O padrão de saúde mental ? de funcionamento mental bio­logicamente apropriado ? é o mesmo que o de saúde física: a so­brevivência e o bem-estar do homem. Uma mente é saudável até o ponto em que o seu método de funcionamento é tal que pode munir o homem com o controle da realidade que a base e o avan­ço de sua vida requerem. A marca distintiva deste controle é a auto-estima. A auto-esti­ma é a conseqüência, expressão e recompensa de uma mente intei­ramente comprometida com a razão. Esta, a faculdade que identi­fica e integra o material provido pelos sentidos, é a arma básica de sobrevivência do homem. Compromisso com a razão é compro­misso com a manutenção de um foco intelectual pleno; com a cons­tante expansão do entendimento e conhecimento que se tem; com princípio de que as ações de um indivíduo devem ser consisten­tes com suas convicções; que nunca se deve tentar tapear a realida­de ou colocar qualquer consideração acima da realidade; que nun­ca se deve permitir a si mesmo contradições que nunca se deve ten­tar subverter ou sabotar a função correta da consciência. 

A função correta da consciência é a percepção, a cognição e controle da ação. 

Uma consciência desobstruída, uma consciência integrada, uma consciência pensante é uma consciência saudável. Uma cons­ciência bloqueada, tergiversada, fragmentada por conflitos e dividi­da contra si mesma, desintegrada por medo ou imobilizada por depressão, dissociada da realidade, é uma consciência insalubre. 

No objetivo de lidar positivamente com a realidade ? para procurar e alcançar os valores que a sua vida requer ? o homem necessita auto-estima: precisa ser confiante de sua eficácia e valor.

Ansiedade e culpa, os antípodas da auto-estima e a insígnia da doença mental, são os desintegradores do pensamento, os deturpadores de valores e paralisadores da ação. 

Quando um homem de auto-estima escolhe os seus valores e estabelece as suas metas, quando projeta seus propósitos de lon­go alcance, os quais unificarão e guiarão suas ações ? é como uma ponte lançada ao futuro, pela qual sua vida passará, uma ponte sustentada pela convicção de que a sua mente é competen­te para pensar, julgar, valorizar, e de que ele é merecedor de apreciar estes valores. 

Este senso de controle da realidade não é o resultado de práti­cas, habilidade ou conhecimentos especiais, Não depende de suces­sos ou fracassos em particular. Reflete o relacionamento funda­mental que se tem com a realidade, a convicção que se tem, a efi­cácia e o valor fundamentais. Reflete a certeza de que, em essên­cia e em princípio, se está certo para a realidade. A auto-estima é um juízo metafísico. 

E este o estado psicológico que a moralidade tradicional torna impossível, até o ponto em que o homem o aceita. 

Nem o misticismo, nem o credo do auto-sacrifício, são com­patíveis com saúde mental e auto-estima. Estas doutrinas são destrutivas existencial e psicologicamente. 

(1) A manutenção da vida e a conquista da auto-estima reque­rem do homem o mais completo exercício da sua razão ? mas moralidade, conforme ensinam aos homens, baseia-se e requer fé.

A fé é o compromisso da consciência de um indivíduo com crenças das quais não se tem nenhuma evidência sensorial ou prova racional. 

Quando um homem recusa a razão como o seu critério de jul­gamento, apenas um critério alternativo permanece para ele: seus sentimentos. Um místico é um homem que trata os seus sentimen­tos como armas de cognição. A fé consiste em igualar o sentimen to com o conhecimento. 

Para praticar a "virtude" da fé, deve-se estar pronto para suspender a visão e o julgamento; deve-se estar pronto para viver com o ininteligível, com aquilo que não pode ser conceituado ou integrado ao resto do conhecimento que se tem, e para induzir uma ilusão de entendimento similar a um transe. Deve-se estar pron­to para reprimir a faculdade crítica e contê-la, como sua culpa; deve-se estar pronto para sufocar quaisquer perguntas que emerjam em protesto ? para estrangular qualquer ímpeto de razão convul­sivamente procurando insistir na sua função própria de protetora da vida do indivíduo e de sua integridade cognitiva. 

Lembre que todo o conhecimento do homem e todos os con­ceitos deste têm estrutura hierárquica. O fundamento e ponto ini­cial do pensamento do homem são suas percepções sensoriais; nes­ta base, o homem forma seus primeiros conceitos e então continua construindo o edifício do seu conhecimento, identificando e inte­grando novos conceitos numa escala cada vez maior. Se o pensa­mento humano é válido, este processo deve ser guiado pela lógica, "a arte da identificação não-contraditória" ? e qualquer concei­to novo que o homem forme deve ser integrado sem contradição à estrutura hierárquica de seu conhecimento. Introduzir na consci­ência de alguém qualquer ideia que não possa ser assim integrada, uma ideia não derivada da realidade, não validada por um proces­so da razão, não sujeita a exame ou julgamento racional ? ou pior, uma ideia que se choca com o resto dos conceitos e compre­ensão de realidade de alguém ? é sabotar a função integrativa da consciência, liquidar o resto das convicções de alguém e matar a capacidade do mesmo de ter certeza de qualquer coisa. Este é o significado da afirmação de John Galt em Atlas Shrugged, de que "o suposto atalho para o conhecimento, que é a fé, nada mais é que um curto-circuito que destrói a mente". 

Não há maior ilusão do que imaginar que se pode dar à ra­zão o que é da razão e à fé o que é da fé. Esta não pode ser cir­cunscrita ou delimitada; render a consciência de alguém em milí­metros, é rendê-la no total. Ou a razão é um absoluto para uma mente ou não o é ? e neste caso, não há espaço para traçar urna linha, nenhum princípio pelo qual traçá-la, nenhuma barreira que a fé não possa ultrapassar, nenhuma parte da vida de um ser que a fé não possa invadir: alguém se mantém racional até e a menos que seus sentimentos determinem algo diferente. 

A fé é a malevolência que nenhum sistema pode tolerar com impunidade; e o homem que sucumbir a ela, vai invocá-la precisa­mente naquelas questões onde mais precisar da razão. Quando al­guém muda da razão para a fé, quando rejeita o absoluto da reali­dade, liquida o absoluto da sua consciência, e a sua mente se tor­na um órgão em que ele não pode mais confiar. Ela se torna o que os místicos chamam: um instrumento de distorção. 

A necessidade de auto-estima do homem implica a necessi­dade de um controle sobre a realidade ? mas nenhum controle é possível em um universo que, pela própria concessão de alguém, contém o sobrenatural, o miraculoso e sem motivo, um universo no qual se está à mercê de fantasmas e, demônios, no qual se de­ve lidar, não com o desconhecido, mas com o desconhecível; ne­nhum controle é possível, se o homem propõe, mas um fantasma dispõe; nenhum controle é possível, se o universo é uma casa mal-assombrada. 

A vida e a auto-estima requerem que o objeto e o interes­se da consciência do homem sejam a realidade e este mundo ­mas a moralidade, segundo ensinam aos homens, consiste em des­prezar este mundo e o material disponível para a percepção senso­rial e em contemplar uma realidade "diferente" e "maior", um domínio inacessível para a razão e incomunicável pela linguagem, mas atingível através de revelação, de processos dialéticos especiais, daquele estado superior de lucidez intelectual conhecido pelos zen­budistas como and-mente, ou por morte. 

Existe apenas uma realidade ? aquela que a razão pode co­nhecer. E se o homem escolhe não a perceber, nada mais há para ele perceber; se ele não tem consciência deste mundo, não será cons­ciente em absoluto. 

O único resultado da projeção mística de "uma outra" reali­dade é que ela incapacita o homem psicologicamente para esta. Não foi contemplando o transcendental, o sagrado, o indefinível ? não foi contemplando o inexistente ? que o homem se ergueu da caverna e transformou o mundo material para tornar possível uma existência humana na Terra. 

Se for virtude renunciar à própria razão, e pecado usá-la; se for virtude aproximar-se do estado mental de u n esquizofrênico, e pecado estar intelectualmente em foco; se for virtude censurar este mundo, e pecado torná-lo habitável; se for virtude mortificar a carne, e pecado trabalhar e agir; se for virtude menosprezar a vida, e pecado mantê-la e aproveitá-la ? então não será possível nenhuma auto-estima ou controle ou eficácia, nada será possível para o homem, exceto o sentimento de culpa e o terror de um pa­tife pego num universo de pesadelo, um universo criado por algum sádico metafísico que lançou o homem em um labirinto onde a porta que dizia "virtude" levava à autodestruição, e a porta que dizia "eficácia" levava à autocondenação. 

(4) A vida e auto-estima requerem que o homem se orgulhe do seu poder de pensar, do seu poder de viver. Mas a moralidade, segundo ensinam aos homens, impede o orgulho e especificamen­te o orgulho intelectual, considerado o mais grave dos pecados. A virtude começa, segundo ensinam aos homens, com humildade: com o reconhecimento do desamparo, da pequenez, da impotência de sua própria razão. 

O homem é onisciente? ? reclamam os místicos. E infalível? Então, como ousa desafiar a palavra de Deus, ou dos representan­tes de Deus, e se colocar como o juiz de qualquer coisa?

Orgulho intelectual não é ? como os místicos irracionalmen­te inferem ? uma pretensão de onisciência e infalibilidade. Ao contrário, precisamente porque o homem tem de lutar pelo conhe­cimento, precisamente porque a busca do conhecimento requer um esforço, os homens que assumem esta responsabilidade sentem corretamente orgulho. 

As vezes, coloquialmente, toma-se o significado de orgulho por um fingimento de realização que alguém não alcançou de fato, Mas o fanfarrão, o vanglorioso, o homem que aparenta virtu­des, não sente orgulho; ele meramente escolheu a maneira mais humilhante de revelar a sua humildade. 

O orgulho é a resposta pessoal para obter valores, o prazer que se sente pela própria eficácia. E é isto que os místicos têm co­mo mal. 

Mas se a dúvida, não a confiança, é o estado moral próprio do homem; se a autodesconfiança, não a autoconfiança, é a pro­va de sua virtude ? se o medo, não a auto-estima, é a marca da perfeição; se a culpa, não o orgulho, é a sua meta ? então a doen­ça mental é um ideal moral, os neuróticos e psicóticos são os mais altos expoentes de moralidade, e os pensadores, os realizadores, são os pecadores, aqueles que são corruptos demais e arrogantes demais para buscar a virtude e o bem-estar psicológico, pela cren­ça de que eles estão incapacitados a existir.

A humildade é, por uma questão de necessidade, a virtude básica de uma moralidade mística: é a única virtude possível para homens que renunciaram à razão. 

O orgulho tem de ser merecido; é a recompensa do esforço e da conquista; mas para ganhar a virtude da humildade, precisa-se apenas se abster de pensar ? nada mais é exigido ?, e sentir-se-á modesto suficientemente rápido. 

(5) A vida e a auto-estima requerem do homem lealdade pa­ra com os seus valores, para com a sua razão e os julgamentos de­la, ? mas a essência da moralidade, segundo ensinam aos ho­mens, consiste em auto-sacrifício: o sacrifício das suas razões a al­guma autoridade maior, e o sacrifício dos seus valores a quem quer possa afirmar desejá-los. 

Não é necessário, neste contexto, analisar as inumeráveis mal­dades vinculadas pelo preceito do auto-sacrifício. A irracionalida­de deste e sua destrutividade foram completamente expostas em Atlas Shrugged. Mas existem dois aspectos da questão que são es­pecialmente pertinentes ao assunto da saúde mental. 

O primeiro é o fato de que auto-sacrifício significa ? e so­mente pode significar ? sacrifício da razão. 

Um sacrifício, deve-se lembrar, significa a rendição de um va­lor maior a favor de um menor ou a algo sem valor. Se alguém desiste daquilo que não valoriza para obter aquilo que valoriza ? ou se alguém desiste de um valor menor para obter um maior ? isto não é um sacrifício, mas um ganho. 

Vamos mais longe, Lembremos que todos os valores de um homem existem numa hierarquia; ele valoriza algumas coisas mais do que outras; e, até o ponto em que é racional, a ordem hierár­quica de seus valores é racional: isto é, ele valoriza as coisas na proporção da importância delas em servir à sua vida e bem-estar. O que é nocivo à sua vida e bem-estar, e também nocivo à sua na­tureza e necessidades enquanto ser vivo, ele desvaloriza. 

De modo inverso, uma das características da doença mental é uma escala de valores distorcida; o neurótico não valoriza as coi­sas de acordo com seu mérito objetivo, em relação ã natureza de­le e suas necessidades; ele frequentemente valoriza cada mínima coisa que o leva à autodestruição. Julgado por padrões objetivos, está engajado em um processo crônico de auto-sacrifício. 

Mas se sacrifício é virtude, não é o homem neurótico, mas o racional que precisa ser "curado". Ele tem de aprender a violen­tar o seu próprio julgamento racional ? reverter a ordem de sua hierarquia de valores ? renunciar àquilo que sua razão escolheu como bom ? voltar-se contra e invalidar sua própria consciência. 

Os místicos declaram que tudo que exigem do homem é que ele sacrifique sua felicidade? Sacrificar a sua felicidade é sacrificar os seus desejos; sacrificar os seus desejos é sacrificar os seus valo­res; sacrificar os seus valores é sacrificar o seu julgamento; sacrifi­car o seu julgamento é sacrificar a sua razão ? e é nada menos do que isto que a crença do auto-sacrifício almeja e exige. 

A raiz do egoísmo é o direito do homem ? e necessidade ­de agir segundo o seu próprio julgamento. Se o seu julgamento ti­ver de ser objeto de sacrifício ? que tipo de eficácia, controle, au­sência de conflito, ou serenidade de espírito será possível ao homem? 

O segundo aspecto pertinente aqui envolve, não somente a crença no auto-sacrifício, mas todos os princípios anteriores de moralidade tradicional. 

Uma moralidade irracional, uma moralidade posta em oposi­ção à natureza do homem, aos fatos da realidade e aos requisitos da sua sobrevivência, necessariamente força os homens a aceitarem a convicção de que há um choque inevitável entre o moral e o prá­tico ? que eles têm de escolher, ou serem virtuosos, ou serem feli­zes, serem idealistas ou bem-sucedidos, mas que não podem ser ambos. Esta visão estabelece um conflito desastroso no nível mais profundo do ser, uma dicotomia letal que o dilacera: ela o força a escolher entre tornar a si mesmo capaz de viver e merecedor de viver. Porém a auto-estima e a saúde mental requerem que ele con­quiste ambos.

Se o homem considera a vida na Terra como o bem, se julga seus valores pelo critério daquilo que é próprio para a exigência de um ser racional, então não há nenhum choque entre os requisitos da sobrevivência e da moralidade ? nenhum choque entre tor­ná-lo apto para viver e torná-lo merecedor de viver; ele alcança o segundo alcançando o primeiro. Mas há um choque, se o homem considera a renúncia a este mundo como o bem, a renúncia à vi­da, à razão, à felicidade, ao seu eu. Sob uma moralidade antivi­da, o homem se torna merecedor de viver na mesma proporção em que se torna incapaz de viver ? e na mesma proporção em que se torna capaz de viver, ele se torna não-merecedor de viver. 

A resposta dada por muitos defensores da moralidade tradicio­nal é: "Ah, mas as pessoas não precisam ir a extremos" ? signifi­cando: "Não esperamos que as pessoas sejam inteiramente morais. Esperamos que contrabandeiem algum interesse próprio nas suas vidas. Reconhecendo que as pessoas têm de viver, afinal de contas." 

A defesa, então, deste código de moralidade, é que poucas pessoas serão suicidas o suficiente para tentar praticá-lo consisten­temente. Hipocrisia é proteger o homem contra suas professadas convicções morais. O que isto faz à sua auto-estima? 

E aquelas vítimas que são insuficientemente hipócritas? 

E a criança que se recolhe aterrorizada dentro de um univer­so autista porque não sabe enfrentar as alucinações dos pais, que lhe dizem que é culpada por natureza, que o seu corpo é o mal, que pensar é pecaminoso, que fazer perguntas é blasfemo, que du­vidar é depravado, e que ela tem de obedecer às ordens de um fan­tasma sobrenatural, porque, se não o fizer, vai queimar eternamen­te no inferno? 

Ou a filha que sucumbe culpada do pecado de não querer de­votar a sua vida a cuidar de seu pai doente, que só lhe deu moti­vos para sentir rancor? 

Ou o adolescente que foge para a homossexualidade porque lhe foi ensinado que sexo é mau, e que mulheres são para ser ado­radas, mas não desejadas? 

Ou o homem de negócios que sofre um ataque de ansiedade porque, após anos sendo incitado a ser econômico e trabalhador, finalmente comete o pecado de ter sucesso, e agora é avisado de que deve ser mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agu­lha do que um rico entrar no reino dos céus? 

Ou o neurótico que, em completo desespero, desiste da tenta­tiva de resolver seus problemas, porque sempre ouviu pregar que esta terra é o reino da miséria, futilidade e perdição, onde nenhu­ma felicidade ou satisfação é possível ao homem? 

Se os defensores destas doutrinas carregam urna responsabili­dade moral séria, há um grupo que talvez carregue urna responsa­bilidade ainda mais séria: os psicólogos e psiquiatras que veem os destroços humanos destas doutrinas, mas que permanecem em si­lêncio e não protestam ? que declaram que questões filosóficas e morais não concernem a eles, que a ciência não pode pronunciar julgamentos de valores ? que desconsideram suas obrigações pro­fissionais com a afirmação de que um código racional de moralida­de é impossível e, através do seu silêncio, dão a sua aprovação ao assassinato espiritual.


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