Objetivismo caridade

Publicado em 3 de março de 2014 | por George H. Smith

O altruísmo não é compatível com a caridade

[ Esse artigo faz parte da série "Ayn Rand e o altruísmo". Veja também as partes anteriores I e IIIII e IV. De qualquer modo, não é necessário lê-las para entender a parte IV que segue abaixo.]

Em “Benevolência versus Altruísmo” (The Objectivist Newsletter, Julho de 1962), Nathaniel Branden condenou a “venda casada” que liga altruísmo ao “princípio da benevolência, boa vontade, e bondade para com os outros”. Essa afirmação é “pior do que um engano”; de fato, “altruísmo e benevolência não são apenas diferentes, eles são mutuamente contrários e contraditórios”. Branden concluiu seu artigo da seguinte forma:

A escolha não é entre egoísmo ou boa vontade entre os homens. A escolha é: altruísmo ou boa vontade, benevolência, amor e irmandade humana.

Encontrar, na publicação oficial Objetivista daquela época, referências positivas à bondade, irmandade humana, e noções similares, pode ser chocante para muitos dos detratores de Ayn Rand que insistem em retrata-la como um Ebenezer Scrooge de mau humor. Mas essa e outras deturpações notórias das visões de Rand se tornaram a regra ao invés da exceção, então não deveria ser surpresa para aqueles que realmente leram o que Rand (e Branden) escreveram sobre o tópico da benevolência.

De acordo com Rand, “Nenhum homem pode ter um direito de impor uma obrigação não escolhida, um dever não recompensado ou uma servidão involuntária a outro homem. Não pode haver tal coisa como ‘o direito de escravizar’”. Esse “direito de escravizar” é precisamente como Rand via o altruísmo, que prega o auto-sacrifício e serviço aos outros como um dever moral e, em última análise, como um dever político que deveria ser imposto pelo poder do governo.

Embora Rand entendesse que houve “variantes da doutrina altruísta-coletivista que subordinava o indivíduo a uma autoridade maior”, ela insistiu, repetidas vezes, que o suposto dever do auto-sacrifício, em qualquer forma que se manifestou, invariavelmente minou a noção de direitos individuais e, portanto, minou as fundações morais de uma sociedade livre.

Um defensor consistente de direitos deve apoiar o direito dos indivíduos de buscar seus próprios valores de acordo com seus próprios julgamentos, contanto que eles respeitem os mesmos direitos dos outros. Direitos são uma concepção moral que “preserva e protege a moralidade individual em um contexto social”, os “meios de subordinar a sociedade à lei moral”.

O altruísmo, em contraste, é um tipo de “canibalismo moral” no qual algumas pessoas são sacrificadas a outras em nome do “dever”. E como o altruísmo não pode ser praticado consistentemente (é impossível sacrificar todos para todos), na prática, o altruísmo se equivale ao “direito” dos governos, falando em nome da “sociedade” (ou alguma outra abstração coletiva), para decidir quem deveria ser sacrificado a quem, e para forçar suas decisões por meios coercivos. O altruísmo, portanto, resulta em uma sociedade profundamente amoral—uma sociedade em que os governantes são “isentos da lei moral” e alegam o direito de dispor das pessoas e das propriedades como eles bem entenderem.

É essencial na análise de Rand sobre o altruísmo, a brilhante linha moral que ela traçou entre persuasão e coerção. Em “O que é Capitalismo?”— na minha opinião, um de seus melhores ensaios — Rand argumenta que:

Uma tentativa de alcançar o bem pela força física é uma contradição monstruosa que nega a moralidade em sua raiz, ao destruir a capacidade do homem de reconhecer o bem, ou seja, sua capacidade de valorizar.

A força invalida e paralisa o julgamento do homem, demandando que ele aja contra seu julgamento, assim tornando-o moralmente impotente. Um valor que alguém é forçado a aceitar, ao preço de entregar sua mente, não é um valor para ninguém; os forçosamente irracionais não podem julgar, nem escolher, nem valorizar. Uma tentativa de alcançar o bem pela força é como uma tentativa de fornecer a um homem uma galeria de fotos, ao preço de arrancar seus olhos.

A conclusão desse argumento, para nosso propósito, é que o altruísmo é totalmente desprovido de valor moral, mesmo se aceitarmos a premissa (a qual Rand não aceitou) de que a disposição em ajudar os outros é uma grande virtude. Caridade voluntária é uma coisa, mas caridade coerciva é uma verdadeira contradição em termos. A coerção só é necessária quando alguém não consegue persuadir outros a agir como pensa que eles deveriam. E forçar alguém a tomar uma ação é despir essa ação de qualquer valor moral que ela de outra forma teria.

Considere esses dois cenários. No primeiro, eu acredito (por qualquer razão) que você deveria contribuir com mil dólares para a Cruz Vermelha, e eu obtenho êxito em lhe persuadir a fazer isso. No segundo, eu falho na minha tentativa de lhe persuadir a doar mil dólares, então eu lhe ameaço através da força a não ser que você obedeça, enquanto explico que estou apenas forçando seu dever moral de ajudar os outros. Você então obedece minha exigência, preferindo entregar seu dinheiro ao invés de arriscar sofrer o dano que eu ameacei lhe infligir.

Superficialmente, suas ações em ambos os cenários são idênticas. Isto é, em ambos os casos você acabou transferindo mil dólares para a Cruz Vermelha. Mas as duas ações diferem radicalmente sob um ponto de vista moral. No primeiro cenário, você é livre para concordar ou não; você é livre para avaliar o desejo de uma potencial ação benevolente em todo contexto de seus valores pessoais. O segundo cenário não lhe apresenta essa opção; você concorda em entregar seu dinheiro, não porque você valoriza a caridade, mas apenas porque você teme as consequências de não obedecer meu comando coercivo.

Em “A Unidade de Uma Nação” (The Ayn Rand Letter, 23 de Outubro de 1972), Rand identifica o medo como sendo uma diferença crucial entre benevolência e altruísmo.

Benevolência é incompatível com medo. Apenas quando um homem sabe que seus vizinhos não têm poder de interferir forçosamente com sua vida, ele pode se sentir benevolente em relação a eles, e os vizinhos em relação a ele—como a história do povo americano demonstrou…Já que a concordância no princípio dos direitos individuais não impõe qualquer dogma oficial e não viola a convicção de ninguém, a maior variedade de visões e ideias poderia coexistir pacificamente no mesmo país sem ameaçar ninguém. Se dois homens discordavam, eles eram livres para não lidar um com o outro, e nenhum podia forçar suas escolhas no outro.

Nathaniel Branden argumentou de forma similar em “Benevolência versus Altruísmo”:

Pela natureza da ética altruísta, ela só pode gerar medo e hostilidade entre os homens: ela força os homens a aceitarem o papel de vítima ou de executor, como objetos de sacrifício ou como aproveitadores dos sacrifícios humanos—e não deixa nenhum padrão de justiça aos homens, nenhuma maneira de saber o que eles podem exigir e o que devem renunciar, o que é deles por direito, e o que é deles, por favor, o que é deles pelo sacrifício de outra pessoa—assim arremessando-os em uma selva amoral. Ao contrário das pretensões dos defensores do altruísmo, é a irmandade humana e a boa vontade entre os homens que o altruísmo torna impossível.

Benevolência, boa vontade e respeito pelos direitos dos outros procedem de um código de moralidade oposto: do princípio que o homem, o indivíduo, não é um objeto de sacrifício mas uma entidade de valor supremo; que cada homem existe para seu próprio bem, e que não é um meio para os fins dos outros; que ninguém tem o direito de sacrificar ninguém.

Em uma carta a John Hospers (29 de Abril de 1961), Rand escreveu que “a caridade é uma questão marginal, no que diz respeito à ética”. A caridade pode ser “moralmente adequada”, mas não é moralmente necessária e não deveria ser tratada como uma “grande virtude”.

As condições em que Rand considerava a caridade moralmente adequada não são especificamente relevantes a minha discussão de seus pontos de vista sobre o altruísmo, já que ela via caridade (e benevolência em geral) e altruísmo como pólos opostos. Eu chamei atenção para o aval de Rand à caridade voluntária, em algumas circunstâncias, para refutar a alegação absurda de alguns críticos, de que Rand defendia o “egoísmo” no sentido vulgar, segundo o qual um egoísta não deveria mostrar preocupação com o bem estar dos outros. Esse não era o argumento dela.

E não é como se seus críticos precisassem se aprofundar nos ensaios mais obscuros de Rand para entender seus argumentos sobre altruísmo e como ela distinguia o altruísmo da caridade. Rand claramente explicou a diferença essencial no Discurso de Galt.

Um passo básico na aprendizagem do amor-próprio é encarar como sinal de canibalismo toda exigência de ajuda. O homem que exige ajuda de vocês está afirmando que a sua vida é propriedade dele – e, por mais repugnante que isso seja, há algo ainda mais repugnante: concordar e aceitar. Perguntam vocês: ‘É bom ajudar outro homem?’ Não, se ele afirma que se trata de um direito dele ou de um dever moral seu; sim, se isso é o que vocês desejam, com base no prazer egoísta que lhes proporciona o valor da pessoa e a luta do outro.

Herbert Spencer, cujos pontos de vista sobre a caridade eram similares aos de Rand, uma vez estimou que “em três de cada quatro casos de supostas opiniões minhas condenadas por oponentes, não são minhas opiniões, mas opiniões erroneamente atribuídas a mim por eles.” Os críticos de Rand, parece, estão determinados a passar a marca dos três-quartos e assim estabelecer um novo recorde por falta de integridade intelectual.

Tais deturpações são o destino provável de qualquer libertário que ouse argumentar pela supremacia moral da interação voluntária sobre a interação coerciva. Se você não acredita que um governo deveria coercivamente obrigar x, então você só pode ser contra x em si. Q.E.D.

Bertrand Russell uma vez disse que a maioria das pessoas preferiria morrer à pensar; de fato, muitos preferem. Sendo assim, muitos dos críticos de Rand deveriam ter se autodestruído há muito tempo.

// Tradução de Felipe Alessandro. Revisão de Matheus Pacini. Artigo Original


Sobre o autor

George H. Smith

George H. Smith é Senior Research Fellow do Institute for Humane Studies, também é professor de História Americana nos Seminários de Verão do CATO Institute. Recentemente, Smith teve seu quarto livro, The System of Liberty, publicado pela Cambridge University Press.



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