Saúde Acabando com a Guerra aos Rins

Publicado em 22 de julho de 2014 | por Sandy Ikeda

Acabando com a Guerra aos Rins

Embora a expressão “Guerra às Drogas” só tenha sido criada em 1972 durante o mandato de Richard Nixon, o combate às drogas começou em 1914. A Guerra aos Rins começou em 1984.

Com frequência nós ouvimos sobre como a proibição de drogas levou à criação do crime organizado, o aumento da violência aqui e no exterior, e a um incremento na potência dos entorpecentes e uma redução da segurança pública (Veja exemplos aqui e aqui). A solução para essas consequências negativas não intencionais, mas previsíveis é a legalização. Assim também o é para a venda de órgãos – rins em particular.

Enquanto isso no Irã…

Desde 1984, sob a liderança do senador Al Gore, o governo dos Estados Unidos tornou a venda ou compra de rins ilegal, criando assim uma “guerra aos rins”. Novamente, as consequências, não intencionais mas previsíveis, são, em grande parte, negativas.

De acordo com a Human Resources and Services Administration (Departamento de Recursos Humanos e Serviços) existem atualmente mais de 93.000 pessoas nos Estados Unidos na lista de espera por um doador. Outra fonte estima que a listra cresce de 3.000 a 4.000 candidatos por ano. Em outro local é possível encontrar a informação que entre 1988 e 2008,  o número de transplantes de rins feitos nos Estados Unidos variou de 8.873 (em 1988) ao pico de 17.091 (em 2006), constituindo-se em uma média de 13.847 ao ano. Enquanto isso pode indicar uma lista decrescente de candidatos, a grande realidade é que o número dos que morrem esperando na fila chega aos milhares.

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos, por exemplo, afirma que 18 pessoas morrem diariamente esperando por um doador. Isso significa 6.570 mortes por ano, e embora seu número da lista de espera seja consideravelmente maior do que a HRSA, elas estão no mesmo estado.

A venda de rins é legal no Irã, o país oferece um mix de financiamento público e privado para o transplantes de rins. Não é surpresa que as listas de espera por lá sejam praticamente inexistentes (devido a uma oferta maior), e o número de pessoas que morrem na fila também.

Além disso, a incidência do mercado negro e do “turismo médico” – no qual estrangeiros relativamente ricos viajam para países relativamente pobres para comprar rins localmente ou realizar outros procedimentos executados a um custo menor do que nos Estados Unidos – provavelmente cairiam, assim como a legalização do álcool depois da proibição reduziu a venda clandestina e as orgias alcoólicas em banheiras.

Qual é o lado negativo?

Ainda que algumas estimativas apontem que o custo de um rim possa ser de US$ 100.000,00 – o que faria com que o custo total de um transplante saísse por US$ 350.000,00 – é importante ter em mente, que além do valor das vidas salvas, o dinheiro economizado em diálises desnecessárias gira em torno de US$ 70.000,00 por pessoa ao ano. (Veja também esse artigo na The Economist)

Alguns argumentam que somente os ricos conseguiriam órgãos e somente os pobres morreriam vendendo-os. O mercado negro e o turismo médico existente já reforçam tal tendência através da manutenção de altos preços. O livre mercado de órgãos significa que os relativamente pobres simplesmente forneceriam aos relativamente ricos? Talvez. Via de regra, abusos aconteceriam? Sim, assim como acontecem em outras áreas de transplante de órgãos – por exemplo, hospitais precários ou cuidados médicos ruins. Ninguém sugere proibir hospitais ou doutores porque alguns hospitais ou alguns doutores ocasionalmente cometem erros. A cura está basicamente na maior competição, o pré-requisito de que se está fazendo a venda de órgãos algo lícito.

Algumas pessoas descartam totalmente a ideia de um mercado de rins, e outras podem ter algumas reservas sobre estender a lista a outras partes de nossos corpos. Parte disso pode ser atribuída a uma resistência social e ética à “comercialização do corpo humano”. Talvez, essa seja uma preocupação válida. É interessante notar, contudo, que existe um mercado de cadáveres, então, parece ok pagar por corpos, mas não por órgãos.

E o que dizer de outros órgãos e partes do corpo? A questão dos rins – ou olhos, mãos e pés – é que removê-los de nossos corpos não significa morte ou, no caso dos rins, qualquer declínio significativo na qualidade de vida do doador. Mas e o que dizer de algo vital como um coração, que significaria morte certa? Essa é uma questão difícil a qual podemos não conseguir tratar nesse momento. Vamos começar pelos rins.

A alternativa moral

Eu confesso que me sinto desconfortável com a questão da venda de partes do corpo. Da mesma forma, eu nunca recomendaria a ninguém, nem a mim mesmo, usar cocaína por diversão. Mas eu não lutaria pela proibição da cocaína, e meus receios sobre vender partes do corpo não me impedem de apoiar a legalização, especialmente quando um argumento plausível possa ser proposto (como nesse vídeo de James Stacey Taylor), o qual explica porque a proibição em si seria imoral. Vender partes do corpo por dinheiro deveria ser tão ilegal quanto permitir às pessoas ganhar seu sustento pescando caranguejos no mar ou desistir de sua vida em prol de uma causa na qual acreditam. Eu posso desaprovar uma prática que prejudica o praticante, contudo, isso por si só não me dá o direito de impedi-lo, especialmente se não prejudica a outra pessoa.

Por fim, hoje é considerado perfeitamente legal e moral permitir ao marido A doar seu rim para a sua esposa B sem compensação. Ou, se o rim de A não é compatível para o corpo de B, é normal para A doar a C, cujo marido D poderia então doar a B. É como trocar uma cabra por uma pilha de tijolos (de Jack), trocando-a por um saco de trigo (com Jill), o que era o que você queria em troca de sua cabra desde o início. Enquanto a Internet e websites criativos tornaram a troca de órgãos dessa forma mais fácil do que no passado, os humanos há muito desenvolveram outra instituição que faz a mesma coisa: comprar e vender por dinheiro.

Criminalizar atividades – drogas, prostituição e venda de órgãos – normalmente gera consequências que são sempre não intencionais, todavia, com a ajuda de algum conhecimento econômico básico, na maioria dos casos, previsíveis. Após décadas e mais de US$ 1 tri de dólares gastos, além de diversas vidas arruinadas, uma conferência de cúpula de políticos latino-americanos no início desse ano declarou que “a guerra às drogas fracassou”, um sentimento que ecoa ao redor do mundo.

É hora de nosso governo acabar com a Guerra aos Rins, também.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Sandy Ikeda

Sandy Ikeda é Professor de Economia na Purchase College da Universidade Estadual de Nova York, local em que recebeu o seu Ph.D. em economia e onde estudou com Israel Kirzner, Mario Rizzo, Fritz Machlup e Ludwig Lachmann. Autor de "The Dynamics of the Mixed Economy: Toward a Theory of Interventionism (1997).", é um Associado do Institute for Humane Studies (IHS).



Voltar ao Topo ↑