Liberdade homem com nariz grande mentindo

Publicado em 23 de abril de 2014 | por Sandy Ikeda

Mais 4 mentiras sobre o livre mercado

Como continuação de meus dois artigos anteriores sobre as mentiras sobre o livre mercado (aqui e aqui), eu queria tratar de mais algumas mentiras que ouvi recentemente. Estou certo que terei muitas oportunidades para adicionar à lista no decorrer do tempo.

1. O livre mercado deve ser regulado

Essa parece nunca sair de moda. Eu queria que ela desaparecesse. Na verdade, eu concordo com ela, no entanto, em um sentido diferente do que é comumente tratado.

Muitas pessoas dizem que se o governo não regulasse, digamos, a pureza da água engarrafada, Poland Springs estaria livre para nos envenenar se pudesse lucrar com isso. Enquanto padrões de segurança ou pureza, sem dúvida, emergiriam no mercado sem o governo – algo como a ProTeste ou Underwriters Laboratories – é a última parte da acusação que tem maior peso, mesmo em nosso atual mercado não livre.  O lucro regula! Fora dos mercados que tem sido criminalizados ou fortemente regulados pelo governo, os ganhos oriundos da fraude e da agressão aos outros são perigosos e relativamente raros. Empresários legítimos (que obedecem à lei) estão prontos para atender aos consumidores insatisfeitos (ou doentes) de outros empresários legítimos por meio da provisão de um melhor retorno por dólar, melhorando sua reputação no processo. Quando foi a última vez que você foi a um restaurante que tinha uma reputação por má qualidade ou intoxicação alimentar?

Em resumo: na ausência da regulação governamental, ainda existe regulamentação no livre mercado. É chamada de concorrência. E se você deseja maior segurança e melhor qualidade, retire as barreiras à livre concorrência.

2. Inovação no livre mercado causa desemprego crônico

Constatei que pessoas que acompanham os eventos cotidianos frequentemente se preocupam com o “desemprego tecnológico”. Isso ocorre porque quando uma pessoa inova, ela substitui uma forma antiga de fazer algo por uma nova ou faz algo de forma significativamente diferente. Em alguns casos, os insumos que ela costumava contratar – mão de obra, capital, conhecimento – podem se adaptar e continuar a trabalhar com ela. Se não puderem, então, eles precisam encontrar outra ocupação. Algumas pessoas podem ter dificuldade nesse processo. Mas isso não significa que não existem outros empregos nos quais elas podem ser produtivas.

Considere isso: a população mundial cresceu nos últimos 200 anos de aproximadamente 1 bilhão para 7 bilhões de pessoas. O número de empregos também cresceu em bilhões, sendo a maioria envolvendo muito menos trabalho braçal e riscos do que há 200 anos. Ah, mas e o que dizer dos padrões de vida? O PIB bruto per capita, aproximadamente no mesmo período, disparou de cerca de US$ 3 para US$ 100 por dia.

Como? Com o crescimento da liberdade econômica, os inovadores criaram produtos cada vez melhores, aumentando a expectativa de vida e sua qualidade. No processo, criou não somente mais empregos, mas empregos de maior valor agregado.

De qualquer forma, o foco principal não deveria estar nos empregos em si, porque se você produzir coisas que as pessoas valorizam, a geração de emprego é consequência. A Apple agora emprega 70.000 pessoas ao redor do mundo. Se você incluir todas as outras pessoas cujo trabalho é hoje mais valioso por causa da Apple (criadores de aplicativos, por exemplo), o número parece oscilar entre 350.000 e 500.000 pessoas, algumas das quais provavelmente trabalhavam para empresas que os produtos da Apple tornaram obsoletas. Mas, é claro, se a Apple não existisse, aquelas pessoas provavelmente estariam ainda trabalhando – estariam somente fazendo coisas menos valorizadas e recebendo salários menores. Enquanto alguns argumentam em prol de regulações para impedir a inovação de forma a proteger certos (mas não todos) os trabalhadores, na medida em que tiverem sucesso, o resultado de longo prazo é redução no padrão de vida de todos – trabalhadores e o resto.

E o que dizer dos trabalhadores não especializados? Bem, esse é um tópico interessante para outra coluna. Basta dizer que a Lei de Associação de Ricardo demonstra que mesmo alguém que é “pior” do que todo mundo em tudo é ainda mais eficiente do que qualquer outra pessoa em alguma coisa.

3. Capitalistas amam a desregulamentação

Não, eles normalmente odeiam. De acordo com o estado de direito, a lei deveria tratar a todos da mesma forma, não importando o status. Algumas regulações cumprem essa função melhor do que outras, tais como os limites de velocidade nas estradas (exceto se você for um policial). Contudo, na prática, queiramos ou não, todas as regulações beneficiam alguns à custa de outros. O Obamacare parece ter beneficiado o sistema de saúde à custa do cidadão comum e dos negócios, os quais agora têm de pagar maiores prêmios de seguro do que gostariam. Regulações que supostamente protegem os consumidores, tais como o licenciamento governamental de médicos, beneficia aqueles que praticam a medicina convencional, dificultando a entrada de outros profissionais no mercado. Regulações que supostamente protegem os trabalhadores, tais como o salário mínimo, beneficiam os trabalhadores qualificados pelo aumento do preço de contratação dos desqualificados. E quando é intencional, obter vantagens por meio de privilégios legais é chamado de “rent-seeking”. Como diz o ditado, os empresários gostam da concorrência para todo mundo, exceto para eles.

4. O livre mercado aumenta a desigualdade

Essa ideia é tão complicada quanto é difundida. Por exemplo, a desigualdade de renda na primeira parte do século XX (quando, a propósito, a intervenção econômica era muito menor do que hoje em dia) caiu de forma aguda até a II Guerra Mundial, acelerando a partir dos anos 70. Hoje, a desigualdade alcançou o nível dos anos 20. É difícil identificar quanto daquela desigualdade é causada pela intervenção e quanto dela podemos atribuir ao livre mercado. Permitam-me, em vez disso, focar em uma questão mais importante.

Agora, sem entrar em detalhes pessoais, meu salário anual é 7x a média da renda de um indivíduo ao nível de pobreza nos Estados Unidos no presente ano. Para alguns, isso é algo realmente desigual, e posso imaginar que um pessoa que ganha somente US$ 11.490 ao ano sem nenhuma outra fonte de renda provavelmente se sentirá muito desfavorecida comparada a mim. Mas considere a renda anual de Bill Gates que, de acordo com esse website, é de US$ 3.7 bilhões. São 3.7 bilhões dólares ao ano! Portanto, a renda anual de Gates é mais do que 43.500x a minha. Isso é monstruosamente desigual seja qual for o padrão utilizado. É engraçado – talvez só para mim, mas eu não me sinto oprimido pelo fato. O que isso significa?

Eu acho que significa que a maioria de nós não objeta a desigualdade de renda per se (embora eu admita que algumas pessoas o façam), mas sim a pobreza. Assim, a questão correta é: qual é a melhor forma de lutar contra a pobreza?

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original

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Especialização e trocas


Sobre o autor

Sandy Ikeda

Sandy Ikeda é Professor de Economia na Purchase College da Universidade Estadual de Nova York, local em que recebeu o seu Ph.D. em economia e onde estudou com Israel Kirzner, Mario Rizzo, Fritz Machlup e Ludwig Lachmann. Autor de "The Dynamics of the Mixed Economy: Toward a Theory of Interventionism (1997).", é um Associado do Institute for Humane Studies (IHS).



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