre recoberto por fina camada de intervenção da Era Progressista e do New Deal que só precisa ser raspada para que a liberdade seja restaurada. Os libertários de esquerda veem uma economia corporativista até o cerne, embora com uma limitada livre iniciativa competitiva. Os programas que constituem o estado assistencialista são vistos como secundários e remediadores, isto é, visantes a evitar descontentamento social potencialmente perigoso mediante dar assistência às— e controlar  — pessoas prejudicadas pelo sistema.

Os libertários de esquerda colidem com os libertários convencionais mais frequentemente quando esses últimos exibem o que Carson chama de “libertarianismo vulgar” e o que Roderick Long chama de “fusionismo de direita.” Essa atitude consiste em julgar os negócios americanos no ambiente estatista de nossos dias como se estivessem tendo lugar num mercado liberto. Assim, embora os libertários não esquerdistas teoricamente reconheçam que as grandes empresas gozam de privilégios de monopólio, também defendem as corporações quando elas ficam sob ataque da esquerda, argumentando que se elas não estivessem servindo aos consumidores, o mercado competitivo as puniria.

“Os libertários vulgares apologistas do capitalismo usam a expressão ‘livre mercado’ em sentido equívoco,” escreve Carson, “[Eles] parecem ter dificuldade em lembrar, de um momento para o seguinte, se estão defendendo o capitalismo realmente existente ou princípios de livre mercado.”

Sinais de fusionismo de direita podem ser vistos na defesa comum dos libertários convencionais diante da crítica esquerdista de desigualdade de renda, estrutura corporativa dos Estados Unidos, os altos preços do petróleo ou sistema de saúde. Se não há livre mercado, por que ser defensivo? Geralmente você pode deixar um libertário não esquerdista louco ao comparar a Europa Ocidental favoravelmente em relação aos Estados Unidos. Quanto a isso, Carson escreve:

“[Se] você se denomina libertário, não tente enganar ninguém dizendo que o sistema americano é menos estatista do que o alemão só porque mais mamadores de tetas do governo vestem terno com colete… [Se] estivermos escolhendo entre níveis iguais de estatismo, obviamente ficarei com aquele que pese menos no meu pescoço.”

Fiéis a sua herança, os libertários de esquerda lutam em favor de outros grupos historicamente oprimidos: os pobres, as mulheres, pessoas de cor, gays e imigrantes, documentados ou não. Os libertários de esquerda veem os pobres não como oportunistas preguiçosos, e sim como vítimas das inúmeras barreiras do estado à ajuda autônoma, ajuda mútua e educação decente. Os libertários de esquerda naturalmente opõem-se à opressão das mulheres e das minorias pelo governo, mas desejam também combater formas não violentas de opressão social tais como racismo e sexismo. Visto essas não serem levadas a efeito pela força, as medidas usadas para oposição a elas também não podem implicar força ou o estado. Assim, pois, discriminação sexual e racial devem ser combatidas por meio de boicotes, publicidade e manifestações, sem violência ou leis anti-discriminatórias. Para os libertários de esquerda, o racismo sulista de balcão de lanchonete foi melhor combatido por meio de manifestações pacíficas do que com legislação em Washington, que meramente ratificou o que a ação direta vinha conseguindo sem ajuda da elite branca.

Por que os libertários de esquerda, por serem libertários, se preocupam com opressão não violenta e não estatal? Porque o libertarismo tem como premissa a dignidade e a auto-propriedade do indivíduo, pelo que o sexismo e racismo negam. Portanto, todas as formas de hierarquia coletivista solapam a atitude libertária e, portanto, as perspectivas de uma sociedade livre.

Numa palavra, os libertários de esquerda são a favor da igualdade. Não a igualdade material — que não pode ser conseguida sem opressão e sufocamento da iniciativa. Não mera igualdade sob a lei — pois a lei pode ser opressora. E não apenas liberdade igual  — pois quantidade igual de pouca liberdade é intolerável. Eles são a favor do que Roderick Long, recorrendo a John Locke, chama de igualdade de autoridade:

“A igualdade lockeana envolve não apenas igualdade perante legisladores, juízes e políciais, mas, muito mais crucialmente, igualdade com legisladores, juízes e polícia.”

Finalmente, como a maioria dos libertários comuns, os libertários de esquerda opõem-se inflexivelmente à guerra e ao império americano. Eles adotam uma análise essencialmente econômica do imperialismo: empresas privilegiadas buscam acesso a recursos, a mercados externos em busca de bens excedentes e a maneiras de impor leis de propriedade intelectual a sociedades industriais emergentes, para impedir que fabricantes estrangeiros reduzam os preços graças a competição. (Isso não é dizer não haver fatores políticos, adicionais por trás do ímpeto em busca de império.)

Nos dias de hoje os libertários de esquerda veem sua posição reconhecida. A política externa americano atolou o país em infindáveis guerras abertas e encobertas, com seu alto custo em sangue e riqueza, no Oriente Médio e na Ásia Central ricos de recursos — com tortura, detenção por tempo indefinido e vigilância entre mais outras agressões a liberdades civis dentro do país. Enquanto isso, a histórica aliança Washington-Wall Street — na qual a irresponsabilidade com o dinheiro das outras pessoas promovida por meio de garantias, socorros financeiros e simulacros de liquidez do banco central apresentados como desregulamentação — levou a mais uma crise financeira com seu pesado tributo sobre o americano médio, com mais insegurança no emprego e potencialização da influência de Wall Street.

Tal nocividade só pode apressar o dia quando as pessoas descobrirem a alternativa libertária de esquerda. Essa é a expectativa realista? Talvez. Muitos americanos sentem que algo está profundamente errado com seu país. Sentem que suas vidas são controladas por um governo muito inchado e burocracias corporativistas que consomem seu patrimônio e os tratam como súditos. No entanto, não lhes agrada a social-democracia de estilo europeu, muito menos o socialismo de estado pleno. O libertarismo de esquerda poderá ser o que eles estão buscando. Como escreve o mutualista Carson,

“Por causa de nossa afeição por mercados livres, os mutualistas por vezes conflitam com aqueles que têm afinidade estética com o coletivismo ou com aqueles para os quais ‘pequeno-burguês’ é palavrão. Porém são nossas tendências pequeno-burguesas que nos colocam na corrente majoritária da tradição populista/radical americano, e nos tornam relevantes para as necessidades dos trabalhadores médios americanos.”

Carson acredita que os cidadãos comuns estão começando a “descrer nas organizações burocráticas que controlam suas comunidades e vidas de trabalho e que desejam mais controle sobre as decisões que os afetam. Eles estão abertos à possibilidade de alternativas descentralizadoras, de baixo para cima, ao sistema presente.” Esperemos que ele esteja certo.

Tradução de Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme.

Revisão de Rodrigo Viana e Matheus Pacini || Artigo Original


Sobre o autor

Sheldon Richman

Sheldon Richman é um escritor político americano, acadêmico, ex-editor da revista The Freeman, atual vice presidente da Future of Freedom Foundation e editor da Future of Freedom, publicação mensal da FFF.



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