liberal conservador

 

Se o liberalismo “clássico” é uma filosofia política da qual decorrem proposições tais quais a defesa da propriedade privada, a oposição ao imposto, e a regulação das empresas através de alternativas de mercado ao invés da intervenção ex-supra do Estado; é também uma filosofia que defende idéias como a livre circulação dos homens, o livre mercado, a liberdade de expressão, a liberdade religiosa, a pluralidade e a diversidade, a responsabilidade diante dos atos, a paz e a democracia – em seu sentido de respeito aos direitos individuais e limitação do poder político. Alguns subconjuntos compostos destas idéias são defendidos por diferentes grupos políticos: podemos encontrar alguns destes elementos representados sobre todo o espectro político tradicional. Em revanche nenhum partido político, e nenhuma “posição” situada sobre o eixo do espectro político tradicional, representa um programa inteira e verdadeiramente liberal. É por isso, em partes, que é impossível responder precisamente à questão: “o liberalismo é de esquerda ou de direita?”

O conservadorismo [1] defende idéias como a estabilidade de valores considerados (erroneamente ou com razão) tradicionais, um certo entusiasmo cultural e religioso acompanhado de um franco-nacionalismo; idéias defendidas na França principalmente pela extrema direita. Geralmente a maneira como é casado o liberalismo com o conservadorismo pode variar. Muitas vezes o liberalismo é limitado a uma doutrina econômica, preenchendo-se então as casas restantes (filosofia, moral, política etc.) com o conservadorismo. Outras vezes, não se faz outra coisa além de parasitar o nome liberal para se apropriar de alguma legitimidade intelectual.

Se cada vez mais pessoas se definem como “liberais-conservadores”, a grande maioria na verdade são conservadores que foram esclarecidos sobre a total ausência de uma doutrina econômica “de direita”, ou que foram seduzidos pela coerência e justiça do liberalismo econômico sem portanto aceitar completamente as implicações que vão além das questões puramente econômicas. É assim que vemos grande número de autoproclamados “liberais” defender idéias indo de encontro ao livre-comércio, contra a imigração, contra a pluralidade e a diversidade de pontos de vista e estilos de vida ou, frequentemente, fazendo coro de teses no limite (ou além) do racismo. Ou seja, um grande número de pontos de vista e idéias que não têm estritamente nada a ver com o liberalismo. O que resta do liberalismo em “liberal-conservador” ou “conservador-liberal” não é perfeitamente claro. Do ponto de vista liberal, os “liberais-conservadores” teriam provavelmente melhor feito de encontrar um termo equivalente ao fiscally conservative dos americanos, que significa ser mais ou menos favorável ao mercado ou, ao menos, oposto à fiscalidade excessiva.

Um “liberal conservador” militando contra o casamento para todos

Um “liberal conservador” militando contra o casamento para todos

Por que então esta fixação pelo termo liberal? Em parte por parasitismo intelectual; o liberalismo goza de uma legitimidade intelectual e humana reconhecida e aclamada, a tal ponto que mesmo os comunistas contemporâneos não podem abertamente pretender ser contrários aos direitos individuais, sob pena de se fazer descredibilizar completamente. De fato, quem poderia em pleno século XXI se dizer contra a liberdade? Reclamar-se de uma filosofia coerente e completa é uma astúcia inegável para quem tem uma visão de sociedade que seria de outro modo inconfessável e indefensável. É o equivalente à expressão “eu não sou racista mas” que precede uma proposição racista. O termo liberal vem “des-radicalizar” o termo conservador sem constranger o conservador ao que quer que seja. E isto, ironicamente, mesmo se o termo liberal veicula também, por erro, uma consoante extremista na França.

Uma outra explicação poderia ser que “doutrinas marginais atraem marginais”. O fato que o liberalismo seja constantemente difamado, caricaturado e caluniado faz dele um pensamento marginal, francamente incompatível com a visão dominante no que toca o funcionamento do Estado e da sociedade. A idéia então é que as pessoas elas mesmas “marginais”, no sentido de não estarem de acordo com estas hegemonia intelectual, estão naturalmente pré-dispostas a serem atraídas na direção de doutrinas que contradigam a hegemonia intelectual. Em revanche, seria falso dizer que os liberais sejam sistematicamente uns “marginais”, a característica que parece dominar entre eles é esta de estarem seduzidos pela coerência, humanismo e a justiça que propõe o liberalismo.

Uma terceira explicação é simplesmente que os liberais explicam mal suas idéias. Talvez eles insistiram demasiadamente na análise econômica, talvez eles não tenham tido tempo ou capacidade de ir aos fundamentos éticos do liberalismo. Talvez seja difícil ou impossível comunicar os fundamentos éticos mais profundos do liberalismo e fazer isso de maneira acessível e interessante, ao mesmo tempo. Isto levanta uma questão procurando saber se o liberalismo é uma filosofia demasiadamente intelectual justamente lá onde muitas outras correntes políticas cedem mais facilmente às emoções e ao populismo.

Se alguns “verdadeiros” liberais versados na ação política (e resta provar que eles são verdadeiramente liberais na ação política) desejem colaborar sobre certos dossiês com alguns dos elementos mais frequentáveis da direita (assim como eles poderiam querer colaborar com os elementos mais frequentáveis da esquerda), eles fariam bem em reconhecer as incoerências e as incompatibilidades que existem entre estas tradições intelectuais. Negligenciar uma riqueza de vários séculos de pensamento liberal enfraqueceria nossa legitimidade e nossa coerência intelectual, nos marginalizaria, e entreteria idéias ruins que circulariam a propósito do liberalismo.

[1] O artigo trata do “conservadorismo” tal qual ele é defendido e reivindicado na França, e não tal qual podemos compreender em sua acepção filosófica, notadamente, originárias dos autores anglosaxões.

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Tradução de Mateus Bernadino. 

 


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