História do Pensamento Econômico Adam Smith

Publicado em 5 de fevereiro de 2015 | por Murray N. Rothbard

Como Adam Smith conquistou a França

[Trecho retirado do livro An Austrian Perspective on the History of Economic Thought, vol. 2, Classical Economics (1995).]

Um dos grandes enigmas na história do pensamento econômico, como indicamos no Volume 1 do livro, é por que Adam Smith foi capaz de “zerar” a disciplina e desfrutar a reputação de “fundador da ciência econômica” mesmo com Cantillon e Turgot sendo superiores, tanto na análise econômica técnica como na defesa do laissez-faire. O mistério é maior para a França, já que na Grã-Bretanha as únicas escolas concorrentes com os smithianos eram a mercantilista e a tecnocrata (baseada na estatística e aritmética).

O mistério aprofunda-se quando percebemos que o grande líder dos economistas franceses depois de Smith, Jean-Baptiste Say (1767–1832), era um verdadeiro seguidor da tradição Cantillon-Turgot ao invés da smithiana, embora ele tenha negligenciado os primeiros e proclamado que a economia havia começado com Adam Smith. Say estava supostamente e tão só sistematizando as maravilhosas porém rudimentares verdades encontradas no livro A Riqueza das Nações. Veremos abaixo a natureza precisa do pensamento de Say e suas contribuições, assim como sua lógica decididamente “francesa” não-smithiana, sua clareza lógica “pré-austríaca” e a ênfase no método praxeológico axiomático-dedutivo sobre a utilidade como a única fonte de valor econômico, sobre o empreendedor, sobre a produtividade dos fatores de produção e sobre o individualismo.

Especificamente, em seus breves comentários sobre a história do pensamento no seu livro Tratado de Economia Política, Say não faz qualquer menção a Cantillon. Apesar da influência considerável de Turgot em sua doutrina, ele totalmente descarta Turgot, considerando-o sólido em política, mas de nenhuma relevância em economia, e afirma que a economia política na verdade começa com o livro de Adam Smith A Riqueza das Nações. A curiosa rejeição intencional de seus próprios antepassados torna-se obscura pelo fato vergonhoso de não haver uma única biografia de Say na língua inglesa, e pouco mesmo em francês.

Talvez possamos entender essa postura tendo em conta o seguinte: na França, a economia esteve por muito tempo associada aos fisiocratas, les économistes. A demissão de Turgot do seu cargo de ministro geral das finanças em 1776 e o consequente fim de suas reformas liberais serviu para desacreditar todo o movimento fisiocrata. Turgot foi, infelizmente, considerado pela opinião pública como um mero coadjuvante no movimento fisiocrata e seu membro mais influente no governo.

Após essa perda de influência política, os filósofos franceses e os líderes da intelligentsia se sentiram livres para zombar e ridicularizar os fisiocratas. Alguns aspectos de fanatismo da fisiocracia deixaram-na vulnerável ao desprezo, e os encyclopédistes, embora em geral pró-laissez-faire, lideraram o ataque.

A chegada da Revolução Francesa acelerou o fim da fisiocracia. Em primeiro lugar, a própria Revolução foi tão focada no aspecto político que não permitiu a manutenção do interesse na teoria econômica. Em segundo lugar, a devoção estratégica dos fisiocratas à monarquia absolutista tendeu a desacreditá-los em uma era em que as monarquias estavam sendo derrubadas e destruídas.

Além disso, os fisiocratas, com sua ênfase na produtividade exclusiva da terra, estavam associados com devoção ao interesse aristocrático pela terra. A Revolução Francesa contra o regime aristocrático e a posse de terra feudal não tinha paciência com a fisiocracia. A impaciência foi agravada pelo surgimento do industrialismo e a Revolução Industrial, deixando cada vez mais absoleta a devoção fisiocrata à terra.

Todos esses fatores serviram para desacreditar totalmente os fisiocratas, e já que Turgot infelizmente era identificado como um fisiocrata, sua reputação foi reduzida ao mesmo tempo. Essa situação foi agravada pelo fato de que o antigo ajudante de Turgot e amigo próximo, editor e biógrafo foi o último dos fisiocratas, o estadista Pierre Samuel DuPont de Nemours (1739–1817), o qual piorou a situação ao distorcer deliberadamente o ponto de vista de Turgot para fazê-la parecer mais perto da fisiocracia quanto possível.

Originalmente, o livro A Riqueza das Nações foi mal recebido na França. Os fisiocratas então-dominantes desprezaram-no como uma imitação vaga e pobre de Turgot. Entretanto, o grande libertário Condorcet, que tinha sido um amigo próximo e biógrafo de Turgot, escreveu notas admiráveis anexadas a várias traduções francesas de A Riqueza das Nações. E a viúva de Condorcet, Madame de Grouchy, continuou o interesse da família nos estudos smithianos ao preparar uma tradução francesa do livro A Teoria dos Sentimentos Morais.

Mais tarde, nos anos 1790, os fisiocratas remanescentes seguiram agradavelmente os passos dos smithianos. Smith, apesar de tudo, favorecia o laissez-faire, e era quase por completo pró-agricultura, afirmando que o trabalho agrícola era a fonte principal de riqueza. Como resultado, a maioria dos fisiocratas tornou-se pré-smithiana na França, liderados pelo Marquis Germain Garnier (1754–1821), o primeiro tradutor francês do livro A Riqueza das Nações, que apresentou a doutrina smithiana à França em seu livro Abrégé élémentaire des principes de l’économie politique (1796).

// Tradução de Robson Silva. Revisão de Matheus Pacini. | Artigo Original


Sobre o autor

Murray N. Rothbard

Murray Newton Rothbard é um dos luminares do Liberalismo no séc. XX. Além de um brilhantíssimo economista, foi o maior propulsor e definidor do moderno movimento político libertário. É também o fundador da doutrina que ele chamou de Anarcocapitalismo.



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