Por Rafael Roos Guthmann

A moeda e o equilíbrio

A moeda é uma instituição. Uma instituição que emergiu espontaneamente do mercado, ou mais precisamente, do desenvolvimento dos mercados. A natureza desse processo de emergência é semelhante a natureza do desenvolvimento da linguagem. Como Hayek dizia, ambas instituições são produto da ação humana, mas não foram planejadas pela mente humana. A moeda é certamente uma instituição fundamental ao funcionamento da moderna economia de mercado. Sem ela a civilização nunca teria chegado aonde chegou. 

O processo de emergência de uma mercadoria que é trocada por todas as outras mercadorias e que deriva seu valor de sua capacidade em servir de meio de troca é um processo que ocorre naturalmente com o passar do tempo numa sociedade onde existe liberdade para a formação de mercados. Ao longo do tempo, mercadorias amplamente trocadas, inicialmente apenas devido a sua capacidade de satisfazer as preferências dos consumidores, começaram a ser utilizadas não somente para o consumo, mas também começaram a ser demandadas especificamente para a realização de trocas. Ou seja, as pessoas começaram a demandar a mercadoria apenas pela facilidade com que ela é trocada por outras mercadorias. Diferentemente das outras mercadorias, a moeda deriva seu valor não da sua capacidade em satisfazer as necessidades humanas, mas sim de sua capacidade em servir de meio de troca. As pessoas demandam moeda porque tem a expectativa de que as outras pessoas também demandem moeda. Já que se alguém vende um produto (troca um produto por moeda) esse alguém está demandando moeda, e está demandando moeda porque tem a expectativa de que as outras pessoas estejam dispostas a trocar seus produtos pela moeda que ele demandou, ou seja, que também demandem moeda. 

O valor de moeda é determinado pela relação entre oferta e demanda por moeda, se os agentes começam a acumular maiores encaixes de moeda, a demanda por moeda se eleva e emerge a tendência a elevação no valor da moeda. Analogamente, se os agentes reduzirem seus encaixes de moeda, temos uma redução na demanda por moeda e um aumento na oferta de moeda em relação as outras mercadorias, logo a moeda se desvaloriza em relação as outras mercadorias. É teoricamente possível que se os agentes reduzirem seus encaixes para zero, o valor de moeda venha a tender a zero e os preços tendam ao infinito e a moeda deixe de existir. 

A existência da moeda é produto da incerteza em relação as conseqüências das possibilidades de escolha de todos os agentes. As pessoas demandam moeda porque ela é ?flexível?, ou seja, pode ser utilizada comprar qualquer coisa que no futuro o agente venha a perceber como uma escolha ótima e que hoje ele não tenha percebido. Como as pessoas não sabem exatamente o que elas vão demandar no futuro, porque não sabem qual será a situação de seu processo de escolha no futuro, e sabem que não sabem como será o futuro, então elas esperam que a acumulação de reservas de alta liquidez seja necessária para lidar com a incerteza que cerca o futuro. 

Já é consenso entre os economistas que num equilíbrio geral a moeda não existe. O que é um equilíbrio geral? Um equilíbrio geral é uma situação onde todos os agentes formularam planos de ação ótimos em relação as suas preferências, as preferências dos outros agentes e os bens sob posse de todos os agentes. Nessa situação os planos de todos os agentes estão plenamente coordenados, tudo que é ofertado é demandado e tudo o que é demandado é ofertado. Para os agentes formularem planos de ação ótimos é necessário que eles tenham o conhecimento perfeito de tudo o que é relevante para o formulação de seu plano de ação. Ou seja, a incerteza em relação as conseqüências dos vários planos de ação possíveis deve ser zero. Eu estou falando da incerteza genuína, e não da incerteza probabilística, já que podemos ter um equilíbrio geral sem incerteza genuína mas com incerteza probabilística, mas não podemos ter um equilíbrio geral com incerteza genuína, pela própria definição de equilíbrio geral. 

Como num equilíbrio não existe incerteza genuína, não existe razão para que os agentes mantenham uma demanda por encaixes em moeda, já que eles sabem o que vão demandar e ofertar para todo o tempo futuro. Assim podemos concluir que a demanda por moeda tende a zero e, conseqüentemente, não existe moeda numa situação de equilíbrio geral. Nos modelos de equilíbrio geral o que existe é um numerário que é basicamente uma unidade de contabilidade, não é uma moeda genuína, já que o agente teria que ser irracional para demandar moeda numa situação de equilíbrio. 

Por que o agente teria que ser irracional para utilizar moeda num equilíbrio geral? Porque o custo de oportunidade em manter encaixe em moeda é o custo de se ter bens úteis para consumo. E como a moeda por definição não é útil para consumo o agente não vai demanda-la. Só se ele tivesse incerteza em relação ao que ele consumiria no futuro, porque ele não sabe que escolhas ele vai tomar quando enfrentar situações que ele não havia previsto e ele sabe que situações imprevistas vão ocorrer (ele sabe que não sabe o futuro). Nota-se que num equilíbrio geral todas as transações possíveis são realizadas no tempo 0, porque os planos de ação dos indivíduos para a totalidade do futuro já foram elaborados no tempo 0. 

O sistema bancário 

Na moderna teoria de processo de mercado foi descoberto que o elemento equilibrativo dos mercados é o processo de descoberto de possibilidades de trocas mutuamente benéficas ainda não realizadas, como toda troca mutuamente benéfica possuí a propriedade da diferença de valorações relativas dos bens que são trocados, toda a troca mutuamente benéfica não realizada representa a possibilidade de lucro monetário, já que se existem diferenças de valorações, então existem diferenças entre os preços que ambos os agentes estão dispostos a pagar por um mesmo bem. Então se define como elemento equilibrativo do mercado o processo de descoberta de possibilidade de lucros. O equilíbrio geral é atingido quando as possibilidades de lucros são esgotadas. 

A questão é: Existe possibilidade de lucro na geração de tendências equilibrativas para a moeda? Ou seja, o processo mercado gera uma tendência a redução na quantidade de demanda por moeda dos indivíduos? A resposta para essa pergunta se encontra na análise do funcionamento do sistema bancário. 

No sistema bancário os agentes depositam seu dinheiro no banco, já que depositar o dinheiro no banco rende juros, que empresta esse dinheiro para outros agentes, que pagam juros pelo empréstimo. O que ocorre é que os bancos realizam o serviço de emprestar para os agentes com preferências temporais mais ?curtas? (a taxa de desconto intertemporal é relativamente grande) com o dinheiro dos agentes com preferências temporais mais ?compridas? (a taxa de desconto intertemporal é relativamente pequena). Assim o sistema bancário é a instituição que realiza o processo de descoberta de possibilidades de ganho mutuo na troca intertemporal e além disso, reduz os custos de transações, organizando as transações intertemporais numa firma especializada. Isso significa que o sistema bancário também existiria num equilíbrio, mas é claro que existiria numa forma diferente da que estamos acostumados. 

Mas além de realizar trocas intertemporais, os bancos também geram uma tendência equilibrativa para a moeda. Os agentes não precisam deixar todos seus encaixes na mão, eles podem alocar parte de seus encaixes para render juros e retira-los quando precisar. A liquidez de sua poupança investida no banco é menor do que a liquidez do que eles tem na mão, por isso eles não vão deixar todos seus encaixes de moeda no banco, mas apenas a maior parte deles, e vão retirar parte de seus encaixes com certa regularidade para uso no dia a dia. Os agentes não vão retirar seu dinheiro do banco para troca imediatamente, mas sim para ter um encaixe de alta liquidez quando precisar. 

A tendência é sempre do banco emprestar a maior parte de seus ativos, deixando a menor parte de reserva. Já que quanto maior a quantidade de ativos rendendo juros, maior é o lucro, e maior é a capacidade do banco pagar os juros pelos depósitos de seus clientes. O que significa que o banco mais eficiente na administração de seus ativos vai abocanhar o mercado. Ou seja, o processo competitivo do mercado sempre gera uma tendência a redução da quantidade de reservas, já que quanto menores forem as reservas, maior será a eficiência das transações intertemporais. O problema é que essa tendência gera efeitos sobre a quantidade de moeda "de fato" (que a base continua inalterada, mas o sistema opera como que se tivesse mais moeda) no sistema econômico. 

O multiplicador bancário é o mecanismo que o sistema bancário criou que eleva a oferta de moeda no sistema econômico e reduz a demanda por encaixes dos agentes. Os bancos emprestam a maior parte dos depósitos, e dessa forma o dinheiro é ?multiplicado?, já que a mesma quantidade de moeda é utilizada numa maior quantidade de transações no mesmo período de tempo. Porque essa moeda que fazia parte do encaixe de um agente agorá será utilizada por outro agente. Isso significa que no limite, ou seja, no equilíbrio geral, os bancos vão saber quando que os agentes vão sacar seu dinheiro deles, e assim eles vão deixar 100% de seus ativos girando, o que significa que o multiplicador bancário vai tender ao infinito, o que significa nessa situação hipotética que a moeda vai atingir o equilíbrio (valor tender a zero) através da descoberta de oportunidades lucrativas de realocação de recursos de dentro do sistema financeiro. Ou seja, vai ocorrer uma divisão intelectual do processo de descoberta de maneiras de não deixar os encaixes dos agentes parados, o que fortalece as tendências equilibrativas do sistema econômico em relação a moeda. 

Se numa situação sem sistema bancário, cada agente teria que conhecer exatamente tudo o que ele vai transacionar na totalidade do futuro para não deixar o dinheiro dele parado, com o sistema bancário, os bancos descobrem como não deixar o dinheiro dele parado. Reduzindo a demanda por moeda, o que gera uma expansão de crédito, já que estamos falando do processo de ?aceleração? do multiplicador bancário. O problema é que uma expansão monetária nunca deixa de afetar os preços relativos, o que significa que essa tendência de fortalecimento do processo equilibrativo da moeda acaba por gerar problemas no sistema econômico. Mais especificamente, o ciclo de negócios, sem expansão da base monetária. 

Ciclos de negócios 

A teoria Mises-Hayek do ciclo de negócios é baseada na idéia da expansão de crédito como fonte geradora dos ciclos de negócios, que são as flutuações semi-periódicas do grau de coordenação dos planos dos agentes num determinado sistema econômico. A expansão do crédito, através da emissão de moeda no sistema bancário, acaba reduzindo temporariamente os juros e essa redução temporária dos juros para um valor abaixo de seu valor de equilíbrio, acaba descarrilhando a estrutura intertemporal de produção das preferências intertemporais dos consumidores. E todo esse processo acaba com a descoberta desses erros, o que é chamado de crise econômica.

Os economistas sabem que o efeito multiplicador bancário pode, hipoteticamente, expandir o crédito. Por exemplo, num sistema monetário baseado no padrão ouro um banco qualquer poderia emitir mais notas do que teria depósitos em ouro por trás dessas notas. Teoricamente, ele poderia emitir uma quantidade infinita de notas. O problema é que ele não poderia expandir de forma sustentada a quantidade de notas, porque os seus clientes iriam descobrir que suas notas não tem ouro por trás e iriam correr para os bancos sacar o ouro. Logo a proporção dos depósitos que é emitida no mercado em forma de notas pelo banco não pode ser muito grande em relação a quantidade de reservas, e geralmente é uma proporção razoavelmente segura, onde o volume de saque dos clientes seja razoável. Segundo Mises, essa proporção não tende a exibir a tendência de se alterar com o tempo. Nesse caso não podemos ter uma expansão duradoura do crédito, e conseqüentemente, não podemos ter uma redução temporária da taxa de juros e assim o ciclo de negócios não emerge. Segundo Mises e a maioria dos seus seguidores, somente com um sistema monetário baseado no papel moeda ou se tivermos um sistema de padrão ouro onde o banco central sirva de seguradora dos outros bancos em momentos de crise, que um processo inflacionário pode emergir e assim podemos ter um ciclo de negócios. Num padrão ouro puro, os bancos não podem expandir crédito se eles tem suas mãos amarradas pelas suas reservas e nenhuma instituição que os salve após uma corrida bancária. Então não teríamos uma expansão contínua de crédito.

Ou seja, pela teoria austríaca padrão, os bancos vão emprestar parte de seus depósitos, mas essa parte não tem tendência em variar ao longo do tempo, ou seja, não temos tendência a expansão ou contração generalizadas do crédito devido ao multiplicador bancário. Só a partir da expansão da base monetária que podemos ter uma expansão de crédito sustentada que leve a um ciclo de negócios. Eu seja só se expandirmos a base monetária, e/ou se o governo agir como segurador de banco (que é a função primordial do BC) que podemos ter uma expansão de crédito sustentada.

Repetindo o argumento da parte 1: Um ponto interessante é que o multiplicador bancário é na verdade um multiplicador da chamada ?velocidade de circulação? da moeda. Ou seja, os indivíduos não precisam ficar com a totalidade de seus encaixes em moeda na mão, eles podem depositar esses encaixes nos bancos. O que ocorre então é que os bancos fazem esse dinheiro girar. Mas então podemos notar que é isso o que ocorre quando convergimos para o equilíbrio. Ou seja, quando menor o grau de incerteza sobre os agentes, menor é a demanda por encaixes e assim menor é o valor da moeda e maior é a velocidade de circulação. Os bancos são redutores de incerteza, eles reduzem o grau de incerteza na economia e a aproximam do equilíbrio. Foi Kirzner quem descobriu que o processo de descoberta de oportunidades lucrativas é o processo equilibrativo, bem, o processo de descoberta de oportunidades lucrativas no setor bancário é um processo equilibrativo não só dos juros (preferências temporais) mas também dá moeda. Ou seja, os bancos, ao multiplicar a moeda, estão aproximando o sistema monetário do equilíbrio (velocidade de circulação infinita).

Mas isso me faz perguntar, os juros não tenderiam a zero com a multiplicação infinita da quantidade de moeda? Bem, é claro que no equilíbrio geral os juros não são zero, porque as preferências temporais existem no equilíbrio. Mas o que ocorre se o valor nominal do crédito no mercado for expandido infinitamente na convergência com o equilíbrio? Bem, nesse caso como todos os preços vão se expandir infinitamente e o valor real de crédito ofertado não se altera e não se desloca do seu valor de equilíbrio. Mas como a economia do mundo real nunca está em equilíbrio, então o processo competitivo do sistema financeiro gera uma tendência ao aumento nos preços. E nesse mundo em desequilíbrio, a tendência ao aumento nos preços não ocorre simultaneamente e na mesma intensidade em todos os preços, o que significa que os preços relativos das mercadorias mudam, o que significa que uma expansão na quantidade de ?moeda de fato? na economia pelo sistema financeiro eleva a quantidade real de crédito no mercado. E conseqüentemente temos uma expansão de crédito causada pela redução no grau de incerteza em relação as possibilidades de saque dos bancos, essa redução causada pelo processo competitivo entre os bancos, que como Hayek afirmou, é um processo de descoberta (ou seja, redução do numero de coisas que é desconhecido). 

E assim temos uma conseqüência extremamente maligna do processo competitivo, quando esse processo ocorre no sistema bancário: A expansão de crédito. E essa expansão de crédito ocorre com o tempo. A situação então é a seguinte: Temos os bancos, os bancos gradualmente aprendem a melhorar a eficiência com que eles conseguem utilizar suas reversas, expandindo o crédito, a economia passa a funcionar como que se tivesse ocorrido uma mudança nas preferências temporais dos agentes devido a essa expansão do crédito, o que significa que temos a fase de boom do ciclo de negócios. Mas com o tempo essa fase de boom acaba e a economia entra em crise. Os bancos sofrem corridas bancárias e vão a falência, a economia se descoordena e o processo tem espaço para começar novamente já que a eficiência com que os bancos utilizam suas reservas é menor. Ou seja, o processo coordenativo do mercado quando atua no sistema bancário, e quando ocorre numa situação onde temos um padrão ouro ou qualquer base monetária que não é ajustada de forma a contrabalançar os efeitos da variação (aumento da intensidade) do multiplicador bancário devido ao processo competitivo, leva a ciclos de períodos de relativa coordenação seguidos de períodos de relativa descoodernação do planos dos agentes pelo sistema econômico. 

Mas como que poderíamos evitar o ciclo de negócios? Como os agentes preferem estar coordenados do que estar descoordenados, então existe um potencial de demanda por um sistema monetário superior ao padrão ouro, ou seja, coordenar melhor os planos dos agentes é uma possibilidade de lucro não explorada (na verdade, todas as possibilidades de lucro são modificações nos planos dos agentes para que eles se tornem mais coordenados). E por essa razão o processo de mercado vai tender a formar um mercado por moedas, que vai controlar a emissão de base monetária para contrabalançar os efeitos negativos do aumento na oferta de moeda no sistema financeiro causado pelo processo de competição entre os bancos.


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