Por George Reisman

Existem duas visões fundamentais da vida econômica. Uma dominou a filosofia econômica do século dezenove, sob a influência dos economistas clássicos britânicos, como Adam Smith e David Ricardo. A outra dominou a filosofia econômica do século dezessete, sob a influência do Mercantilismo, e retornou para dominar a filosofia econômica do século vinte, predominantemente sob a influência de Lorde Keynes.

O que distingue essas duas visões é o seguinte: no século dezenove, economistas identificaram o problema essencial da vida econômica como o de investigar de que modo expandir a produção. Implícita ou explicitamente, eles perceberam que a base da atividade econômica e da teoria econômica reside no fato de que a vida e o bem-estar humano dependem da produção de riqueza. A natureza do homem faz com que ele necessite de riqueza; seu julgamento mais básico faz com que ele a deseje; o problema, eles acreditavam, era produzi-la. A teoria econômica, então, poderia ter como garantido o desejo de consumir, e focalizar nos meios e modos através dos quais a produção poderia ser aumentada.

No século vinte, os economistas retornaram para a visão diretamente oposta. Ao invés do problema ser entendido como o de como expandir a produção continuamente, diante de um desejo ilimitado por riqueza resultante das possibilidades ilimitadas de aperfeiçoar as necessidades humanas, o problema é erroneamente crido como o de expandir o desejo de consumir, para que o consumo seja adequado à produção. A teoria econômica no século vinte tem a produção como garantida e focaliza nos meios e modos através dos quais o consumo pode ser aumentado. Ela prossegue como se o problema da vida econômica não fosse a produção de riqueza, mas a produção de consumo.

Essas duas premissas básicas diametralmente opostas e mutuamente exclusivas concernentes ao problema essencial da vida econômica têm o mesmo papel na teoria econômica como metafísicas conflitantes têm na filosofia. Ponto por ponto, elas resultam ou em conclusões opostas ou na promoção de razões diferentes para uma mesma conclusão. Elas determinam a teoria econômica de forma tão fundamental e essencial que originam dois sistemas de pensamento econômico completamente diferentes.

Duas Visões de Emprego

Ao se considerar a premissa producionista do século dezenove, se percebe, em primeiro lugar, que não há algo como um problema de ?criar empregos?. Há um problema em se criar empregos remunerativos, mas não empregos. A todo tempo, o producionista acredita, há tanto trabalho a ser feito ? tantos empregos potenciais a serem preenchidos ? quanto há necessidades humanas insatisfeitas, que poderiam ser satisfeitas com uma produção maior de riqueza; e como esses desejos são ilimitados, a quantidade de trabalho a ser feito ? o número de empregos potenciais a serem preenchidos ? também é ilimitado. O emprego de mais e melhores máquinas, então, argumenta o producionista, não causa desemprego. Ele simplesmente permite os homens, à medida que eles não preferem o lazer, a produzirem mais e, assim, a satisfazer as suas necessidades mais fartamente e de uma forma melhor. Nem o trabalho mais longo nem o emprego de mulheres, crianças, estrangeiros, ou pessoas de raças ou religiões minoritárias deprivam alguém de emprego. Isso simplesmente torna possível uma expansão da produção.

Se alguém utiliza a premissa consumista [1] do século vinte, se tem outra visão das máquinas e do emprego de mais pessoas. Ele considera toda a expansão da produção como uma ameaça a alguma porção do que já está sendo produzido. Ele imagina que a produção é limitada pelo desejo de consumir. Ele tem medo de que esse desejo possa ser deficiente e, então, que uma expansão da produção em qualquer um segmento deva forçar a contração da produção em outro segmento. Portanto, ele teme que o trabalho feito por máquinas deixa menos trabalho a ser feito por pessoas, que o trabalho feito por mulheres deixa menos trabalho a ser feito por homens, que o trabalho feito crianças deixa menos trabalho a ser feito por adultos, que o trabalho feito por judeus deixa menos trabalho a ser feito por cristãos, que o trabalho feito por negros deixa menos trabalho a ser feito por brancos, e que o trabalho extra de um significa uma carência de trabalho disponível para outros.

Nem o producionista nem o consumista desejam longas horas de trabalho infantil. Aqui, nessa situação, ambos alcançam a mesma conclusão. Mas suas razões são completamente diferentes. O consumista não as deseja porque ele acredita que há um problema com o que fazer com os produtos resultantes, a não ser que outros produtos parem de ser produzidos e outros trabalhadores fiquem desempregados. O producionista não deseja longas horas de trabalho infantil porque ele não dá valor à fatiga ou esforço prematuro. O problema, para os olhos do producionista, não é o de que fazer com os produtos adicionais das horas mais longas de trabalho infantil ? somente a necessidade intensa por produtos adicionais fazem acontecer esse trabalho adicional ? mas como aumentar a produtividade do trabalho a um nível no qual as pessoas possam se dar ao luxo de ter um tempo para o lazer e dispensar o trabalho de suas crianças.

Riqueza Através da Escassez?

Porque ele imagina a produção a ser limitada pelo desejo de consumir (ao invés do consumo ser limitado pela habilidade de produzir), o consumista valoriza não a riqueza, mas a ausência da riqueza. Por exemplo, depois da Segunda Guerra Mundial, ele imaginou que a relativa ausência de casas, automóveis, televisores, e refrigeradores na Europa era algo benéfico para a economia Européia porque isso representava um grande estoque de novos desejos de consumo que supostamente asseguravam uma forte demanda de consumo. Da mesma maneira, ele imaginou que a relativa abundância desses bens nos Estados Unidos era um malefício da economia americana porque ela representava um estoque esgotado de desejo de consumo. A prosperidade depende da ausência de riqueza, e a pobreza vem de sua abundância, o consumista conclui, porque aquela mercadoria inestimável, o desejo de consumo, mais limitada em oferta do que os diamantes, é produzida pela ausência e consumida pela presença da riqueza. É nesse princípio que o consumista se contenta com as guerras e a destruição como fontes de prosperidade, e atribui a pobreza das depressões à ?superprodução?.

O consumista não acredita que a destruição de riqueza é o único meio de alcançar a prosperidade. Embora ele acredite que seja de difícil realização, ele tem a esperança de que a oferta de sua mercadoria, o desejo de consumo, pode ser aumentada por medidas positivas. Uma medida dessas é uma alta taxa de natalidade. Trazendo mais pessoas ao mundo se traz mais desejo de consumo ao mundo. A existência de um número maior de pessoas, o consumista diz aos empresários, irá tornar possível aos empresários acharem alguém para livrar-se de um bem que seria excedente. Negócios irão prosperar porque sua oferta de bens irá achar uma contraparte com uma oferta adequada de desejo por bens. Na ausência de uma alta taxa de natalidade, ou junto a uma alta taxa de natalidade, o consumista acredita que a propaganda pode criar novos desejos para os consumidores que, de outra forma, estariam plenamente satisfeitos. E, em uma situação um pouco diferente, o progresso tecnológico, o consumista argumenta, pode fornecer novos usos para uma oferta de bens de capital em expansão, que, de outra forma, não iria achar ?escape de investimento?. Ou, se tudo falhar, pode-se confiar no governo para ofertar um consumo ilimitado ? mesmo na ausência de desejos. Ou talvez, o consumista tem a esperança, um país pode ter a sorte suficiente para estar em perigo de ataque por inimigos estrangeiros, e então sustentar-se pela necessidade de manter um grande establishment de defesa. Em qualquer caso, o consumista imagina que o governo será capaz de promover a prosperidade trocando seu consumo pelo produto das pessoas.

A Produção Limita o Consumo

O producionista, certamente, tem uma visão diferente dessas questões. Ele argumenta que o nascimento e a criação de crianças sempre constituem uma despesa aos pais. Ao criarem seus filhos, os pais devem gastar um dinheiro que, caso contrário, seria gasto com eles mesmos. Certamente, os pais podem, e esperançosamente irão, considerar o dinheiro como melhor e mais agradavelmente gasto para seus filhos; mas ainda assim, ainda é uma despesa. E se eles têm um grande número de filhos; eles serão reduzidos à pobreza. Isso é um fato, o producionista argumenta, que qualquer um pode perceber em qualquer família grande que não possui correspondentemente uma grande renda. A presença das crianças não faz com que os pais gastem mais do que eles gastariam em outra situação, mas somente gastarem diferentemente do que eles gastariam. Eles compram comida de bebê, brinquedos e bicicletas ao invés de mais refeições em restaurantes, um carro melhor, ou férias mais caras. Não há estimulo dado à produção. A produção é meramente direcionada de forma diferente, à distribuição diferente da demanda.

O único aumento na produção que poderia acontecer, o producionista persiste, seria como resultado dos pais terem que ter um trabalho extra ou horas mais longas para sustentar seus filhos e ainda serem capazes de manter seu padrão de vida anterior. E quando as crianças crescerem, o mercado adicional de casas, automóveis e etc. que elas supostamente devem constituir só irá se materializar à medida que elas forem capazes de produzir essas coisas e, então, ganhar o dinheiro com o qual elas os compram. Só será por virtude de sua produção, e não por virtude de seu desejo de consumir, que elas serão capazes de constituir um mercado adicional.

Propaganda e o Consumidor

A propaganda, o producionista acredita, não cria desejos de consumo onde o desejo por bens adicionais não teria existido de outra forma. Não é o caso de que, na ausência de propaganda, as pessoas ficariam confusas em como gastar o seu dinheiro. A propaganda não é necessária, e não seria suficiente, para estimular os homens a consumirem vegetais. O que a propaganda faz é levar as pessoas a consumirem diferentemente e de uma forma melhor do que elas fariam caso contrário. A propaganda é uma ferramenta de competição, e, como tal, para cada produto cuja venda é aumentada por ela, há outro produto competidor cuja venda é diminuída.

A atitude do consumista em relação à propaganda deixa claro algumas conclusões e implicações de sua premissa básica. Sua avaliação da propaganda, como aquela da guerra e da destruição, é ambivalente, e necessariamente deve ser. De um lado, ele a aprova, no sentido de que ao criar desejos de consumo, há criação do trabalho necessário para satisfazer esses desejos. Entretanto, esse pensamento, de que a propaganda cria desejos onde eles não existiriam caso contrário, também o faz condená-la. Porque se for verdade que, na ausência da propaganda, os homens são perfeitamente contentes com muito pouco, os desejos criados pela propaganda parecem ser somente superficiais e basicamente desnecessários e artificiais.

E é precisamente assim como o consumista considera esses desejos. Em sua visão, todos os desejos que os homens têm por bens, além do que é necessário para tornar possível a mais simples sobrevivência física e uma existência vegetativa, representam um gosto artificial por ?luxo?. O consumista considera esses desejos inerentemente desprezíveis. Sua única justificação é a criação de trabalho. A concepção do consumista da maior parte da atividade econômica, então, é a de que ela representa moções sem sentido, necessárias para fazer as pessoas desejarem bens que elas não necessitam, para torná-las capazes de passar suas vidas na produção desses mesmos bens.

Por mais paradoxo que possa parecer à primeira vista, é o producionista que dá importância aos desejos de consumo. Na sua visão, o desejo por ?luxo? é importante; é necessário e natural; pois isso não é nada mais do que o desejo de satisfazer suas necessidades (incluindo a necessidade de satisfação estética) de uma forma mais aprimorada. É da importância que se dá à satisfação do desejo por ?luxo?, o producionista continua, que a importância do trabalho necessário para produzi-las é derivado, e não vice versa.

Tecnologia e Bens de Capital

O valor do progresso tecnológico, o producionista defende, não se origina na criação de ?escapes de investimento? ou ?oportunidades de investimento? para uma oferta em expansão de bens de capital. Se o conceito de bens de capital é propriamente entendido, como denotando todos os bens que o comprador emprega para o propósito da produção de bens que devem ser vendidos, então, o producionista afirma, não há algo como uma carência de ?oportunidade de investimento? para bens de capital. Enquanto que mais ou mais avançados bens de consumo são desejados, há a necessidade para uma oferta maior de bens de capital.

Por exemplo, dez milhões de automóveis de uma determinada qualidade exigem o emprego de duas vezes a quantidade de bens de capital ? duas vezes a quantidade de aço, vidro, pneus, tinta, motores e maquinário ? na sua produção do que exigem cinco milhões de automóveis. Se se deseja aumentar a qualidade dos automóveis, uma maior quantidade de bens de capital é necessária para a produção do mesmo número de automóveis. Por exemplo, um determinado número de carros da qualidade Chevrolet exige uma maior quantidade de bens de capital na sua produção do que o mesmo número de carros da qualidade Volkswagen; o mesmo número de carros da qualidade Cadillac exige um maior estoque de bens de capital; e o mesmo número de carros da qualidade Rolls Royce exige um estoque ainda maior.

O mesmo princípio se aplica a casas de diferentes tamanhos e qualidades. Uma determinada quantidade de casas de oito quartos exige o emprego de um maior estoque de bens de capital do que o mesmo número de casas de sete quartos da mesma qualidade. Um determinado número de casas de tijolo exige um estoque maior de bens de capital do que o mesmo número de casas de madeira do mesmo tamanho; os tijolos ou qualquer outro material mais caro constituem um estoque maior de bens de capital porque uma quantidade maior de trabalho é necessária para produzi-los. O princípio se aplica às comidas e às roupas, aos móveis e às ferramentas, a todos os bens. Enquanto que nem todos os bens de consumo que são produzidos sejam da melhor qualidade conhecida, há uma necessidade para um maior estoque de bens de capital.

À Medida que a Tecnologia Avança

Não é o caso de que, na ausência de progresso tecnológico, o estoque de bens de capital continuaria a expandir, mas não encontraria nenhum ?escape de investimento?. Não é o caso de o que nós temos que temer com uma falta de progresso tecnológico é de uma enchente de bens, dos quais todos os carros produzidos serão o equivalente aos melhores Rolls Royces conhecidos, dos quais toda casa que é construída será uma mansão palaciana, dos quais toda roupa produzida será adequada para o Duque de Windsor, e dos quais toda porção de comida será uma delicatesse rara, e que, então, nós devemos estar perplexos em como empregar nosso estoque crescente de bens de capital. Ao contrário, o que nós devemos temer com a falta de progresso tecnológico, o producionista argumenta, é que nós não teremos um aumento no estoque de bens de capital, que nós não seremos capazes de explorar qualquer porção dos ?escapes de investimento? praticamente ilimitados que já existem, dentro do padrão tecnológico conhecido.

O valor do progresso tecnológico, o producionista defende, consiste no fato de que eles nós torna capazes de obter um maior estoque de bens de capital, e não que ele resolve o problema do que fazer com um estoque maior. Os avanços tecnológicos que tornaram possíveis a construção do canal e da estrada do século dezenove e o desenvolvimento da indústria de ferro eram valiosos, não porque eles absorveram bens de capital, como o consumista defende, mas porque eles tornaram possível a acumulação dos bens de capital. O consumista não percebe que o estoque de bens de capital só pode se expandir por meio de uma expansão da produção, e é precisamente isso o que o progresso tecnológico torna possível. Se os avanços tecnológicos que tornaram possível as primeiras estradas de ferro não tivessem acontecido, o estoque de bens de capital necessário para a construção da estrada de ferro expandida e aprimorada da década de 1840 não seriam alcançáveis; ou, se alcançáveis, somente ao preço da expansão de alguma outra indústria. Se os avanços tecnológicos não tivessem acontecido na década de 1840, o estoque de bens de capital na década de 1850 seria menor, tanto para as estradas de ferro quanto para todas as outras indústrias. E isso aconteceria de década a década, caso os avanços tecnológicos na construção de ferrovias ou em qualquer outra indústria não tivessem acontecido.

Para que a acumulação do capital continue por qualquer período no tempo, o progresso tecnológico é indispensável. Somente ele pode tornar possíveis os aumentos na produção, e só os aumentos contínuos na produção podem tornar possível a contínua acumulação do capital. O consumista não está ciente de que a coisa que ele considera como a solução para seu problema imaginário é a fonte do que ele imagina ser o problema. Ele também não está ciente de que, quando ele afirma que o progresso tecnológico é a solução para o problema do que fazer com mais bens de capital, ele está se confrontando com o problema do que fazer com um estoque maior de bens de capital, que ele mesmo admite ser o resultado do progresso tecnológico. O consumista enfrenta, em adição a outras dúvidas, o dilema de explicar como o progresso tecnológico pode aumentar a taxa de lucro, como ele coloca, ?aumentando a demanda por capital?, enquanto que ao mesmo tempo, como ele admite, isso aumenta a produção de bens de capital, que, ele afirma, diminui a taxa de lucro através da ?superprodução?.

Consumismo e Parasitismo

A idéia de que, ao uma pessoa consumir um produto, ela beneficia seu produtor, dando a ele o trabalho de tornar possível o consumo da pessoa, é absurda, o producionista afirma. Somente o uso da moeda proporciona a mínima aparência de plausibilidade a ela. Se isso fosse verdade, então todo escravo que já viveu deveria ter apreciado cada capricho de seu mestre, cuja satisfação o exigiu mais trabalho. Um escravo deveria ficar grato se seu mestre desejasse uma casa maior, uma rua melhorada, mais comida, mais festas, e assim por diante; pois a provisão dos meios de satisfazer esses desejos daria a ele mais trabalho a fazer.

A crença de que o consumo do governo beneficia e ajuda a sustentar o sistema econômico tem precisamente o mesmo fundamento, o producionista argumenta, assim como a crença de que o consumo do mestre beneficia e sustenta o escravo. É uma crença cujo absurdo só é comparado à injustiça que ela torna possível. É o meio através do qual grupos parasitas de pressão, utilizando o governo como um agente de saque, buscam iludir sua vítimas a pensar que elas são beneficiadas e sustentadas por aqueles que tomam seus produtos e não dão a elas nada em retorno.

O único benefício econômico que uma pessoa pode dar a um produtor, argumenta o producionista, consiste na troca de seus próprios produtos ou serviços pelos produtos ou serviços do outro. É por meio do que uma pessoa produz e oferece em troca que ela beneficia o produtor, não por meio do que ela consome.

À medida que uma pessoa consome os produtos ou serviços de outros sem oferecer produtos ou serviços em troca, essa pessoa consome à custa do outro.

O uso da moeda torna esse ponto, de certa forma, menos óbvio, mas não menos verdadeiro. Onde o dinheiro é empregado, produtores não trocam bens e serviços diretamente, mas indiretamente. O comprador troca moeda pelos bens de um vendedor. O vendedor então troca a moeda pelos bens de outros vendedores, e assim por diante. Mas todo comprador na sequência ou deve ter oferecido bens e serviços para venda equivalente àqueles que ele compra, ou ter obtido seu dinheiro de outra pessoa que o fez.

O fato de que em uma economia monetária todas as pessoas medem seu benefício através da quantidade de moeda que elas obtêm em troca de seus bens e serviços é interpretado pelo consumista a implicar que o mero gasto do dinheiro é uma virtude e que a prosperidade econômica deve ser encontrada através da criação e do gasto de moeda nova e adicional ? i.e., através de uma política de inflação.

Em contradição, o producionista argumenta que, para todos que gastam dinheiro recém criado e, através disso, obtêm bens e serviços sem ter produzido bens e serviços equivalentes, devem haver outros que sofrem a perda correspondente. Sua perda, diz o producionista, se manifesta através da depleção de seu capital, da diminuição do seu consumo, ou da ausência de recompensa pelo trabalho adicional que eles executam ? uma perda precisamente correspondente aos bens e serviços obtidos pelo comprador que não produz.

A defesa do consumista ao consumo daqueles que não produzem, para assegurar a prosperidade daqueles que o fazem, é, o producionista argumenta, uma resposta patológica para um mundo econômico que o consumista imagina ser regido pela patologia. O consumista tem sempre atrás de si a patologia do avaro. Seu raciocínio é dominado pelo pensamento da acumulação de dinheiro. Ele acredita que uma parte da humanidade é guiada por uma paixão despropositada por trabalho sem recompensa, que requere para sua concretização a existência de outra parte da humanidade ávida para aceitar recompensa sem trabalho. Esse é o significado da crença de que um grupo de homens deseja somente produzir e vender, mas não comprar e consumir, e a inferência que ela requere é a existência de outro grupo de homens que irão comprar e consumir, mas que não irão produzir e vender. No mundo do consumista, se imagina que os produtores produzam somente com o intento de obter dinheiro. O consumista está preparado para oferecer a eles moeda em troca de seus bens ? ele propõe ou tirar deles o dinheiro que ele acredita que eles não iriam gastar, e então dar para outra pessoa gastá-lo, ou imprimir mais moeda e permitir a eles acumular papel enquanto outros adquirem seus bens.

A acumulação de dinheiro não é o único fenômeno que o consumista toma para si. Se nenhum fato da realidade o ajuda, o consumista é altamente adepto da opção de apontar causas totalmente imaginárias de catástrofes econômicas. Invariavelmente, a solução defendida é o consumo por aqueles que não produziram, à custa daqueles que o fizeram. Sempre, o objetivo é demonstrar a necessidade e os efeitos benéficos do parasitismo ? apresentar o parasitismo como uma fonte de prosperidade geral.

A Racionalidade da Vida Econômica

Devido aos absurdos e contradições estupefantes do consumismo e a bruta distorção dos valores que ele propicia, se pode somente concluir que o apoio dado a ele é fundado no interesse ao qual ele obviamente serve: parasitismo. Isso, com certeza, não alivia o economista da tarefa de identificar os erros particulares de todo o argumento consumista. Isso, entretanto, desqualifica todo consumista como um economista. Nenhum cientista, em qualquer campo, pode aceitar a visão de que a realidade é irracional ou que a ação irracional é necessária para lidar com ela.

Aqueles economistas de hoje que aberta e audaciosamente proclamam que o mundo econômico é ?não-Euclidiano?, o fazem alegremente. É dessa forma que eles desejam que o mundo econômico seja. Se eles somente acreditassem que a vida econômica parecesse ser irracional, e, ao mesmo tempo, não desejassem que ela fosse irracional, eles nunca iriam proclamar que ela é de fato. Ao invés de saltar em defesa do consumismo depois do exame mais casual do assunto, eles não iriam descansar até que eles tivessem identificado os erros que puderam ter feito eles acreditarem que a vida econômica possuísse a aparência da irracionalidade; e quanto maior essa aparência pudesse ser, maior eles iriam perceber ser sua própria ignorância, e com mais afinco eles iriam trabalhar para superá-las e revelar os erros envolvidos. É isso o que distingue um economista de um Lorde Keynes.

Notas

[1] Nesse texto, o ?consumista? deve ser entendido como o adepto da premissa que considera o problema da vida econômica como o de como aumentar o consumo. Não confundir com ?pessoa que tem tendência a comprar exageradamente?.

Tradução de Luiz Mário Brotherhood.


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