Determinadas variantes desta pergunta são frequentemente levantadas como objeção àqueles que defendem uma ética de au­to-interesse racional. Por exemplo, ás vezes: "Cada um faz o que verdadeiramente quer fazer ? do contrário, não faria." Ou: "Nin­guém se sacrifica realmente. Já que toda ação proposital é motiva­da, por algum valor ou meta que o agente deseja, age-se sempre egoisticamente, sabendo-se ou não."

Para desembaraçar a confusão intelectual envolvida neste pon­to de vista, consideremos que fatos da realidade conduzem a uma questão como egoísmo versus auto-sacrifício, ou egoísmo versus altruísmo, e o que o conceito de "egoísmo" significa e necessaria­mente acarreta.

A questão do egoísmo versus auto-sacrifício emerge em um contexto ético. A ética é um código de valores que guia as esco­lhas e ações do homem ? as escolhas e ações que determinam o propósito e o rumo de sua vida. Ao escolher suas ações e objeti­vos, o homem enfrenta alternativas constantes. Para optar, requer um critério de valor ? um propósito ao qual suas ações devem servir e visar. "'Valor' pressupõe uma resposta à pergunta: de va­lor para quem e para que?" Qual deve ser o ob­jetivo ou propósito das ações de um homem? Quem deve ser o pretendido beneficiário de suas ações? Deve ele sustentar, como seu propósito moral básico, a realização de sua própria vida e feli­cidade ? ou deveria o seu propósito moral básico servir aos dese­jos e necessidades de outros?

O choque entre egoísmo e altruísmo repousa em suas res­postas conflitantes a estas perguntas. O egoísmo sustenta que o homem é um fim em si mesmo; o altruísmo, que o homem é um meio para os fins de outros. O egoísmo sustenta que, moralmente, o beneficiário de uma ação deveria ser a pessoa que age; o al­truísmo, que, moralmente, o beneficiário de uma ação deveria ser outro, e não a pessoa que age.

Ser egoísta é estar motivado pela preocupação com os próprios interesses. Isto exige que se considere o que constitui os interesses de um indivíduo e como alcançá-los ? que valores e metas buscar, que princípios e políticas adotar. Se um homem não estiver interes­sado nesta questão, não se poderá dizer objetivamente que se inte­ressa ou deseja seu auto-interesse; não se pode estar interessado em ou desejar aquilo de que não se tem conhecimento.

O egoísmo vincula: (a) urna hierarquia de valores estabeleci­da pelo padrão dos auto-interesses de alguém, e (b) a recusa a sa­crificar um valor maior a um menor ou a algo carente de valor.

Um homem genuinamente egoísta sabe que somente a razão pode determinar o que é, na verdade, do seu auto-interesse, que buscar contradições ou tentativas de agir em provocação aos fatos da realidade é autodestrutivo ? e a autodestruição não é de seu auto-interesse. "Pensar é do auto-interesse do homem; interrom­per a sua consciência, não. Escolher as suas diretrizes no contex­to do seu conhecimento, seus valores e sua vida é do auto-interes­se do homem; agir no impulso do momento, sem consideração ao seu contexto de longo prazo, não. Existir como um ser produti­vo é do auto-interesse do homem; uma tentativa de existir como um parasita, não. Procurar a vida adequada a sua natureza é do auto-interesse do homem; procurar viver corno um animal, não."

Porque um homem genuinamente egoísta escolhe as suas dire­trizes orientado pela razão ? e porque os interesses de homens ra­cionais não se chocam ?, outros homens podem, frequentemente, beneficiar-se de suas ações. Mas o beneficio de outros homens não é seu propósito ou objetivo básico; seu próprio benefício são seu propósito básico e objetivo consciente que dirigem suas ações.'

Para tornar este princípio inteiramente claro, consideremos um exemplo extremo de uma ação, que é, na verdade, egoísta, mas que, convencionalmente, poderia ser chamada de auto-sacrifício: a disposição de um homem para morrer a fim de salvar a vi­da da mulher que ama. De que modo seria este homem o benefi­ciário de sua ação?

A resposta é dada em Atlas Shrugged ? na cena em que Galt, sabendo estar por ser preso, diz a Dagny; "Se eles tiverem a me­nor suspeita a respeito do que somos um para o outro, vão colo­cá-la em uma sessão de tortura ? quero dizer, tortura física ? diante dos meus olhos, em menos de uma semana. Não vou espe­rar por isto. Na primeira menção de uma ameaça a você, vou me matar e fazê-los parar bem aí... não preciso lhe dizer que, .se eu fizer isto', não será um ato de auto-sacrifício. Não me importa vi­ver nas condições deles. Não estou a fim de obedecê-los e não es­tou a fim de ver você sofrendo um assassinato planejado. Não ha­verá nenhum valor para buscar depois disto ? e não estou a fim de viver sem valores," Se um homem ama uma mulher tão intensa­mente que não quer sobreviver à sua morte, se a vida não pode oferecer-lhe mais nada a este preço, então morrer para salvá-la não é um sacrifício.

O mesmo princípio se aplica a um homem que se encontra em uma ditadura, que conscientemente arrisca a sua vida para ob­ter a liberdade. Para classificar o seu ato de "auto-sacrifício", ter-se-ia que admitir que ele preferiria viver como escravo. O egoís­mo de um homem que está disposto a morrer, se necessário, lutan­do por sua liberdade, repousa no fato de não estar disposto a vi­ver num mundo onde já não é capaz de agir sob o seu próprio juí­zo ? isto é, um mundo onde condições humanas de existência já não são possíveis para ele.

O egoísmo ou não-egoísmo de uma ação deve ser determina­do objetivamente, e não pelos sentimentos da pessoa que age. As­sim como sentimentos não são armas da cognição, também não são um critério, na ética.

Obviamente, para agir, tem-se de ser Movido por algum moti­vo pessoal: deve-se "querer", em algum sentido, desempenhar a ação. A questão do egoísmo de urna ação ou do seu não-egoísmo depende, não do fato do indivíduo querer ou não a efetuar, mas apenas do porquê quer fazê-lo. Por que critério escolheu sua ação? Pará alcançar qual objetivo?

Se um homem proclamasse que sentira que melhor beneficiaria os outros roubando-os ou assassinando-os, os homens não esta­riam dispostos a reconhecer altruísmo em suas ações. Pela mes­ma lógica e razões, se um homem busca um rumo de autodestrui­ção cega, seu sentimento de que ele tem algo a ganhar através dis­to, não estabelece que suas ações são egoístas.

Se, motivada unicamente por senso de caridade, compaixão, obrigação ou altruísmo, uma pessoa renuncia a um valor, desejo ou objetivo em favor do prazer, desejos ou necessidades de outra pessoa a quem valoriza menos do que aquilo a que renunciou ­este é um ato de auto-sacrifício. O fato de uma pessoa poder sen­tir que "quer" fazê-lo, não torna a sua ação egoísta ou estabele­ce objetivamente que ela é a beneficiária da ação.

Suponha, por exemplo, que um filho escolha a carreira que deseja através de critérios racionais, mas aí renuncie a ela para agra­dar sua mãe, que prefere que siga uma carreira diferente, que te­nha mais prestígio aos olhos dos vizinhos. O garoto acede ao dese­jo de sua mãe porque aceitou isto como sua obrigação moral: acre­dita que seu dever como filho consiste em colocar a felicidade de sua mãe acima da sua própria, mesmo que saiba que a exigência da mãe é irracional e mesmo que saiba que está se sentenciando a uma vida de miséria e frustração. É absurdo para os defensores da doutrina "todos somos egoístas" declararem que, já que o ga­roto está motivado pelo desejo de ser "virtuoso" ou de evitar a culpa, nenhum auto-sacrifício está envolvido, e sua ação é verda­deiramente egoísta. O que se evita é a pergunta de por que o garo­to sente e deseja de tal forma. Emoções e desejos não são premis­sas irredutíveis, desprovidas de causa, são o produto das premis­sas que se aceitou. O garoto "quer" renunciar à sua carreira ape­nas porque aceitou a ética do altruísmo; crê ser imoral agir para seu próprio auto-interesse. Este é o princípio que está dirigindo suas ações.

Defensores da doutrina "todos somos egoístas" não negam que, sob a pressão da ética altruísta, os homens podem intencio­nalmente agir contra sua própria felicidade, a longo prazo. Eles simplesmente afirmam que em algum sentido maior, indefinível, esses homens ainda estão agindo "egoisticamente". Uma definição de "egoísmo" que inclui e permite a possibilidade de intencional­mente agir contra a felicidade a longo prazo de um indivíduo, é uma contradição em termos.

É apenas o legado do misticismo que permite aos homens ima­ginarem que ainda estão falando com sentido quando declaram que se pode procurar a felicidade na renúncia a ela.

A falácia básica no argumento "todos somos egoístas" consis­te em um equívoco extraordinariamente brutal. É um truísmo psi­cológico ? uma tautologia ? pelo qual todo comportamento in­tencional é motivado. Mas igualar "comportamento motivado" com "comportamento egoísta" é zerar a distinção entre um fato elementar da psicologia humana e o fenômeno da escolha ética. É fugir ao problema central da ética, a saber: o quê motiva o homem?

Um egoísmo genuíno ? isto é: um interesse genuíno por sa­ber o que é do auto-interesse do indivíduo, uma aceitação da res­ponsabilidade de conquistá-lo, uma recusa a jamais traí-lo agindo sob caprichos cegos, estado de espirito, impulso ou sentimento do momento, uma lealdade sem compromissos com juízos, convic­ções e valores próprios ? representa uma profunda conquista mo­ral. Aqueles que afirmam que "todos somos egoístas" comumen­te apresentam sua afirmação como uma expressão de cinismo e desdém. Mas a verdade é que sua afirmação faz à Humanidade um elogio que não merece.


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