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O culto da moral indefinida

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Um dos sintomas mais eloqüentes da falência moral da cul­tura atual é uma certa atitude em voga para as questões morais, e que melhor se pode resumir como: "Não há pretos nem brancos, há apenas 'cinzas'."

Afirma-se isto considerando pessoas, atos, princípios de con­duta e moralidade em geral. "Preto e branco", neste contexto, sig­nifica "o bem e o mal". (A ordem contrária usada naquela frase feita é interessante, do ponto de vista psicológico.)

Sob qualquer aspecto que alguém se interesse em examinar, esta noção está cheia de contradições (em primeiro lugar está a fa­lácia do "conceito roubado"). Se não há preto e branco, não po­de haver cinza — já que este é meramente uma mistura dos dois.

Antes que alguém possa identificar algo como "cinza", deve saber o que é preto e o que é branco. No campo da moralidade, isto significa que se deve primeiro identificar o que é o bem e o que é o mal. E quando um homem descobre que uma alternativa é boa, e outra é má, não possui justificativa para escolher a mistu­ra. Não pode haver justificativa para escolher qualquer parte da­quilo que se sabe ser nocivo. Em moralidade, "preto" é predomi­nantemente o resultado de tentar fingir a si mesmo que se é mera­mente "cinza".

Se um código moral (como o altruísmo) é, de fato, impossí­vel de praticar, é o código que deve ser condenado como "preto", e não suas vítimas avaliadas como "cinza". Se um código moral prescreve contradições irreconciliáveis — de modo que, escolhen­do o bem em um aspecto, um homem se torna mau em outro —, é o código que deve ser rejeitado como "preto". Se um código moral é inaplicável à realidade — se não oferece diretriz, exceto uma série de injunções e mandamentos arbitrários, infundados e fora de contexto a ser aceito por fé e praticado automaticamente, como um dogma cego —, seus praticantes não podem adequada­mente ser classificados como "brancos" ou "pretos" ou "cinzas": um código moral que proíbe e paralisa o julgamento moral é uma contradição em termos.

Se, numa questão moral e complexa, um homem luta para determinar o que é certo, e falha ou comete um erro honestamen­te, não pode ser considerado "cinza"; moralmente ele é "branco". Erros de conhecimento não são fissuras de moralidade; nenhum código moral correto pode exigir infalibilidade ou onisciência.

Mas se, a fim de escapar da responsabilidade de julgamento moral, um homem fecha seus olhos e sua mente, se foge dos fatos da questão e luta para não saber, não pode ser considerado "cin­za", moralmente, ele é completamente "preto".

Muitas formas de confusão, incerteza e descuido epistemoló­gico ajudam a obscurecer as contradições e a dissimular o significa­do real da doutrina da moral indefinida.

Algumas pessoas acreditam que se trata de uma mera reafir­mação de observações banais como "ninguém é perfeito neste mundo" — ou seja, todos são uma mistura de bem e mal e, por­tanto, moralmente "cinzas". Já que é provável que a maioria das pessoas que se encontram corresponda exatamente a esta descrição, todos aceitam isto como algum tipo de fato natural, sem maior reflexão. Esquecem que a moralidade trata apenas de questões aber­tas à escolha do homem (isto é, a sua livre vontade) — e, por con­seguinte, que nenhuma das generalizações estatísticas é válida nes­te assunto.

Se o homem é "cinza" por natureza, nenhum dos conceitos morais é aplicável a ele, incluindo "cinzento", e não pode haver moral alguma. Mas se o homem tem vontade livre, então o fato de dez homens (ou dez milhões) fazerem a escolha errada não im­plica que o décimo primeiro o faça; não implica nada — e não prova nada — em consideração a um dado indivíduo.

Há muitas razões para a maioria das pessoas ser imperfeita moralmente, isto é, manter premissas e valores contraditórios e confusos (a moralidade altruísta é uma das razões), mas isto ó um assunto diferente. Independentemente das razões de suas esco­lhas, o fato da maioria das pessoas ser moralmente "cinza" não invalida a necessidade do homem ter uma moral e de que esta de­va ser "branca", antes pelo contrário, torna esta necessidade mais imperiosa. Nem justifica o "pacto" epistemológico de rejeitar o problema consignando a todos os homens como de moral "cinzen­ta", e assim recusando-se a reconhecer ou praticar a "brancura". Nem serve como uma fuga da responsabilidade do julgamento moral: a não ser que alguém seja preparado para prescindir total­mente da moralidade e considerar um tapeador insignificante e um assassino como moralmente iguais, mas mesmo assim tem de julgar e avaliar os muitos matizes do "cinza" que se pode encon­trar nas índoles de homens individualmente considerados. (E a única maneira de julgá-los é por um critério claramente definido de "preto" e "branco".)

Uma noção similar, envolvendo erros similares, é sustentada por algumas pessoas que acreditam que a doutrina da moral cin­zenta é simplesmente uma reafirmação da proposição: "Há dois lados de cada questão", que pegam para significar que ninguém está sempre completamente certo ou errado. Mas isto não é o que esta proposição significa ou sugere. Ela implica apenas que, ao julgar uma questão, deve-se tomar conhecimento ou dar ouvidos aos dois lados. Isto não significa que as reivindicações de ambos os lados sejam necessariamente válidas também, nem mesmo que haverá pouca justiça para ambos os lados. Com muita freqüência a justiça estará de um lado, e uma presunção não-justifiçada (ou pior), de outro.

Há, é claro, questões complexas nas quais ambos os lados es­tão certos em alguns aspectos e errados em outros — e é aqui que o "pacto" de declarar ambos os lados "cinzas" é menos admissí­vel. É nestas questões que a mais rigorosa precisão de julgamento moral é exigida para identificar e avaliar os vários aspectos envol­vidos — o que apenas pode ser feito reorganizando os elementos misturados de "preto" e "branco".

O erro básico em todas estas várias confusões é o mesmo: consiste em esquecer que a moralidade trata apenas de questões abertas à escolha do homem — o que significa: esquecer a diferen­ça entre o "incapaz" e o "de má vontade"', isto permite às pesso­as traduzirem a frase feita: "Não há pretos nem brancos" em: "os homens são incapazes de serem totalmente bons ou totalmen­te maus" — que eles aceitam, com resignação confusa, sem ques­tionar as contradições metafísicas que acarreta.

Mas poucas pessoas aceitariam isto, se esta frase feita fosse traduzida no significado real, que pretende contrabandear para suas mentes: "Os homens têm má vontade de serem totalmente bons ou totalmente ruins."

A primeira coisa que se diria a qualquer defensor de tal pro­posição: "Fale por si mesmo, irmão!" E isto, de fato, é o que ele está realmente fazendo; consciente ou subconscientemente, inten­cional ou inadvertidamente, quando um homem declara: "Não há pretos nem brancos", está fazendo uma confissão psicológica, e o que quer dizer é: "Eu estou com vontade de ser totalmente bom — e, por favor, não me considere totalmente mau!"

Assim como em epistemologia o culto da incerteza é uma re­volta contra a razão — também, na ética, o culto da moral cinzen­ta é uma revolta contra os valores morais. Ambos são uma revol­ta contra o absolutismo da realidade.

Assim como o culto da incerteza não poderia ter sucesso nu­ma rebelião aberta contra a razão, e, conseqüentemente, luta pa­ra elevar a negação da razão em algum tipo de raciocínio superior — assim o culto da moral indefinida não poderia ser bem-sucedido numa rebelião aberta contra a moralidade, e luta para elevar a negação da moralidade a um tipo superior de virtude.

Observe a forma na qual se encontra esta doutrina: é raramen­te apresentada como positiva, como uma teoria ética ou assunto de discussão; predominantemente, alguém a ouve como negativa, como uma objeção ou reprovação rápida, proferida de uma ma­neira a sugerir que alguém é culpado de transgredir um absoluto tão auto-evidente que não requer nenhuma discussão. Em tons que variam do espanto ao sarcasmo, à raiva, à indignação, ao ódio histérico, a doutrina lhe é impingida na forma de uma acusa­ção: "Certamente você não pensa em termos de preto-e-branco, não é?"

Estimulada pela confusão, desamparo e medo de todo o as­sunto de moralidade, a maioria das pessoas apressa-se a respondei culpadamente: "Não, é claro que não", sem nenhuma idéia clara da natureza da acusação. Eles não fazem uma pausa para compre­ender que esta acusação está, de fato, dizendo: "Certamente vo­cê não é tão injusto a ponto de discriminar entre o bem e o mal, não é?" — ou: "Certamente você não é tão mau a ponto de pro­curar o bem, não é?" — ou: "Certamente você não é tão imoral a ponto de acreditar na moralidade!"

É tão óbvio que culpa moral, medo de julgamento moral e um apelo por um manto de perdão são o motivo desta frase feita, que uma olhada para a realidade seria suficiente para mostrar aos seus proponentes a confissão perigosa que estão pronunciando. Mas fuga da realidade é a pré-condição e o objetivo do culto da moral indefinida.

Filosoficamente, este culto é uma negação da moralidade — mas, psicologicamente, não é o objetivo de seus adeptos. O que eles procuram não é amoralidade, mas algo mais profundamente irracional: uma moralidade não-absoluta, fluida, elástica, de meio de caminho. Não proclamam a si mesmos "além do bem e do mal" — procuram preservar as "vantagens" de ambos. Não são desafiadores morais, nem representam uma versão medieval dos adoradores exagerados do mal. O que lhes dá seu sabor peculiar­mente moderno é que não defendem vender a alma de alguém ao Diabo; defendem vendê-la peça por peça, pouco a pouco, a qual­quer arrematador que compre a varejo.

Eles não constituem uma escola filosófica de pensamento; são o produto típico da omissão filosófica — da falência intelectual que produziu o irracionalismo, na epistemologia; um vácuo moral, na ética; e uma economia mista, na política. Uma economia mis­ta é uma guerra amoral de grupos de pressão, destituída de princí­pios, valores ou qualquer referência à justiça; uma guerra cuja ar­ma última é o poder da força bruta, mas cuja forma externa é um jogo de compromisso. O culto da moral indefinida é a morali­dade da imitação que a tornou possível e à qual os homens agora agarram-se numa tentativa tomada de pânico de justificá-la.

Observe que seu tom excessivamente dominante não é uma procura pelo "branco", mas um terror obsessivo de serem rotula­dos como "pretos" (e com boas razões). Observe que estão pleite­ando uma moralidade que conteria o compromisso como padrão de valor, e assim tornaria possível medir a virtude pelo número de valores que se está disposto a trair.

As conseqüências e os "bens adquiridos" de sua doutrina es­tão visíveis ao nosso redor.

Observe, na política, que o termo extremismo tornou-se um sinônimo de "mal", independentemente do conteúdo da questão (o mal não é sobre o quê você é "extremista", mas que você é "ex­tremista" — isto é, coerente). Observe o fenômeno dos chamados neutralistas nas Nações Unidas: os "neutralistas" são mais do que meramente neutros no conflito entre os Estados Unidos e a Rússia Soviética; eles estão comprometidos, por princípio, a não ver ne­nhuma diferença entre os dois lados, a nunca considerar os méri­tos de uma questão e sempre procurar um pacto, qualquer pacto, em qualquer conflito — como, por exemplo, entre um agressor e um país invadido.

Observe, na literatura, o surgimento de uma coisa chamadaan- ti-herói, cuja distinção é ele não possuir distinção — nem virtudes, nem valores, nem objetivos, nem caráter, nem significação —, e que ainda ocupa, em peças e romances, a posição primeiramente ocupa­da pelo herói, com a história centrada em suas ações, mesmo que não faça nada e não vá a lugar nenhum. Observe que o termo "mo­cinhos e bandidos" é usado com desdém, e, particularmente na tele­visão, observe a revolta contra finais felizes, a exigência de que aos ''bandidos'' seja dada uma chance igual e um mesmo número de vitórias.

Com uma economia mista, os homens de premissas mistas devem ser chamados "cinzas"; mas, em ambos os casos, a mesckinão permanece "cinza" por muito tempo. "Cinza", neste contexto, é simplesmente um prelúdio para o "preto". Pode haver lio mens "cinzas", mas não pode haver princípios morais "cinzas". A moral é um código de preto e branco. Quando e se os homens tentam um pacto, é óbvio qual lado, necessariamente, perderá e qual, necessariamente, lucrará.

Estas são as razões pelas quais — quando se é perguntado: "Certamente você não pensa em termos de preto e branco, nulo é?" — a resposta apropriada (em essência, se não em forma) deve­ria ser: "É óbvio que eu penso!"