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Os construtores de monumentos

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O que foi uma vez um pretenso ideal é agora um esqueleto esfarrapado agitando-se como um espantalho ao vento, sobre to­do o mundo; mas os homens carecem de coragem para dar uma olhada para cima e descobrir a caveira com seu sorriso malicioso exposto sob os trapos ensangüentados. Este esqueleto é o socialismo.

Há cinqüenta anos atrás, deve ter havido alguma desculpa (em­bora sem justificativa) para a crença generalizada de que o socialis­mo é uma teoria política motivada pela benevolência e que aspira a conquista do bem-estar dos homens. Hoje, esta crença já não pode ser considerada como um erro inocente. O socialismo foi ten­tado em cada continente do globo. À luz de seus resultados, está na hora de se perguntar os motivos dos defensores do socialismo.

A característica essencial do socialismo é a negação dos direi­tos da propriedade individual; sob este sistema, o direito à proprie­dade (o direito de uso e controle) é outorgado à "sociedade co­mo um todo", isto é, coletivamente; a produção e a distribuição são controladas pelo Estado, ou seja, pelo governo.

O socialismo pode ser estabelecido pela força, como na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas — ou por voto, como na Alemanha (Nacional Socialista) Nazista. O grau de socialização pode ser total, como na Rússia — ou parcial, como na Inglaterra. Teoricamente, as diferenças são superficiais; na prática são apenas uma questão de tempo. O princípio básico, em todos os casos, é o mesmo.

Os supostos objetivos do socialismo eram: abolição da pobreza, conquista da prosperidade geral, do progresso, da paz e da fraternidade humana. Os resultados têm sido um fracasso aterrori­zante — aterrorizante no caso da razão ser o bem-estar dos homens.

Ao invés de prosperidade, o socialismo trouxe a paralisia e/ou colapso econômico a cada país que o experimentou. O grau de socialização tem sido o grau do desastre. As conseqüências têm variado correspondentemente.

A Inglaterra, uma vez a nação mais livre e mais orgulhosa da Europa, foi reduzida ao status de uma potência de segunda clas­se e está perecendo lentamente de hemofilia, perdendo o melhor de seu sangue econômico: a classe média e os profissionais. Os ho­mens capazes, competentes, produtivos e independentes estão par­tindo aos milhares, migrando para o Canadá ou Estados Unidos, na busca da liberdade. Estão fugindo do reino da mediocridade, desse desagradável lar para pobres de onde, tendo vendido seus direitos em troca de dentaduras grátis, os reclusos estão agora se queixando que preferem ser vermelhos do que mortos.

Em países mais completamente socializados, a fome foi o co­meço, a insígnia que anunciava o regime socialista — como na Rússia Soviética, na China Vermelha, em Cuba. Nestes países, o socialismo reduziu o povo a uma pobreza inexprimível de eras pré- industriais, à literal inanição, e manteve-os num nível estagnado de miséria.

Não, não é "apenas temporário", como os apologistas do so­cialismo têm dito por meio século. Após quarenta e cinco anos de planejamento governamental, a Rússia ainda é incapaz de resol­ver o problema de alimentar sua população.

No que diz respeito à produtividade superior e à rapidez de progresso econômico, a pergunta de todas as comparações entre o capitalismo e o socialismo foi respondida de uma vez por todas — para qualquer pessoa honesta — pela presente diferença entre Berlim Ocidental e Oriental.

Ao invés de paz, o socialismo apresentou um novo tipo de in­sensatez horripilante, nas relações internacionais — a "guerra fria", que é o estado de guerra crônica com períodos não-declara- dos de paz entre invasões injustificadamente repentinas — com a Rússia apoderando-se de um terço do globo, com as tribos e na­ções socialistas nas gargantas uns dos outros, com a índia socialista invadindo Goa, e a China comunista invadindo a índia socialista.

Um sinal eloqüenteda corrupção moral de nossa era é a com­placência insensível com a qual a maioria dos socialistas e seus sim­patizantes, os "liberais", consideram as atrocidades perpetradas nos países socialistas. É como aceitam o governo pelo terror co­mo um meio de vida — enquanto posam como defensores da "fra­ternidade humana". Na década de trinta deste século, protestaram contra as atrocidades da Alemanha Nazista. Mas, aparentemente, não foi uma questão de princípios, mas apenas o protesto de uma gangue rival lutando pelo mesmo território — porque não ouvi­mos mais suas vozes.

Em nome da "humanidade", eles toleram e aceitam a aboli­ção de toda liberdade e todos os direitos, a expropriação de toda a propriedade, execuções sem julgamento, câmaras de torturas, campos de trabalho escravo, a chacina em massa de incontáveis milhões na Rússia Soviética — e o horror sangrento de Berlim Oriental, incluindo os corpos crivados de balas de crianças que ten­tavam escapar.

Quando se observa, como num pesadelo, esforços desespera­dos feitos por centenas de milhares de pessoas lutando para fugir dos países socializados da Europa, para fugir das cercas de ara­me farpado, sob o fogo de metralhadoras — já não se pode acre­ditar que o socialismo, em qualquer de suas formas, é motivado pela benevolência e pelo desejo de alcançar o bem-estar dos homens.

Nenhum homem autenticamente benevolente poderia fugir ou ignorar tamanho horror em tão vasta escala.

O socialismo não é um movimento do povo. É um movimen­to de intelectuais, levado por eles para fora de suas torres sufocan­tes de marfim em direção a estes campos sangrentos da prática on­de se unem com seus aliados e executores: os facínoras.

Qual é então o motivo destes intelectuais? Ânsia de poder. A ânsia de poder — como uma manifestação de desamparo, de auto-repugnância e de desejo pelo não-merecido.

O desejo pelo não-merecido tem dois aspectos: o não-mereci­do em matéria e o não-merecido em espírito. (Por "espírito" que­ro dizer: a consciência do homem.) Estes dois aspectos estão neces­sariamente interrelacionados, mas o desejo de um homem pode ser focalizado predominantemente em um ou em outro. O desejo pelo não-merecido em espírito é o mais destrutivo dos dois e o mais corrupto. É o desejo pela magnitude não-merecida, é ex­presso (mas não definido) pela escuridão nebulosa do termo "prestígio".

Os caçadores de benefícios materiais não-merecidos são sim­plesmente parasitas financeiros, vagabundos, saqueadores ou cri­minosos, limitados demais em número e em inteligência para serem uma ameaça à civilização, até e a menos que sejam libertados e le­galizados pelos caçadores da grandiosidade não-merecida.

A grandiosidade não-merecida é tão irreal, tão neurótica em conceito, que o infeliz que a procura não pode identificá-la: identificá-la é torná-la impossível. Ele precisa de slogans irracionais e in­definíveis do altruísmo e do coletivismo para dar uma forma semi- plausível ao seu impulso anônimo e ancorá-lo na realidade — pa­ra sustentar sua própria autodecepção mais do que enganar suas vítimas. "O público", "o interesse público", "o serviço ao públi­co" são os meios, as ferramentas, os pêndulos oscilantes da auto- hipnose daquele que vive a ânsia do poder.

Dado que não existe a entidade "o público"; dado que o pú­blico é simplesmente um número de indivíduos, qualquer preten­são ou conflito implícito entre "interesse público" e interesses pri­vados significa que os interesses de alguns homens devem ser sacri­ficados aos interesses e desejos de outros. Já que o conceito é tão convenientemente indefinível, seu uso repousa apenas em qualquer habilidade das supostas gangues para declarar que "O público, c'est moi"— e sustentar a pretensão a ponta de faca.

Nenhuma pretensão desse tipo foi ou pôde alguma vez ser mantida sem ajuda de uma arma — isto é, sem força física. Mas, por outro lado, sem esta pretensão, os pistoleiros permaneceriam no lugar a que pertencem: no submundo, e não subiriam aos con­selhos de estado para dirigir os destinos das nações.

Há duas maneiras de reclamar que "O público, c'est moi": uma é praticada pelo parasita moral bruto que clama por distribui­ções governamentais em nome de uma necessidade "pública" e embolsa o que não mereceu; a outra é praticada por seu líder, o parasita espiritual que tira sua ilusão de "grandiosidade" — co­mo um receptador acolhendo produtos roubados — do poder pa­ra dispôr do que não mereceu e da visão mística de si mesmo co­mo a voz encarnada "do público".

Dos dois, o parasita material é o psicologicamente mais saudá­vel e mais próximo da realidade: pelo menos, come ou veste seu saque. Porém, a única fonte de satisfação aberta ao parasita espi­ritual, seu único meio de ganhar "prestígio" (além de dar ordens e espalhar terror), é a mais supérflua, inútil e sem sentido de to­das as atividades: a construção de monumentos públicos.

A grandiosidade é alcançada pelo esforço produtivo da men­te de um homem na busca de objetivos racionais claramente defi­nidos. Mas uma ilusão de grandeza pode ser realizada apenas pe­la mutável e indefinível quimera de um monumento público — apresentado como um presente generoso às vítimas cujo trabalho forçado e dinheiro extorquido pagaram-no — dedicado ao servi­ço de todos e de ninguém, pertencente a todos e a ninguém, admi­rado por todos e aproveitado por ninguém.

Esta é a única maneira que os dirigentes têm de aplacar sua obsessão: "prestígio". Prestígio — aos olhos de quem? De nin­guém. Aos olhos de suas vítimas torturadas, dos mendigos nas ruas de seu reinado, dos aduladores de sua corte, das tribos estran­geiras e seus dirigentes. Foi para impressionar a todos estes olhos — os olhos de todos e de ninguém — que o sangue de gerações de súditos foi derramado e gasto.

Pode-se ver, em certos filmes bíblicos, uma imagem gráfica do significado da construção de um monumento público: a cons­trução das pirâmides. Hordas de homens famintos, esfarrapados e emagrecidos fazendo um último esforço com seus músculos insu­ficientes à tarefa desumana de puxar as cordas que arrastam enor­mes pedaços de pedra, esforçando-se como bestas de carga tortura­das sob as chicotadas de feitores, desfalecendo no trabalho e mor­rendo nas areias do deserto — para que um faraó morto possa descansar numa estrutura imponentemente sem sentido e, deste modo, ganhar o "prestígio" eterno aos olhos das futuras gerações por nascerem.

Templos e palácios são os únicos monumentos deixados pelas civilizações primitivas do gênero humano. Foram criados pelos mesmos meios e ao mesmo preço — um preço não justificado pe­lo fato de que os povos primitivos indubitavelmente acreditavam, enquanto morriam de fome e exaustão, que o "prestígio" de sua tribo, seus dirigentes e seus deuses era, de alguma maneira, de va­lor para eles.

Roma caiu, falida por tributos e controles do Estado, enquan­to seus imperadores estavam construindo coliseus. Luís XIV da França tributou seu povo até o estado de indigência, enquanto cons­truía o Palácio de Versalhes para que monarcas seus contemporâ­neos o invejassem e para os turistas modernos visitarem. O metrô revestido de mármore em Moscou, construído pelo trabalho "vo­luntário" e não-pago de trabalhadores russos, incluindo mulheres, é um monumento público, assim como o é o luxo similar das re­cepções czaristas a caviar e champanha nas embaixadas soviéticas, necessárias — enquanto o povo fica na fila por rações insuficien­tes de comida — para "manter o prestígio da União Soviética".

A grande distinção dos Estados Unidos da América, até as últimas poucas décadas, foi a modéstia de seus monumentos públi­cos. Estes monumentos tal como existiam eram genuínos: não eram erigidos para "prestígio", mas eram estruturas funcionais que acolhiam eventos de grande importância histórica. Se você já viu a austera simplicidade do Independence Hall, percebeu a dife­rença entre uma grandeza autêntica e as pirâmides de "espírito pú­blico" dos caçadores de prestígio.

Na América, o esforço humano e os recursos materiais não foram expropriados para a construção de monumentos e projetos públicos, mas gastos no progresso do bem-estar individual, pesso­al e particular de cada cidadão. A magnitude da América repou­sa no fato de que seus monumentos reais não são públicos.

O horizonte de Nova Iorque é um monumento de um esplen­dor a que nenhuma pirâmide ou palácio se igualará ou aproximar- se-á. Porém os arranha-céus não foram construídos com fundos públicos, nem com um propósito público: foram construídos pela energia, iniciativa e riqueza dos indivíduos comuns para lucro pes­soal. E, ao invés do empobrecimento do povo, estes arranha-céus, assim como subiram cada vez mais altos, continuaram aumentan­do o padrão de vida do povo — incluindo os habitantes das favelas, que levam uma vida de luxo, comparada à dos antigos escravos egípcios ou de um trabalhador socialista moderno.

Esta é a diferença — na teoria e na prática — entre o capita­lismo c o socialismo.

É impossível calcular o sofrimento humano, a degradação, as privações e o horror que constituíram o pagamento de um úni­co dos chamativos arranha-céus de Moscou, ou das fábricas sovié­ticas, ou minas ou barragens, ou qualquer parte de sua "industria­lização" sustentada a sangue e saques. O que de fato sabemos, en­tretanto, é que quarenta e cinco anos é um longo tempo: é o tem­po de duas gerações; sabemos, também, que, em nome de uma prometida abundância, duas gerações de seres humanos têm vivi­do e morrido em pobreza subhumana; e sabemos, também, que os defensores atuais do socialismo não são desencorajados por um fato deste tipo.

Independentemente do motivo que eles possam dar, a benevo­lência é algo a que já há muito perderam o direito de reivindicar.

A ideologia da socialização (numa forma neofascista) está atualmente flutuando, por negligência, através do vácuo de nossa atmosfera cultural e intelectual. Observe quão freqüentemente so­mos questionados por "sacrifícios" indefinidos para propósitos não-especificados. Observe quão freqüentementea administração presente está invocando "o interesse público". Observe que proe­minência a questão do prestígio internacional repentinamente ad­quiriu, e que políticos grotescamente suicidas são justificados por referências a questões de "prestígio". Observe que durante a recen­te crise cubana — quando a questão factual dizia respeito a mís­seis e guerra nucleares — nossos diplomatas e comentaristas acha­ram adequado pesar seriamente em coisas como o "prestígio", os sentimentos pessoais e o "salvar as aparências" dos diversos dirigentes socialistas envolvidos.

Não há distinção entre os princípios, as políticas e os resulta­dos práticos do socialismo — e daqueles de qualquer tirania histó­rica ou pré-histórica. O socialismo é simplesmente uma monarquia absolutista democrática — isto é, um sistema de absolutismo sem um chefe fixo, aberto ao roubo de poder por todos os que se apro­ximam, por qualquer alpinista implacável, oportunista, aventurei­ro, demagogo ou facínora.

Quando você julgar o socialismo, não se engane sobre a sua natureza. Lembre-se de que não há a tal dicotomia de "direitos humanos" versus "direito de propriedade". Nenhum direito huma­no pode existir sem direito à propriedade. Já que os produtos ma­teriais são produzidos pela mente e esforço de homens individuais, e são necessários para sustentar suas vidas, se o produtor não pos­sui o resultado de seu esforço, não possui sua própria vida. Negar os direitos de propriedade significa transformar homens em pro­priedades possuídas pelo Estado. Quem quer que reivindique o "di­reito" a "redistribuir" a riqueza produzida por outros, estará rei­vindicando o "direito" de tratar os seres humanos como um bem móvel.

Quando você julgar a devastação global perpetrada pelo socia­lismo, o mar de sangue e os milhões de vítimas, lembre-se de que estas foram sacrificadas, não pelo "bem da humanidade", nem por um "ideal nobre", mas pela vaidade envenenada de algum brutamontes amedrontado ou alguém mediocremente pretensioso que almejou um manto de "grandeza" não-merecida — e que o monumento ao socialismo é uma pirâmide de fábricas públicas, teatros públicos e parques públicos, erigidos sobre a fundação de um cadáver humano, com a figura do dirigente posando no alto, batendo no peito e gritando sua justificativa pelo "prestígio" ao vazio sem estrelas abaixo dele.