Por que os intelectuais gostam do governo?

 

De volta aos anos 80, o já falecido filósofo Robert Nozick escreveu um ensaio perguntando: “Por que os intelectuais se opõem ao capitalismo?”.  Felizmente, a questão como foi formulada por  Nozick é menos relevante hoje, uma vez que os intelectuais do Ocidente tem cada vez mais aceito a superioridade de alguma forma de economia de mercado em relação ao planejamento socialista em seu completo desenvolvimento. Mas uma variante permanece: Por que intelectuais parecem tão desproporcionalmente atraídos por visões políticas “progressistas” e medidas propostas pelo governo para remediar os males sociais?

Para aqueles de nós que tendem a favorecer um governo relativamente pequeno e limitado, e preferem que problemas sociais sejam abordados por meio de mecanismos privados e voluntários, pode ser fonte de algum desconforto que essas visões encontrem tão pouco apoio entre alguns dos setores mais altamente educados e inteligentes da população – as “elites” da popular demonologia conservadora. Uma explicação simples para esse padrão, afinal, seria que visões políticas de esquerda são desproporcionalmente atrativas para pessoas muito inteligentes e educadas, porque elas estão mais bem apoiadas por lógica e evidência. Seguindo o Teorema do Acordo de Aumann, isso implicaria que libertários poderiam levar em conta o desacordo de um grande número de pessoas bem informadas, que são pelo menos tão inteligentes como nós, como uma evidência prima facie de que nossas visões estão erradas, e que devem ser revisadas

Nozick especula que intelectuais capacitados crescem acostumados a obter os mais altos louvores nos ambientes acadêmicos em seus anos de formação, e que isso os torna hostis em face da distribuição de ganhos em uma economia de mercado, que podem ser acumulados diretamente por aqueles com educação, mas não estão necessariamente correlacionados com o tipo de inteligência verbal que obtêm os mais altos prêmios acadêmicos. Colocado de forma simples: O professor ou escritor da classe média tenderá a sentir-se traído por um sistema que reserva maiores recompensas para aqueles que são lembrados como inferiores academicamente. Não obstante o quão plausível ou implausível se encontre a explicação de Nozick no que se refere à escolha entre capitalismo e socialismo, ela parece menos satisfatória como uma explicação para a preferência por governo crescente dentro do arcabouço de mercado – mesmo se algo como isso pudesse contribuir para o sentimento de que os mais ricos não merecem  realmente suas posses.

Uma coisa para ter em mente é que mesmo pessoas informadas e inteligentes não chegam normalmente as suas visões políticas por meio de uma revisão profunda da evidência em cada área política específica. Muitos de nós somente podem ser realmente experts em uma ou duas esferas, e em outras devemos confiar majoritariamente naqueles que possuem maior “expertise” e parecem compartilhar nossos valores básicos. Na prática, muitas pessoas selecionam uma “cesta” de visões políticas na forma de uma ideologia política abrangente – que frequentemente corresponde a escolher uma comunidade política cujos membros pareçam pessoas decentes que saibam sobre o que estão falando. Então, nós não precisamos assumir que a visão majoritária da classe intelectual representa o resultado de uma série de julgamentos inteiramente independentes: um viés relativamente moderado em uma direção ou outra dentro da comunidade relevante poderia facilmente resultar em uma cascata de informação que gera muito maior adoção social das visões favorecidas. Assim, quaisquer fatores potenciais de viés que nós consideramos não necessitam ser tão dramáticos quanto a distribuição definitiva de opinião: seja qual for a rede inicial de viés que possa existir, é provável que seja magnificada por um efeito popular. Nós poderíamos também ter em mente que pesquisas de faculdades acadêmicas frequentemente limitam as opções em “liberal” e “conservador” – e parece plausível que respostas aqui refletem a rejeição das visões conservadoras sobre questões sociais, onde esquerdistas e libertários estão geralmente de acordo – embora não seja tão simples assim.

Aqui, então, está uma fonte alternativa (enquanto talvez relacionada) de viés potencial. Se as melhores soluções para os problemas sociais são geralmente governamentais ou políticas, então em uma sociedade democrática, fazer o trabalho de um intelectual bom com as palavras é uma maneira de contribuir essencialmente para a abordagem daqueles problemas. Se as melhores soluções são geralmente privadas, então isso é verdadeiro em uma medida muito menor: as maneiras mais importantes de se cumprir um dever cívico, nesse caso, são mais prováveis de englobar formas mais diretas de participação, como doar dinheiro, voluntariado, trabalhar com inovações tecnológicas ou médicas que melhorem a qualidade de vida, e vários tipos de atividade empresarial socialmente consciente.

Você deve, portanto, esperar um natural efeito de seleção: Aqueles que se sentem de forma decisiva moralmente motivados a contribuir para a diminuição dos males sociais naturalmente gravitarão em direção a carreiras que reflitam sua visão sobre como isso é mais bem alcançado. A escolha de uma carreira como um intelectual bom com as palavras pode, em si mesmo, ser o resultado de uma crença prévia de que problemas sociais são mais bem abordados por meio de mecanismos que são mais dependentes de argumento, persuasão e advocacia pública – isto é, mecanismos políticos.

Entretanto, parece igualmente possível que um desejo post hoc de justificar a escolha de tal carreira possa ter um papel enviesador. Uma pessoa sem gostos materiais extravagantes pode viver de forma bastante confortável como um acadêmico ou escritor, e o trabalho por si só é muito interessante e intrinsecamente atraente. Mas empregos intelectuais desse tipo tendem a não deixar alguém com recursos para devotar grandes quantias de dinheiro para causas beneficentes sem reduzir significativamente o consumo de pequenos luxos: comer fora, shows, eletrônicos, viagens de férias, cursos para crianças, etc.

Se o mundo é principalmente melhorado por meio da iniciativa privada, então o percurso mais correto moralmente disponível para uma pessoa altamente inteligente de gostos materiais moderados seria seguir uma carreira bem menos interessante por si mesma em negócios ou finanças, viver um estilo de vida de classe média, e devotar sua riqueza para várias causas boas. Nesse cenário, no final das contas, o intelectual que pudesse contribuir com milhões para caridade tal como um financista ou um advogado de alto nível, mas que preferisse ter sua remuneração na forma de tempo de leitura e de trabalho interessante, não é, obviamente, melhor do ponto de vista moral que o advogado ou financista real que usa sua remuneração monetária para comprar prazeres materiais. Ambos estão negando sacrificar satisfação pessoal em prol de ajudar aos outros – apenas um tem escolhido uma forma de remuneração que não é facilmente tributada e redistribuída. Se esforços privados são ineficazes ou relativamente desimportantes em comparação com ação política, entretanto, o intelectual pode ter certeza que ele está satisfazendo suas obrigações morais ao pagar impostos e escrever persuasivamente em apoio aos remédios políticos apropriados.

Essa abordagem parece consistente com a retórica política atual, na qual visões políticas progressistas são levadas em conta para significar compaixão e preocupação por aqueles que são desfavorecidos, enquanto visões conservadoras ou libertárias (progressistas frequentemente dizem) são evidência de insensibilidade ou egoísmo. Como Jason Brennan observou em um post recente no blog Bleeding Heart Libertarians, há algo de estranho sobre usar visões políticas como parâmetro para medir compaixão ou altruísmo. Afinal de contas, falar é muito barato: não custa nada expressar apoio verbal a uma política ou candidato. Pode-se pensar que uma melhor política seria algum indício de compaixão que envolve uma quantidade módica de sacrifício – doações beneficentes ou horas de voluntariado – e por essas medidas, Brennan considera que a evidência é a de que progressistas não se saem muito melhor do que quaisquer outras pessoas.  Mas, se você assume que mecanismos políticos são muito superiores aos privados, então escrever posts em um blog e “op-eds” apoiando políticas progressistas (em contraposição a dar largas somas para caridade ou trabalhar em uma cozinha pública) pode ser uma maneira moralmente mais relevante de expressar compaixão.

De fato, muitos intelectuais em toda a escala ideológica também doam para caridade ou fazem voluntariado, e falta a alguns o temperamento que poderia fazer o trabalho corporativo altamente bem remunerado uma alternativa realista. E se pode contar facilmente uma história complementar que explica o porquê homens de negócios serem dispostos a acreditar (seja por causa de efeitos de seleção ou de racionalização post hoc) que contribuir para o crescimento econômico privado é a melhor maneira de melhorar o mundo.

Entretanto, combinada com o efeito cascata de informação social, essa abordagem provê uma razão pela qual nós esperaríamos que intelectuais bons com palavras favoreçam visões progressistas (intervencionistas), independentemente se essas visões sejam as melhores apoiadas por argumentos: é sobre essas visões que – por se engajar em atividade intelectual, e votar e defender as políticas apropriadas) – intelectuais já estão encontrando, da melhor forma, sua obrigação moral para ajudar a fazer o mundo um lugar melhor, mesmo se outras escolhas de carreira pudessem capacitá-los a fazer contribuições materiais, muito mais diretas. Essa linha de raciocínio não é uma excusa para os libertários se tornarem levianamente complacentes em suas visões, ou substituir respostas substantivas para argumentos progressistas específicos por respostas psicanalíticas. Mas é, talvez, razão para estar menos preocupado que a predominância de visões progressistas entre os intelectuais seja, por si só, necessariamente uma forte evidência contra a posição libertária.

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Tradulçao de Valdenor Júnior. Revisão de Matheus Pacini. 

 

 


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