mais de 300 reais

 

Em qualquer lugar que você olhe no espectro de comentaristas da direita, você verá o tema recorrente da “classe mais baixa” como sendo formada por parasitas. Sua mais recente aparição foi no meme dos 53% contribuintes, pagadores de impostos produtivos vs. os 47% de consumidores de impostos. E é claro, há também aquela perene citação mítica preferida, atribuída a Alexander Tytler, lembrada por muitos daqueles que deveriam pensar duas vezes, sobre a maioria descobrindo que pode votar de forma a se beneficiar do tesouro público. (Se você acredita mesmo que a maioria controla o governo, ou que o governo serve aos interesses da maioria, você deveria repensar sua posição).

Mas encontra-se aqui, principalmente, um suprimento sem fim de ressentimento contra as “rainhas do auxílio governamental , e muito “disse me disse” sobre os gostos extravagantes daqueles que usam vale-alimentação na fila do caixa, cujo efeito cumulativo é reforçar para as classes médias que os seus reais inimigos serão encontrados ao olhar para baixo, não para cima.

Se seu ressentimento é direcionado para baixo, contra a “classe baixa” e aqueles que recebem a “assistência para os pobres”, definitivamente é muito mal direcionado.

=Primeiro, vamos considerar os aspectos de menor importância, e considerar os efeitos líquidos da política de Estado sobre aqueles que efetivamente recebem o bem-estar. Considere como as políticas de Estado em favor dos proprietários de terra e investidores imobiliários, como a execução de títulos de propriedade sobre terras desocupadas e não produtivas em favor de senhorios ausentes, aumenta o preço aluguéis e impede o acesso ao alojamento barato. Considere como sistemas de licenciamento e leis contrárias aos micro-ônibus e vans, leis de zoneamento que proíbem atividade comercial em casa ou a atividade de ambulantes, e regulamentos que impõem despesas desnecessárias de capital e barreiras de entrada ou custos indiretos acabam com as oportunidades para o auto-emprego. E considere como as restrições de zoneamento sobre o uso misto e outras promoções do governo à dispersão (urbana) e à cultura do carro aumentam o custo básico de subsistência. Você pensa que gastar dinheiro com auxílios para os pobres equivale ao que é drenado de recursos dessa mesma classe mais pobre?

Em seguida, analise a panorama macro. Considere as rendas totais que são extraídas da sociedade como um todo pelas classes econômicas dominantes: a inflação do aluguel de terras e de hipotecas, pelos já mencionados títulos para senhorios ausentes sobre terras não produtivas e ocupadas; as taxas usurárias de juros resultantes das leis de curso forçado e restrições sobre a competição na oferta de crédito; as enormes margens de lucro em proporção ao custo real de produção que resulta de copyrights, patentes e marcas; a margem de lucro oligopólica (uma vez estimadas, pelo Nader Group, como ao redor de 20% sobre o preço de varejo em indústrias dominadas por um pequeno grupo de empresas) em indústrias cartelizadas pelas regulações do governo e barreiras de entrada...

Agora considere, fora desse vasto oceano de rendas extraídas pelos parasitas conectados ao Estado, a minúscula fração que volta para os mais destituídos entre os próprios destituídos, na forma de assistencialismo e vale-alimentação em quantidades escassas, mas volumosas o suficiente para evitar a falta de moradia e a fome alcancem níveis altos o suficiente para desestabilizar o sistema político e ameaçar a habilidade das classes dominantes para extrair rendas de todos nós. Proprietários de terras, corporativistas e pessoas que vivem de rendas diversas roubam-nos livremente, e então o Estado – o Estado deles – usa uma colher de chá para aliviar aqueles que são mais prejudicados.

Ao longo de toda a história, o Estado tem provido uma esmola para os mais pobres entre os pobres – a distribuição de óleo e grão gratuitos para o proletariado de Roma, as Leis dos Pobres na Inglaterra, AFDC (Aid to Families with Dependent Children) e TANF (Temporary Assistance for Needy Families) desde os anos 60 – e ela tem ocorrido em contraposição a um pano de fundo de roubo em larga escala dos pobres pelos ricos. O proletariado romano recebeu uma esmola para evitar uma revolta sangrenta, logo após as terras comuns da República terem sido absorvidas pela nobreza e transformadas em fazendas de escravos. As Leis dos Pobres na Inglaterra foram estabelecidas depois que as classes abastadas fecharam a maioria dos campos abertos para pasto de ovelhas. Os negros americanos urbanos que receberam AFDC nos anos 60 foram arrendatários sulistas, ou seus filhos, que foram expulsos por causa de suas terras como consequência dos tratores subsidiados governamentalmente (ou da terra que poderia ter sido deles, se eles tivessem recebido a terra que era legitimamente sua após a Emancipação) após a Segunda Guerra Mundial.

Como Frances Fox Píven e Andrew Cloward argumentaram em “Regulando os Pobres”, o Estado – que é em grande medida controlado e principalmente serve aos interesses das classes abastadas – somente dá passos para prover bem-estar para os pobres quando é necessário como forma de evitar a desestabilização social. Quando ele o faz, é comum que providencie apenas o mínimo necessário. E, nesse processo, ele usa o poder conferido pela distribuição de assistência pública para exercer um máximo de disciplina social sobre os assistidos (como qualquer um que já lidou com a humilhação de uma Secretária de Assistência Social ou uma visita do assistente social, pode testemunhar).

Então não se ressinta com o povo que recebe auxílios de bem-estar e vales alimentação. Seus inimigos reais, aqueles a quem o Estado realmente serve, estão acima, não abaixo.

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Tradução de Valdenor Junior. Revisão de Matheus Pacini. 


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