Economia 7 mitos sobre o livre mercado

Publicado em 17 de março de 2014 | por Sandy Ikeda

7 mitos sobre o livre mercado

Assim como existem verdades atemporais, existem mentiras atemporais.

Eu selecionei algumas que encontrei recentemente, mas é claro que existem muito mais. Alguns libertários podem não concordar comigo (pelo menos em um primeiro momento) com relação a todas elas.

1) O livre mercado gera escassez e preços altos

Em qualquer sistema econômico – socialista, intervencionista ou de livre mercado – a quantidade de um bem normalmente não será suficiente para satisfazer a demanda quando o preço for zero. No livre mercado, no qual as pessoas comercializam seus direitos legítimos àqueles recursos, os preços tendem a aumentar ou cair ao nível onde a quantidade ofertada iguala-se à quantidade demandada, e, dessa forma, os preços nos ajudam a lidar com a escassez. Não só isso, o livre mercado, via o sistema de lucros e perdas, dá aos empresários um incentivo tanto para ofertar mais recursos escassos, quanto como para descobrir usos alternativos para eles. (Mas não é todo o “comércio” que é conduzido nesses termos. Veja o item 4)

2) O livre mercado é uma forma do governo conceder privilégios às empresas

Essa é uma crença muito comum, baseada na ideia de que ser pró-mercado significa ser pró-empresas. Mas o livre mercado é livre precisamente porque nega privilégios especiais legais para qualquer pessoa ou grupo. As pessoas às vezes definem “privilégio” como qualquer vantagem que uma pessoa ou grupo possa ter sobre outra. Certamente, tais vantagens existem hoje e existiriam em um livre mercado – você pode ter nascido em berço de ouro ou ter maior talento e recursos, etc. – mas essas vantagens são consistentes com a ausência do privilégio no sentido libertário, desde que você tenha obtido tais vantagens sem recorrer à fraude ou à iniciação de violência física contra a pessoa ou a propriedade desta.

3) Antes do Obamacare a indústria de saúde funcionava em um livre mercado

Na verdade, era um mercado altamente regulamentado, como John C. Goodman explica. Do mesmo modo, as falências dos mercados imobiliário e financeiro dificilmente podem ser atribuídas à “políticas de livre mercado, e o mesmo pode ser dito para praticamente qualquer outro setor da economia dos Estados Unidos. O livre mercado é livre de privilégios legais e discriminação; é qualquer coisa que acontece na ausência da agressão e dentro de certas “regras do jogo” – por exemplo, a propriedade privada, a liberdade de associação, e o estado de direito. Novamente, não é pró-empresas, pró-consumidor, ou pró-qualquer coisa se isso significa utilizar o poder político para ajudar ou prejudicar alguém de forma intencional.

4) O livre mercado requer que todos os recursos de valor sejam propriedade privada e comercializados

Mesmo se isso fosse possível, eu não estou convencido de que seja, não é sempre a melhor forma de superar a “Tragédia dos Comuns”. Às vezes, as alternativas à propriedade individual simplesmente funcionam melhor. Na verdade, Elinor Ostrom, que ganhou o prêmio Nobel de Economia pela sua pesquisa sobre problemas que acarretariam em uma Tragédia dos Comuns, encontrou formas pelas quais as pessoas ao redor do mundo e no decorrer da história evitaram conflitos no que tange a questões como o uso da água e o corte das florestas por meio do uso de métodos de cooperação exteriores ao mercado (e, frequentemente, sem o uso do governo). Efetivamente, nós normalmente “trocamos” favores com a família, conhecidos, e, às vezes, com estranhos sem a necessidade de mercados formais e preços de mercado. E isso é bom!

5) O livre mercado encoraja o racismo, a homofobia, e outros tipos de fanatismo

É verdade que você pode ser um racista homofóbico no livre mercado, recusar-se a viver próximo a um casal inter-racial do mesmo sexo, ou ainda mesmo recusar contratar alguém porque sua aparência de alguma forma o ofende. As consequências daquelas ações, contudo, significam que você tenderá a pagar um preço maior por uma casa ou um salário maior aos seus empregados porque você deliberadamente diminuiu a extensão de suas escolhas. Alguns críticos do livre mercado zombam dessa explicação argumentando que o ponto chave do racismo ou do sexismo não é combatido.

Eu poderia dizer muita coisa como resposta, mas me limitarei a duas. Primeiro, pagar pelo preconceito pode não eliminá-lo, mas tende a reduzi-lo. (Por exemplo, a curva de demanda do preconceito inclina-se para baixo). Ser preconceituoso significa se afastar de uma família que é mais tolerante ou de um empregador que é mais competitivo. Segundo, tentar mudar a atitude das pessoas no que diz respeito à homossexualidade e ao racismo pelo uso ou ameaça de agressão, não é algo que funciona; verdade seja dita, normalmente causa mais danos do que benefícios e causa diversas complicações no longo prazo. O livre mercado dá incentivos para se lucrar através da cooperação e do aprendizado que só são possíveis pela convivência com outra pessoa que pode ser muito diferente de você, alguém que opere fora da sua zona de conforto. Ordens legais tendem a fomentar ressentimento e rent-seeking o que enfraquece a tolerância necessária para se conectar às pessoas que estão socialmente distantes de você.

6) O livre mercado é pró-guerra

A verdade é que além de ser o “alimento do estado” e inimiga da liberdade, a guerra beneficia algumas pessoas especiais como os donos das empresas que produzem as armas usadas na guerra. Mas a guerra enfraquece o livre mercado no geral. A guerra e as intervenções governamentais que inevitavelmente a acompanham restringem os mercados (domesticamente e em países contra os quais o governo está lutando) e a livre associação, tornam mais caro comprar e vender, reduzem o poder de compra de famílias e de empresas, e perturbam a paz que é necessária para um livre mercado funcionar.

7) O livre mercado sempre é eficiente

O mundo real é povoado por pessoas reais que não possuem todas as informações corretas para tomar uma boa decisão, que podem ter informações erradas, e que podem cometer erros. Um sistema econômico “ideal” não é um no qual ninguém comete erros; é um no qual os erros que as pessoas inevitavelmente cometem são corrigidos da forma mais eficiente possível. A concorrência no livre mercado tenderá a informa-lo se você está cobrando muito ou pouco, deixando passar alguma oportunidade para diminuir seu custo ou aumentar sua receita, ou utilizando um novo método de consumo ou produção. O livre mercado não é ideal porque sempre opera de forma perfeita, mas sim porque o faz melhor do que qualquer outro sistema que conhecemos até hoje para correção de erros.

O que você acha disso? Falarei de outras mentiras na minha próxima coluna, mas essas são aquelas que devem ser informadas por enquanto. Elas são o senso comum de muitas pessoas, e geram muitas interpretações erradas.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro | Artigo Original

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Sobre o autor

Sandy Ikeda

Sandy Ikeda é Professor de Economia na Purchase College da Universidade Estadual de Nova York, local em que recebeu o seu Ph.D. em economia e onde estudou com Israel Kirzner, Mario Rizzo, Fritz Machlup e Ludwig Lachmann. Autor de "The Dynamics of the Mixed Economy: Toward a Theory of Interventionism (1997).", é um Associado do Institute for Humane Studies (IHS).



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