Os resultados psicológicos do altruísmo podem ser observa­dos no fato de que urna enorme quantidade de pessoas aborda o assunto da ética fazendo perguntas como: "Deve alguém arriscar a sua vida para ajudar um homem que está: a) se afogando, b) encurralado no meio do fogo, c) caminhando em direção à um ca­minhão que vem em alta velocidade, d) agarrado pelas unhas à beira de um abismo?" 

Considere as implicações de tal abordagem. Se um homem aceita a ética do altruísmo, sofre as seguintes consequências (na proporção do grau de aceitação): 

Falta de auto-estima ? uma vez que sua preocupação pri­meira no domínio dos valores não é como viver sua vida, mas co­mo sacrificá-la. 

Falta de respeito pelos outros ? uma vez que considera o gênero humano como um bando de mendigos condenados implo­rando pela ajuda de alguém.

Uma visão de pesadelo da existência ? uma vez que crê que os homens estão encurralados em um "universo malevolente", onde desastres são a preocupação primária e constante de suas vidas. 

E, de fato, uma indiferença letárgica à ética, uma amorali­dade desesperançosamente cínica ? uma vez que as suas pergun­tas envolvem situações que provavelmente nunca encontrará, que não trazem nenhuma relação com os verdadeiros problemas de sua própria vida e assim deixam-no Viver sem princípios morais, quaisquer que sejam. 

Elevando a questão de ajudar aos outros à condição central e básica da ética, o altruísmo destruiu o conceito de qualquer benevolência ou boa vontade autêntica entre os homens., Ele dou­trinou os homens com a ideia de que valorizar outro ser humano é um ato de abnegação, desta forma implicando que um homem não pode ter nenhum interesse pessoal nos outros ? que valori­zar o próximo significa sacrificar a si mesmo ? que qualquer amor, respeito ou admiração que um homem possa sentir pelos outros não é e não pode ser uma fonte de seu próprio prazer, mas sim uma ameaça à sua existência, um cheque em branco de sacrifí­cio assinado para os seus amados. 

Os homens que aceitam esta dicotomia, mas que escolhem o seu outro lado, os produtos últimos da influência altruísta desuma­nizadora, são aqueles psicopatas que não desafiam a premissa bá­sica do altruísmo, mas proclamam sua rebelião contra o auto-sa­crifício anunciando que são totalmente indiferentes a qualquer coi­sa viva, e que não ergueriam uma palha para ajudar um homem ou um cachorro deixado mutilado por um motorista que fugiu (ge­ralmente um do tipo deles). 

A maioria dos homens não aceita e nem pratica nenhum dos lados da dicotomia viciosamente falsa do altruísmo, mas o resulta­do dela é um completo caos intelectual na questão dos relaciona­mentos humanos adequados e em questões como a natureza, pro­pósito ou extensão da ajuda que se pode dar aos outros. Atual­mente, uma grande quantidade de homens sensatos e bem intencio­nados não sabe identificar ou conceituar os princípios morais que motivam o seu amor, afeição ou boa vontade, e não consegue en­contrar nenhuma orientação no campo de ética, dominada pelos chavões gastos do altruísmo. 

Sobre a questão de por que o homem não é um animal de sa­crifício e por que ajudar os outros não é sua obrigação moral, en­caminho ao Atlas Shrugged. A presente discussão é concernente aos princípios pelos quais alguém identifica e avalia os exemplos que envolvem a ajuda não-sacrificada de um homem aos outros. 

"Sacrifício" é a rendição de um valor maior em favor de um menor ou carente de valor. Assim, o altruísmo gradua a virtu­de de um homem pelo grau a que ele rende, renuncia ou trai os seus valores (uma vez que a ajuda a um estranho ou inimigo é con­siderada como mais virtuosa, menos "egoísta", do que a ajuda àqueles que se ama). O princípio racional de conduta é exatamen­te o oposto: sempre age de acordo com a hierarquia dos seus valo­res, e nunca sacrifica um valor maior a um menor. 

Isto se aplica a todas as escolhas, incluindo as ações de um homem para com outro. Requer que se possua uma hierarquia de­finida de valores racionais (valores escolhidos e validados por um padrão racional): Sem tal hierarquização, não são possíveis nem uma conduta racional, nem juízos de valores e nem escolhas morais. 

O amor e a amizade são valores profundamente pessoais e egoístas: o amor é uma expressão e asserção da auto-estima, uma resposta aos valores pessoais em outra pessoa. Ganha-se uma feli­cidade profundamente pessoal, egoísta, pela mera existência da pessoa que se ama. É a própria felicidade pessoal e egoísta que se busca, ganha e colhe do amor. 

Um amor "abnegado", "desinteressado" é uma contradição, em termos: significa que se é indiferente ao que se valoriza. 

A preocupação pelo bem-estar daqueles que se ama é uma parte racional dos interesses egoístas de alguém. Se um homem que está perdidamente apaixonado por sua esposa gasta uma fortu­na para curá-la de uma doença perigosa, seria absurdo afirmar que o faz como um "sacrifício" por ela, não por ele mesmo, e que não faz nenhuma diferença para ele, pessoal e egoisticamente, o fato de ela viver ou morrer. 

Qualquer ato que um homem empreende em benefício daque­les que ama não é um sacrifício, se, na hierarquia de seus valores, no contexto total das escolhas abertas a ele, é conquistado aquilo de maior importância pessoal (e racional) para ele. No exemplo acima, a sobrevivência da esposa é de maior valor para o marido do que qualquer outra coisa que o dinheiro dele possa comprar, é da maior importância para sua própria felicidade, e, por conse­guinte, seu ato não é um sacrifício. 

Mas suponha que a deixasse morrer para gastar o seu dinhei­ro com o salvamento das vidas de dez outras mulheres, das quais nenhuma significasse nada para ele ? como a ética do altruísmo requereria. Isto seria um sacrifício. Aqui a diferença entre Objeti­vismo e altruísmo pode ser vista mais claramente: se o sacrifício é o principio moral da ação, então aquele marido deveria sacrifi­car a sua esposa pelas dez outras mulheres. O que distingue a esposa das outras dez? Nada exceto o seu valor para o marido, que tem de fazer a escolha ? nada exceto o fato de que a felicidade dele requer a sobrevivência dela. 

A ética Objetivista dir-lhe-ia: o seu propósito moral mais al­to é a conquista da própria felicidade, o dinheiro é seu, use-o pa­ra salvar a sua esposa, este é o seu direito moral e a sua escolha racional, moral. 

Considere a alma do moralista altruísta que estaria prepara­do para dizer ao marido o oposto (e então pergunte a si mesmo se o altruísmo é motivado pela benevolência). 

O método adequado de julgar quando ou se alguém deve aju­dar uma outra pessoa é pela referência ao seu próprio auto-interes­se racional e à sua própria hierarquia de valores: o tempo, o dinhei­ro ou esforço que se dá ou o risco que se corre deve ser proporcio­nal ao valor da pessoa em relação à sua própria felicidade. 

Para ilustrar isto no exemplo favorito dos altruístas: a ques­tão de salvar uma pessoa que está se afogando. Se a pessoa a ser salva é um estranho, é moralmente adequado salvá-la apenas quan­do o perigo para a sua própria vida é mínimo; quando o perigo é grande, é imoral tentar: somente a falta de auto-estima pode per­mitir que alguém não valorize mais a sua vida do que a de um es­tranho qualquer (e, opostamente, se alguém está se afogando, não pode esperar que um estranho arrisque a sua vida por causa dele, lembrando que a vida dele não pode ser tão valiosa para es­te estranho quanto a própria vida deste). 

Se a pessoa a ser salva não é um estranho, então o risco que se deveria estar pronto a correr é maior em proporção à importân­cia do valor da pessoa para aquele que salva. Se é o homem ou mulher que se ama, então se deve estar pronto para dar a própria vida para salvá-lo(a) ? pela razão egoísta de que a vida sem a pes­soa amada poderia ser insuportável. 

Em oposição a isto, se um homem é capaz de nadar e salvar sua esposa que se afoga, mas se entra em pânico ou se entrega a um medo irracional e não-justificado ? não o chamariam de "e­goísta"; condená-lo-iam moralmente pela sua traição a si mesmo e a seus próprios valores, ou seja: seu fracasso em lutar pela pre­servação de um valor crucial para sua própria felicidade. Lembre-se de que valores são aqueles pelos quais alguém age para obtê-los e/ou conservá-los, e que a felicidade de alguém deve ser conquista­da pelo próprio esforço pessoal. Uma vez que a sua própria felici­dade é o propósito moral de sua vida, o homem que fracassa em alcançá-la por razão de sua própria negligência, por causa dê seu fracasso em lutar por ela, é moralmente culpado. 

A virtude envolvida em ajudar aqueles que se ama não é "ab­negação" ou "sacrifício", mas integridade. Integridade é lealda­de para com as convicções e valores que se tem. É a política de agir de acordo com os seus valores, de expressá-los, sustentá-los e traduzi-los na realidade prática. Se um homem professa amar uma mulher é ainda assim seus atos são indiferentes, desfavoráveis ou prejudiciais a ela, é a sua falta de integridade que o torna imoral. 

O mesmo princípio se aplica a relacionamentos entre amigos. Se o amigo de alguém está com problemas, este alguém deve agir por quaisquer meios ? que não sejam de sacrifício ? apropria­dos para ajudá-lo. Por exemplo, se o amigo está morrendo de fo­me, não é um sacrifício, mas um ato de integridade dar-lhe dinhei­ro para comida preferivelmente a comprar alguma engenhoca insig­nificante para si mesmo, porque o bem-estar do amigo é importan­te na escala de valores pessoais deste alguém. Se a engenhoca sig­nifica mais do que o sofrimento do amigo, então este alguém não tinha o direito de fingir ser amigo daquele. 

A implementação prática da amizade, afeição e amor consis­te em incorporar o bem-estar (o bem-estar racional) da pessoa en­volvida, a própria hierarquia de valores de alguém, e então agir de acordo. 

Mas esta é uma recompensa que os homens têm de ganhar através de suas virtudes e que não pode ser concedida a meros co­nhecidos ou estranhos. 

que, afinal, dever-se-ia adequadamente conceder a estra­nhos? O respeito generalizado e a boa vontade que se deve conce­der a um ser humano em nome do valor potencial que ele represen­ta ? até ou a menos que os perca por alguma razão. 

homem racional não esquece que a vida é a fonte de todos os valores e, como tal, um vínculo comum entre os seres vivos (em oposição à matéria inanimada) e que outros homens são potencial­mente capazes de conquistar as mesmas virtudes como suas pró­prias e assim serem de enorme valor para ele. Isto não significa que considere as outras vidas humanas intercambiáveis com a sua própria. Ele reconhece o fato de que a sua própria vida é a fonte, não apenas de todos os seus valores, mas da sua capacidade de valorar. Por conseguinte, o valor que concede a outros é somente uma conseqüência, uma extensão, uma projeção secundária do va­lor primário que é ele mesmo. 

"O respeito e a boa vontade que homens de auto-estima sen­tem em relação a outros seres humanos são profundamente egoís­tas; eles sentem, de fato: 'Outros homens têm valor porque eles são da mesma espécie que eu.' Ao reverenciar entidades vivas, es­tão reverenciando suas próprias vidas. Esta é a base psicológica de qualquer emoção de solidariedade e qualquer sentimento de so­lidariedade de espécie." 

Visto que os homens nascem carentes de dados ou padrões, quer cognitivos, quer morais, um homem racional julga estranhos como inocentes até que se provem culpados, e lhes concede aque­la boa vontade inicial em nome de seu potencial humano. Depois, ele os julga de acordo com o caráter moral que demonstram. Se ele os achar culpados por males importantes, sua boa vontade se­rá substituída por desprezo e condenação moral. (Se se valoriza a vida humana, não se pode valorizar os seus destruidores.) Se ele os achar virtuosos, lhes concederá valor pessoal e individual e reco­nhecimento, na proporção de suas virtudes. 

E no terreno desta boa vontade e respeito generalizados pelo valor da vida humana que se ajudam estranhos em uma situação de emergência ? e apenas em urna situação de emergência. 

E importante diferenciar entre as regras de conduta em uma situação emergencial e as regras de conduta nas condições normais da existência humana. Isto não significa um padrão duplo de mo­ralidade: o padrão e os princípios básicos permanecem os mesmos, mas a aplicação deles a cada caso requer definições precisas. 

Uma emergência é um evento não escolhido, não esperado, limitado no tempo, que cria condições sob as quais a sobrevivên­cia humana é impossível ? como uma enchente, terremoto, incên­dio, naufrágio. Numa situação de emergência, o objetivo primei­ro dos homens é combater o desastre, escapar do perigo e restau­rar as condições normais (alcançar a terra firme, apagar o incên­dio, etc). 

Por condições "normais" eu quero dizer normais metafisicamente, normais na natureza das coisas e apropriadas à existên­cia humana. Os homens podem viver em terra, mas não na água ou sob um incêndio violento. Uma vez que os homens não são onipotentes, é metafisicamente possível que desastres imprevisíveis os peguem de surpresa, caso em que sua única tarefa é retornar àquelas condições sob as quais suas vidas podem continuar. Por sua natureza, uma situação de emergência é temporária; se duras­se, os homens pereceriam. 

Somente em situações de emergência deve-se ser voluntário para ajudar estranhos, se isto está ao nosso alcance. Por exemplo, um homem que valoriza a vida humana e se vê em um naufrágio, deve ajudar a salvar seus companheiros de viagem (embora não à custa de sua própria vida). Mas isto não significa que após todos eles chegarem à praia, ele deva devotar os seus esforços para sal­var seus companheiros de viagem da pobreza, ignorância, neuro­se, ou quaisquer que sejam os problemas que possam ter. Tampou­co' significa que deva passar a sua vida navegando os sete mares a procura de vítimas de naufrágio a serem salvas. 

Ou, tomando um exemplo que pode ocorrer no dia a dia: su­ponhamos que se ouça dizer que o vizinho da porta ao lado está doente e sem dinheiro. Doença e pobreza não são emergências metafísicas, são parte dos riscos normais da existência; mas como o homem está temporariamente desamparado, pode-se trazer a ele comida e medicamentos. Se se tem condições financeiras (como um ato de boa vontade, não de obrigação) pode-se conseguir di­nheiro entre os vizinhos para ajudá-lo. Mas isto não significa que se deva sustentá-lo daí em diante, nem que se se deva passar a vi­da procurando por homenS famintos para ajudar. 

Nas condições normais da existência, o homem tem de esco­lher as suas metas, projetá-las no tempo, buscá-las e alcançá-las por seu próprio esforço. Ele não poderá fazer isto, se suas metas estiverem à mercê de e tiverem de ser sacrificadas a qualquer infor­túnio que aconteça a outros. Ele não pode viver a sua vida atra­vés da orientação de regras aplicáveis apenas às condições sob as quais a sobrevivência humana é impossível. 

O princípio de que se deve ajudar aos homens em uma situa­ção de emergência não pode ser estendido até considerar todo o sofrimento humano como uma emergência e a transformar o in­fortúnio de alguns em uma hipoteca sobre as vidas de outros. 

Pobreza, ignorância, doença e outros problemas deste tipo não são emergências metafísicas. Pela natureza metafísica do ho­mem e da existência, aquele tem de manter a sua vida pelo seu pró­prio esforço; os valores de que precisa ? como riqueza ou conhe­cimento ? não lhe são dados automaticamente, como um presen­te da natureza, mas têm de ser descobertos e conquistados por seu próprio pensamento e trabalho. A única obrigação que se tem em relação aos outros, a este respeito, é manter um sistema social que deixe os homens livres para conquistarem, ganharem e mante­rem os seus valores. 

Todo código de ética é baseado e derivado da metafísica, ou seja: de uma teoria sobre a natureza fundamental do universo no qual o homem vive e age. A ética altruísta é baseada em uma me­tafísica de "universo malevolente", na teoria de que o homem, por sua natureza própria, é desamparado e condenado ? que su­cesso, felicidade, conquista são impossíveis para ele ? que emer­gências, desastres, catástrofes são a norma de sua vida, e que sua meta primordial é combatê-los. 

Como a refutação empírica mais simples daquela metafísica enquanto prova do fato de que o universo material não é desfa­vorável ao homem, e que catástrofes são a exceção, não a regra de sua existência ?, observe as fortunas feitas por companhias de seguro. 

Observe também que os defensores do altruísmo não são ca­pazes de basear a sua ética em quaisquer fatos de existência nor­mal e que eles sempre oferecem situações tipo "bote salva-vidas" como exemplos a partir dos quais tirar regras de conduta moral. ("O que você deve fazer se você e outro homem estiverem em um barco salva-vidas que só tenha capacidade para um?", etc.) 

O fato é que os homens não vivem em barcos salva-vidas ? e um barco salva-vidas não é o lugar em que se deve basear a metafí­sica. 

O propósito moral da vida de um homem é a conquista de sua própria felicidade. Isto não significa que ele seja indiferente a todos, que a vida humana não tenha nenhum valor para ele e que não tenha motivo para ajudar outros em uma emergência. Mas significa, isto sim, que não subordina a sua vida ao bem-estar de ou­tros; não se sacrifica pelas necessidades deles; que o alivio do so­frimento deles não é sua preocupação prioritária; que qualquer aju­da que ele dê é uma exceção, não uma regra, um ato de generosi­dade, não de obrigação moral; que tudo isto é marginal e inciden­tal ? assim como os desastres são marginais e incidentais no cur­so da existência humana ? e que valores, não desastres, são a meta, a primeira preocupação e a força motivadora de sua vida.


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