Libertários acham que crescimento econômico é algo raramente discutido. Isso geralmente se deve a opinião convencional de que o crescimento econômico é um presente do governo. Papéis secundários, tal como a distribuição eficiente de bens e serviços, podem, sem dúvida, ser confiados ao mercado, mas quando se trata primariamente da inovação em bens e serviços (especialmente de novos bens e serviços que impulsionam o crescimento econômico), então desculpe querido libertário, só o governo pode fornecer isso: somos ricos hoje somente porque que o bondoso governo e seus igualmente agradáveis antecessores foram gentis e esclarecidos o suficiente para permitir que a riqueza surgisse na sociedade.

A história convencional é uma história incrível de generosidade e sabedoria do governo. Exatamente aquela que as grandes empresas, grandes universidades e grandes economistas costumam promover constantemente. Há apenas um, pequeno, pequeniníssimo, pequenininho problema com essa história [1]. Ela está absolutamente errada!

A história do erro intelectual de maior longevidade no pensamento econômico ocidental começou em 1605, quando o político e corrupto advogado inglês, Sir Francis Bacon, publicou a obra “Advancement of Learning”. Bacon, que era um homem com um interesse sobrenatural na riqueza e no poder, queria saber como a Espanha tornou-se a nação mais rica e poderosa do seu tempo. Ele concluiu que a Espanha tinha alcançado isto através da exploração de suas colônias americanas. E como a Espanha tinha descoberto essas colônias? Com a ajuda da pesquisa científica: “As Índias Ocidentais nunca teriam sido encontradas se o uso da bússola não tivesse sido descoberto primeiro”.

A investigação científica, afirmou Bacon, era “o verdadeiro ornamento da humanidade”, pois “os benefícios inventados são estendidos por toda a raça humana”. Contudo, escreveu ele, isso acarreta um problema: toda a raça humana pode se beneficiar das invenções, mas toda a raça humana não reembolsa os seus inventores, de modo que a invenção não é recompensada pelo mercado. Pesquisa científica, de acordo com o mesmo, é um bem público [2] que deve ser fornecido pelo governo: “não há função do governo mais digna do que uma relevante doação ao mundo de conhecimentos sólidos e fecundos”.

O argumento de Bacon foi reforçado em nosso próprio tempo por três renomados trabalhos publicados por três renomados economistas, dois dos quais (Robert Solow e Kenneth Arrow) foram ganhadores do prêmio Nobel, e o terceiro deles, Richard Nelson, é alguém do mesmo grau de relevância. Nós precisamos olhar para o que os economistas – ao contrário dos cientistas – escreveram, porque os economistas, sendo aparentemente sistemáticos, influenciam a política mais do que os cientistas: é fácil demitir cientistas por uma alegação específica e outros pormenores, mas quem pode duvidar dos estudos desapaixonados e objetivos dos economistas?

A história contemporânea começa com um paper de 1957 escrito por Robert Solow, um estudo empírico atestando que a maior parte do crescimento econômico no mundo moderno, de fato, pode ser atribuído à inovação tecnológica (em oposição, por exemplo, ao aprofundamento do capital [3]). Apesar disso a história teve sua guinada dirigista depois dos papers que Nelson e Arrow publicaram em 1959 e 1962, respectivamente, onde foi explanado que a ciência é um bem público, porque a cópia é mais fácil e mais barata do que a pesquisa original: é mais fácil e mais barato copiar e/ou modificar as descobertas registradas nos periódicos e nos bancos de patentes (ou incorporados em novos produtos) do que fazer as descobertas originais. Assim, nenhuma entidade privada irá investir em inovação, pois seu investimento somente ajudará seus concorrentes a pouparem os custos da pesquisa original, minando a pesquisa originária.

O problema com os papers de Nelson e Arrow, no entanto, eram serem somente teóricos, e uma ou duas almas problemáticas, observando além do ninho destes economistas, constatou que no mundo real parecia não haver pesquisa financiada com fundos privados acontecendo – uma proporção grande na verdade – daí em diante a história convencional foi modificada. Essa mudança foi impulsionada por mais três notáveis economistas, Paul Romer (foco na investigação industrial), Partha Dasgupta e Paul David (foco na pesquisa acadêmica).

Paul Romer, em um artigo de 1990, reconheceu que, no mundo real, onde existe o (i) monopólio comercial imposto por patentes e o (ii) segredo comercial, aparentemente imposto pelas tradições mercantis, cientistas podem certamente recuperar parte dos custos de sua pesquisa original. À partir daí ele criou um modelo matemático demonstrando que algumas pesquisas originais seriam recompensadas pelo mercado. No entanto, ele ainda assumiu que muito pouco da ciência industrial seria recompensada: “A pesquisa tem efeitos externos positivos. Ela aumenta a produtividade de todos os indivíduos futuros que fazem pesquisa, mas por esses benefícios serem não-excludentes, inexistem plenos reflexos seus nos preços de mercado”.

Dasgupta e David, em seu artigo de 1994, analisaram o desenvolvimento histórico das universidades, institutos de pesquisa e convenções científicas, chegando a conclusão de que tais construções sociais, de fato, promovem a ciência pura [4], mas que os avanços da ciência básica são demasiadamente imprevisíveis para que os seus descobridores lucrem através do mercado: “A ciência está em constante necessidade de apoio através de patrocínio público”.

Então este é o dogma atual: a pesquisa científica é fundamentalmente um bem público, porque novas ideias, ao contrário de bens privados, não podem ser monopolizadas por muito tempo, muito embora na prática possamos tratar a pesquisa como um mérito pessoal válido (o que é bom, já que diminui o peso do financiamento estatal), pois as convenções como patentes ou segredo industrial (para não falar de entidades como universidades e institutos de pesquisa) evoluíram para reforçar certo — ou insuficiente — grau de financiamento privado.

Mas a dificuldade com esta nova história da ciência como um bom mérito é que não há nenhuma evidência empírica de que a pesquisa precisa de qualquer financiamento por parte do governo.

O problema fundamental que atormenta o estudo da economia da ciência é que cada ator contemporâneo na história é parti pris [5]: cada ator contemporâneo que entra em campo presume que os governos devem financiar a ciência. Esses atores são ou industriais que procuram bem-estar corporativo, ou estudiosos visando proteger os recursos das suas universidades, ou cientistas (que, francamente, vão procurar dinheiro até embaixo do tapete – esses não tem vergonha), ou economistas que assumem que o conhecimento é “não-rival” e apenas “parcialmente-excludente” (formas pomposas de dizer que copiar é mais barato e fácil.)

Apesar de tudo nenhum contemporâneo jamais mostrou empiricamente que os governos precisam financiar a ciência — a afirmação foi feita apenas em ares teóricos. Incrivelmente, o economista que olhou para a questão empiricamente encontrou evidências de que os governos não precisam financiar a ciência, contudo sua reinvindicação tem sido por muito tempo ignorada, pois ele era notoriamente um libertário — e libertários não tem tradição entre os estudiosos, políticos e corporativistas que dominam a área. Em 1776, ainda por cima, o economista em questão defendeu uma revolução, que para ele não estava só atrasada, mas era presumivelmente subversiva para ordem social vigente.

No entanto, só pelo interesse nostálgico, vamos olhar para o que este empirista relatou. As evidências mostraram, escreveu ele, que haviam três fontes significativas de nova tecnologia industrial. A mais importante era a própria fábrica: “Uma grande parte das máquinas foi criada nas fábricas... eram originalmente invenções de operários comuns”.  A segunda fonte de nova tecnologia industrial eram as fábricas que produziam as máquinas que outras fábricas utilizavam: “Muitas melhorias foram feitas pelo talento dos fabricantes das máquinas”. A fonte menos importante de inovação industrial era a academia: “algumas melhorias em máquinas foram feitas pelos chamados filósofos (acadêmicos)”.  O nosso economista ainda observou que esse fluxo de conhecimento da academia para a indústria foi menor em relação ao tamanho do fluxo oposto de conhecimento: “As melhorias que, nos tempos modernos, foram feitas em várias partes da filosofia, não foram, a maior parte delas, feitas em universidades (i.e., elas foram feitas na indústria)”. Daí em diante nosso empirista concluiu que os governos não precisam financiar a ciência: o mercado e a sociedade civil financiam.

Além do mais, argumentos em prol dos chamados bens públicos foram dispensados pelo nosso economista libertário com: “Eu nunca entendi muito bem aqueles que pensam que devem fazer comércio para o bem público”. Em especial, os argumentos dos industriais pelos subsídios foram dispensados com: “As pessoas do mesmo ramo raramente se reúnem, mesmo para comemorar e se divertir, sem que a conversa acabe numa conspiração contra o público”. E o nosso enfraquecido revolucionário da ordem social descartou a ideia de que as sábias decisões de investimento poderiam ser confiadas aos políticos: “esse animal insidioso e astuto, vulgarmente chamado de político ou estadista”.

Nosso economista, falecido há muito tempo, reconheceu a existência de bens públicos, os quais ele descreveu como os “de tal natureza, que o lucro nunca poderia pagar o custo para qualquer indivíduo ou pequeno número de indivíduos”, todavia ele não enxergou que a pesquisa científica caía nessa categoria.

O economista em questão foi, é claro, Adam Smith, cujo livro Riqueza Das Nações, de onde foram tiradas estas citações, foi publicado em 1776. Sem dúvida ele é um morto de longa data, todavia a evidência empírica contemporânea ainda sustenta a sua tese de que os governos não precisam apoiar a pesquisa científica. Considere, por exemplo, a falta de evidência histórica de que o investimento do governo em pesquisa contribuiu para o crescimento econômico.

A nação líder durante o século XIX foi o Reino Unido, pioneira na Revolução Industrial. Nessa época o Reino Unido produzia ciência tão bem quanto gigantes da tecnologia, que vão desde Faraday e Kelvin até Darwin, no entanto, essa foi uma era de quase laissez faire, durante a qual o apoio sistemático do governo britânico era trivial para ciência.

A nação líder durante o século XX foi os Estados Unidos, e que era quase laissez faire também, principalmente na ciência. Em 1940, 50 anos depois de seu PIB per capita ter ultrapassado o do Reino Unido, o orçamento anual total dos EUA para pesquisa e desenvolvimento (P&D) foi de 346 milhões de dólares, dos quais nada menos do que 265 milhões dólares foram arrecadados de fundos privados (incluindo 31 milhões para universidades e fundações de ciência). Do orçamento em P&D do governo federal e dos estados mais de 29 milhões de dólares foram para agricultura (remetendo — lembre — ao problema crônico dos Estados Unidos de superprodução agrícola) e 26 milhões para a Defesa (a qual tem um benefício econômico trivial). A América, portanto, produziu a sua liderança industrial, bem como seus Edisons, Wrights, Bells e Teslas, sob a pesquisa laissez faire.

Enquanto os governos da França e da Alemanha despejaram dinheiro em P&D durante o século XIX, embora eles tenham produzido boa ciência, as suas economias falharam até mesmo em se aproximar do Reino Unido, quanto mais de ultrapassá-lo, como fez os EUA. Para o século XIX e a primeira metade do século XX, a evidência empírica clara é: as nações industriais cujos governos investiram menos em ciência tampouco fizeram mal a ciência e ainda se saíram melhor economicamente.

O que aconteceu depois disso? Guerra. Foi a Primeira Guerra Mundial que convenceu o governo do Reino Unido a financiar a ciência, e foi a Segunda Guerra Mundial que convenceu o governo dos EUA a seguirem o exemplo. Mas foi a Guerra Fria que firmou o compromisso dos governos em financiarem a ciência, e hoje os orçamentos desses governos para a ciência acadêmica são minimamente oriundos do setor privado; e o efeito dessa generosidade nas taxas de crescimento de longo prazo dessas nações foi... zero. As taxas de crescimento de longo prazo desde 1830 para o Reino Unido ou para os Estados Unidos não mostram desvios coincidindo com a inauguração da significativa quantia de dinheiro governamental para a pesquisa (na verdade as taxas mostram poucos ou nenhum desvios no longo prazo: a taxa de crescimento econômico de longo prazo das nações industrializadas líderes tem sido constantes em aproximadamente cerca de 2% ao ano durante quase dois séculos, com altos e baixos no curto prazo se anulando no longo prazo).

Além do mais a evidência econômica contemporânea confirma que o financiamento do governo em P&D não tem benefício econômico algum. Deste modo, em 2003, a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico — a agência de pesquisa econômica dos países industrializados) publicou o título Sources of Economic Growth in OECD, que analisou todos os principais fatores mensuráveis ??que poderiam explicar as diferentes taxas de crescimento das 21 principais economias do mundo entre 1971 e 1998. E descobriu que enquanto financiamento privado em P&D estimulou o crescimento econômico, o financiamento público em P&D não obteve impacto.

Os autores do relatório ficaram desconcertados com suas próprias descobertas. “Os resultados negativos para o P&D público são surpreendentes”, escreveram eles. Eles especularam que o financiamento público de P&D pode ter um efeito crowding out sobre os fundos privados de P&D, o que, se for verdade, sugere que o financiamento público de P&D pode realmente prejudicar o crescimento econômico [6]. Certamente, tanto eu quanto o Walter Park, da American University, já havíamos informado que os dados da OCDE mostravam que o financiamento governamental em P&D, de fato, expulsa o financiamento privado, em detrimento do crescimento econômico. Nas palavras de Park, “o efeito direto da pesquisa pública é fracamente negativo, como deve ser caso o gasto público de pesquisa tenha um efeito substitutivo e que adversamente afete o crescimento da produção privada”.

A OCDE, Walter Park, e eu temos que daqui para frente — como Adam Smith — testar empiricamente o modelo da ciência como um bem público ou bom mérito, e nós achamos que há algo errado: o financiamento público da pesquisa científica não tem efeitos benéficos sobre a economia. E a falha no modelo reside em uma de suas premissas fundamentais, afirmar que a cópia da pesquisa de outras pessoas é barata e fácil. Não é. Considere a tecnologia industrial. Quando Edwin Mansfield, da Universidade da Pensilvânia, examinou 48 produtos que, durante a década 70, tinham sido copiados por empresas de produtos químicos, medicamentos, eletrônicos e indústrias de máquinas na Nova Inglaterra, ele descobriu que os custos de cópia eram, em média, 65% dos custos da invenção original. E o tempo necessário para copiar foi, em média, 70% do tempo usado pela invenção original.

A cópia é demorada e cara por envolver a aquisição de conhecimento tácito (em oposição ao explícito). Ao contrário do mito, as pessoas não podem simplesmente ler um jornal, ler uma patente, por os olhos em um novo produto e em seguida copiar a inovação. Estudiosos como Michael Polanyi (ver seu clássico livro de 1958, Personal Knowledge) e Harry Collins, da Universidade de Cardiff (ver seu bem-intitulado livro de 2010, Tacit and Explicit Knowledge), tem demonstrado, copiar uma nova ciência e uma nova tecnologia não é simplesmente seguir o plano de um projeto: isso exige que o copiador realmente reproduza os passos dados pelo autor original. Uma famosa citação de Polanyi é “podemos saber mais do que podemos dizer”, mas é muitas vezes abreviada para “sabemos mais do que podemos dizer”, e isso captura o cerne — em ciência e tecnologia sempre sabemos mais (tacitamente) do que nós podemos dizer (explicitamente). Então em 1971, quando Harry Collins estudou a propagação de uma tecnologia chamada laser TEA, ele descobriu que os únicos cientistas que conseguiram copiá-lo eram os que tinham visitado os laboratórios onde lasers TEA já estavam em produção: “ninguém com quem falei obteve sucesso em construir um laser TEA utilizando as fontes escritas (incluindo projetos e relatórios) como a única fonte de informação”.

Uma pessoa falecida há muito tempo e que teria ficado surpresa com essa compreensão moderna do conhecimento tácito seria Adam Smith, que construiu sua teoria do crescimento econômico baseado nela: ele explicou como a divisão do trabalho foi fundamental para o crescimento econômico, porque muito conhecimento é, na linguagem moderna, tácito. “Esta subdivisão de emprego”, escreveu Smith, “melhora a destreza e economiza tempo”.

Mas se para especialistas custa 65% dos custos originais para copiar uma inovação, imagino quanto mais custaria para não-especialistas copiar. Se pessoas comuns fossem escolhidas na rua para copiar um avanço contemporâneo em biologia molecular ou software, elas precisariam de anos de imersão antes que pudessem conseguir. E em que essa imersão consiste? O que, de fato, o pesquisador moderno faz para se manter em atividade? Pesquisa.

Em um artigo de 1990 com o título revelador de "Por Que As Empresas Fazem Pesquisa Básica Com Seu Próprio Dinheiro?", Nathan Rosenberg, Universidade de Stanford, demonstrou que a quantia que um copiador em potencial tem de desembolsar antes que ele ou ela possam até mesmo começar a copiar uma inovação é a sua própria contribuição prévia para a área: somente quando a sua própria pesquisa é credível que você pode entender o ramo. E o que os pesquisadores credíveis fazem? Eles publicam papers e patentes que outros podem ler, e que produzem valores que os outros podem usufruir. Estes constituem o seu pagamento para o mundo da ciência copiável.

Assim os verdadeiros custos de cópia em um livre-mercado são 100%, sendo 65% dos custos de cópia direta e os custos iniciais de 35%, referentes ao pagamento que você tem que fazer para manter a capacidade de pesquisa e produção dos copiadores em potencial. Copiadores podem não pagar os 100% para a pessoa cujo trabalho é copiar, porque o custo in toto [7] para eles é no geral 100%, o argumento dos economistas de que a cópia é grátis ou barata portanto é rejeitada.

Isso porque, como os estudiosos da University of Sussex tem demonstrado, cerca de 7% dos gastos em toda P&D industrial do mundo são gastos em ciência pura. Isso também porque grandes empresas alcançam os números de publicações de universidades de médio porte. Igualmente Edwin Mansfield e Zvi Griliches, de Harvard, tem demonstrado por investigações abrangentes que quanto mais as empresas investem em ciência pura, maiores são os seus lucros. Caso uma empresa negligencie a pesquisa pura, consequentemente ela vai deixar de investir em pesquisadores puros, no entanto são esses os pesquisadores melhor qualificados para o levantamento de campo e importação de novo conhecimento para a companhia.

E isso de que a pesquisa industrial é secreta é um mito. Um dos grandes avanços da humanidade teve lugar durante o século XVII, quando cientistas criaram sociedades como a Royal Society em Londres, para promover o intercâmbio de conhecimento. Até então os cientistas tinham publicado secretamente ou em código (descobertas certificáveis que em seguida protegiam com um advogado ou em um cofre, apenas para reivindicar a prioridade quando um pesquisador mais tarde fizesse a mesma descoberta). Então Robert Hooke (1635-1703) publicou sua famosa lei da elasticidade como ceiiinosssttuu, que transcrito é tensio sic vis (stress é proporcional à tensão).

Os cientistas inicialmente não desejavam publicar integralmente (eles na verdade querem manter seus métodos de segredo), mas o benefício privado de compartilhar os avanços de sua pesquisa com outros membros das sociedades de pesquisa — quid pro quo [8] seria que os outros membros também fossem publicando — e assim tomar vantagem sobre todos outros cientistas que não estavam nas sociedades (e que logo não tinham nenhum estoque coletivo de conhecimento para explorar) levou, pelo auto-interesse, os cientistas a compartilharem seus conhecimentos com outros cientistas que fizessem o mesmo pacto. Hoje essas convenções são universais, mas são apenas convenções; não são inerentes à atividade de pesquisa per se.

Cientistas industriais já sabiam que compartilhar o conhecimento era útil (por que você acha que empresas concorrentes se aglomeram?), embora a lei antitruste possa forçá-los a serem discretos. Então em 1985, reportando sobre uma pesquisa com 100 empresas norte-americanas, Edwin Mansfield constatou que a “informação sobre a natureza detalhada da operação de um novo produto ou processo geralmente vaza dentro de um ano”. Na realidade, não é muito divulgada como uma negociação: em uma pesquisa de onze empresas siderúrgicas americanas, Eric von Hippel da Sloan School of Management do MIT descobriram que dez deles trocavam regularmente informações exclusivas com os rivais. Em uma pesquisa internacional de 102 empresas, Thomas Allen (também da Sloan) constatou que nada menos do que 23% das suas inovações importantes vieram de troca de informações com os rivais. Ciência industrial é na prática um processo coletivo de conhecimento compartilhado.

E a afirmação de Adam Smith de que a ciência acadêmica é apenas um contribuinte trivial para a nova tecnologia foi apesar de tudo confirmada. Em dois artigos publicados em 1991 e 1998, Mansfield demonstrou que uma enorme fonte de novas tecnologias eram os próprios P&D das companhias, e que a pesquisa acadêmica representava apenas 5% das novas vendas empresariais e apenas 2% das economias poderiam ser atribuídas a novos processos. Enquanto isso, estudos contemporâneos confirmam que há um grande fluxo de conhecimento da indústria para a ciência acadêmica: sem dúvida, já que ela nunca foi real, a distinção entre ciência pura e aplicada é agora largamente extinta, e o assim chamado “modelo linear” de Bacon (pelo qual a ciência industrial se alimenta de ciência da universidade) está sendo desacreditado por economistas e historiadores da ciência.

Outra coisa que teria surpreendido Smith sobre o conhecimento atual é a obsessão dos economistas pelo monopólio. Os economistas dizem que a menos que um inovador possa reivindicar, eternamente, 100% do retorno comercial de sua inovação, ele vai investir menos na mesma. Mas essa alegação é uma perversão inata da modelagem matemática moderna dos chamados mercados “perfeitos”, os quais são ficções teóricas que não tem qualquer relação com a realidade econômica. De fato, os empresários fazem os seus investimentos à luz da competição, e seus objetivos são uma vantagem atual sobre seus rivais, não um sonho abstrato do monopólio imortal nos fictícios mercados “perfeitos”.

O argumento mais forte para o financiamento do governo da ciência hoje é humorístico: será que temos a internet, por exemplo, ou o Bóson de Higgs, só por causa do financiamento público? No entanto o humor ignora a substituição predatória. Nós não teríamos a geração da eletricidade se não fosse o financiamento privado de Michael Faraday, e se o financiamento estatal substituísse o financiamento filantrópico e privado da ciência (e isso acontece, porque o financiamento da ciência pura é determinado principalmente pelo PIB per capita, independentemente da generosidade do governo) e depois os avanços que nós perderíamos graças ao financiamento estatal, precisaríamos de um psicógrafo, um ser onisciente, porque não podemos saber quais desses avanços foram perdidos, só para escrevê-los no lado deficitário do balanço patrimonial. Que também é o lugar onde os custos de oportunidade devem ser escritos: mesmo que o financiamento público da ciência produza algum benefício, se o benefício para a sociedade deixando esse dinheiro nos bolsos do contribuinte for maior, então o saldo líquido para a sociedade é negativo.

Como o mundo pareceria se os governos não financiassem a ciência? Seria algo como o Reino Unido ou os Estados Unidos fizeram quando esses países eram indiscutíveis superpotências dos seus dias. A maioria das pesquisas seriam concentradas na indústria (a partir da qual um fluxo constante de avanços na ciência pura emergiria), mas também haveria um arsenal privado de filantropos financiadores de universidades e de fundações de ciência, pelo qual a pesquisa pura e não lucrativa (inclusive sobre doenças órfãs) seriam financiadas.

E esse tal laissez faire científico seria ainda mais útil do que é hoje. Considere a própria disciplina de economia da ciência. O importante fator comum entre Solow, Nelson e Arrow — pais da moderna economia da ciência — é que todos os três foram associados com a RAND Corporation, que foi a panelinha do complexo militar-industrial de Eisenhower. A RAND (i.e., a Corporação P&D) foi criada em 1946 pela Força Aérea dos EUA em associação com a Douglas Aircraft Company, como um think tank para justificar o financiamento governamental de defesa e pesquisa estratégica.

O ímpeto inicial da RAND veio, em 1945, do livro Science, The Endless Frontier, escrito por Vannevar Bush, o presidente do Escritório de Pesquisa e Desenvolvimento Científico do governo federal norte-americano. George Bush sustentou a visão baconiana de que o governo (que tinha jorrado dinheiro em fundos de P&D durante a guerra) deveria continuar fazendo isso em paz. Bush é claro que teve muito motivos pessoais fortes para argumentar, mas era da Guerra Fria e da iminente corrida espacial (Sputnik foi lançado em 1958) que — incrivelmente — convenceu economistas de que a base industrial de financiamento público da URSS iria ultrapassar os Estados Unidos, a menos que os Estados Unidos daí em diante desvinculasse o livre-mercado da pesquisa.

Foi tudo um absurdo é claro — Sputnik foi baseado na pesquisa de Robert 'Moonie' Goddard da Clark College, Massachusetts, que foi apoiado por Guggenheims — mas quando a RAND patrocina o absurdo complexo militar-industrial, tal absurdo tem lógica. É por isso que a potencialmente útil e confiável economia da ciência (uma com base no estudo de retornos melhores para os empresários em um mercado real, competitivo) foi abandonada por uma baseada em subsídios públicos e em fictícios mercados "perfeitos".

Cui bono [9]? Quem se beneficia desta fictícia economia da ciência? São economistas, universidades e empreiteiras que se beneficiam às custas dos contribuintes.

O poder das ideias ruins é extraordinário. John Maynard Keynes escreveu uma vez que os homens práticos geralmente são escravos de algum economista defunto, e os economistas não tem mais cara de defunto que o Francis Bacon. Sua lugubridade mais recente veio em 2000, na biografia de Sir Peter Russell sobre o Infante D. Henrique, onde Russell mostra que a Península Ibérica na época das grandes viagens de descobrimento não era um centro de pesquisa, apenas propaganda alegando levianamente ser um centro de pesquisa, o que acabou enganando Bacon. Seja lá quantas vezes Bacon vire defunto, algum grupo poderoso vai surgir para ressuscitar sua falsa — e superficialmente atraente — ideia de que a ciência é um bem público. Infelizmente muitas pessoas tem interesse nessa concepção da ciência.

Eu espero que este pequeno ensaio seja mais uma estaca no coração da ideia, contudo continuo temendo que esse vampiro peculiar continue perseguindo qualquer coisa que cheire a dinheiro por mais quatro séculos adiante.

 

[1] A frase foi adaptada do trecho original “There is only one, small, itsy bitsy teeny weeny problem with it”, uma referência a famosa música “Itsy Bitsy Teenie Weenie Yellow Polka Dot Bikini”.

[2] A definição de Bem Público circula os conceitos de bem não-rival, que é a capacidade de poder ser consumido por vários sem prejuízo das partes, e não-exclusivo, que a impossibilidade da exclusão de um consumidor específico. Um brilhante paper de Ronald H. Coase, denominado “The Lighthouse in Economics”, desafiou as dimensões e o próprio conceito de Bem Público.

[3] O termo “aprofundamento do capital” condiz, em uma economia, com um aumento da quantidade de capital por trabalhador. O termo foi bastante utilizado nos trabalhos de Robert Solow.

[4] A definição de Ciência Pura ou Básica é atribuída ao exercício predominantemente teórico e abstrato do método científico, o que visa o entendimento de princípios fundamentais.

[5] Parti Pris é um termo francês que pode significar “grande ideia”.

[6] O termo “crowding out” é amplamente utilizado nas ciências econômicas, sendo relacionado a diminuição do investimento privado quando há um aumento dos gastos públicos. Em tradução livre pode ser transcrito como “substituição predatória”.

[7] A expressão in toto deriva do latim e significa “na totalidade” ou “inteiramente”.

[8] A expressão latina quid pro quo significa “tomar um pelo outro”.

[9] O adágio latino Cui Bono em tradução livre significa “quem ganha?”.

***

Tradução por Lucas Nutels. Revisão por Adriel Santos Santana


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