Edward Snowden

 

O jornal The Guardian, após vários dias de entrevistas, está revelando sua identidade a seu pedido. Desde o momento que decidiu divulgar vários documentos ultra-secretos para o público, ele esteve determinado a não optar pela proteção do anonimato. “Eu não tenho intenção de esconder quem sou porque sei que não fiz nada de errado”, diz.

Snowden ficará na história como um dos informantes mais marcante dos EUA, juntamente com Daniel Ellsberg e Bradley Manning*. Ele é responsável por entregar material de uma das organizações mais secretas do mundo – a NSA. [Nota do Tradutor: Daniel Ellsberg foi o responsável pela revelação de documentos secretos do Pentágono em relação a Guerra do Vietnã, enquanto Bradley foi o informante do caso Wikileaks]

Numa nota acompanhando a primeira série de documentos que forneceu ao jornal, ele escreveu: “Eu entendo que me farão sofrer pelas minhas ações”, mas “eu estarei satisfeito se esse conjunto de leis secretas, anistias desiguais e poderes executivos imponentes que governam o mundo que eu admiro forem revelados ao menos por um instante”.

Apesar da sua decisão de ter sua identidade revelada, ele insiste que deseja evitar a atenção da mídia. “Eu não quero atenção pública porque eu não quero que a história seja sobre mim. Eu quero que seja sobre o que o governo dos EUA está fazendo”.

Ele não tem medo das consequências de ir à público, ele disse, somente que ao fazer isso desviará a atenção das questões levantadas por suas revelações. “Eu sei que a mídia gosta de personalizar debates políticos, e eu sei que o governo vai me demonizar”.

Apesar desses medos, ele se mantém esperançoso de que a revelação de sua identidade não desviará a atenção sobre a essência dos documentos revelados. “Eu realmente quero que o foco fique nesses documentos e no debate que espero que ocorra entre os cidadãos ao redor do mundo sobre qual tipo de mundo nós queremos viver”. Ele acrescenta: “Meu único motivo é informar o público sobre isso que é feito em seu nome e que, na verdade, é feito contra ele”.

Ele tinha uma “vida bastante confortável” que incluía um salário de aproximadamente 200.000 dólares, uma namorada com quem dividia uma casa no Havaí, uma carreira estável e uma família que ele ama. “Estou disposto a sacrificar tudo porque eu não posso ficar com a consciência tranquila com o governo dos EUA destruindo a privacidade, a liberdade de internet e as liberdades básicas das pessoas ao redor do mundo com uma máquina de vigilância gigantesca que estão secretamente criando”.

‘Eu não tenho medo, porque essa é a escolha que fiz’.

Três semanas atrás, Snowden fez as preparações finais que resultaram nas histórias bombásticas da última semana. No escritório da NSA no Havaí no qual trabalhava, ele copiava a última série de documentos que pretendia revelar.

Ele então avisou seu supervisor da NSA que precisava se afastar do trabalho por “algumas semanas” para receber tratamento para epilepsia, que foi descoberta após uma série de convulsões ano passado.

À medida que fazia sua mala, disse para sua namorada que tinha que viajar por algumas semanas, apesar de dizer que foi vago sobre a razão. “Esse não é um acontecimento anormal para alguém que passou a última década trabalhando no mundo da inteligência”.

No dia 20 de Maio, embarcou num voo para Hong Kong, onde se mantém desde então. Ele escolheu a cidade porque “ela tem um compromisso vivaz de livre expressão e o direito de dissidência política”, e porque acredita que era um dos poucos lugares no mundo que poderia e iria resistir aos ditames do governo dos EUA.

Nas três semanas desde que chegou, ele tem se abrigado em um quarto de hotel. “Eu deixei o quarto, no máximo, três vezes durante minha estada”, diz. É um hotel luxuoso e, porque tem suas refeições no quarto, está pagando caro.

Ele está verdadeiramente preocupado em ser espionado. Ele cobre a porta de seu quarto de hotel com travesseiros para evitar escutas. Ele coloca uma grande touca vermelha em sua cabeça e sobre o laptop quando digita suas senhas para evitar que qualquer câmera escondida o detecte.

Embora isso pareça paranoia para alguns, Snowden tem boas razões para ter tais medos. Ele trabalhou no mundo da inteligência dos EUA por quase uma década. Ele sabe que a maior e mais secreta organização de vigilância dos EUA, a NSA, juntamente com o governo mais poderoso do planeta, estão atrás dele.

Desde que as revelações começaram a sair na mídia, ele vê televisão e monitora a internet, ouvindo todas as ameaças e juras de acusação vindas de Washington.

E ele conhece como ninguém a tecnologia sofisticada disponível para o governo e a NSA e como seria fácil achá-lo. A equipe da NSA assim como outros oficiais da lei visitaram duas vezes sua casa no Havaí e já entraram em contato com sua namorada, embora ele acredite que a visita talvez tenha sido causada por sua ausência no trabalho, e não por causa de nenhuma suspeita de conexão com os vazamentos.

“Todas as minhas opções são ruins”, diz. Os EUA podem iniciar um procedimento de extradição contra ele, um caminho potencialmente problemático, lento e imprevisível para Washington. Ou o governo chinês pode o chamar para interrogatório, vendo-o como uma fonte importante de informação. Ou ele pode acabar sendo agarrado e mandado às pressas em um avião direto para território americano.

“Sim, eu posso ser processado pela CIA. Pessoas podem estar atrás de mim. Ou por qualquer uma das empresas terceirizadas. Eles trabalham em conjunto com várias outras nações. Ou eles podem pagar os Triads. Qualquer um de seus representantes ou truques”, ele diz.

“Temos uma estação da CIA logo ao atravessar a rua – o consulado de Hong Kong – e eu tenho certeza que eles estarão ocupados pela próxima semana. E essa é uma preocupação que eu terei pelo resto da minha vida, independente do que aconteça”.

Tendo ouvido a administração Obama processar informantes em um nível historicamente sem precedentes, ele espera que o governo dos EUA tente usar todo o seu peso para puní-lo. “Não tenho medo”, diz calmamente, “porque essa foi a escolha que eu fiz”.

Ele prevê que o governo lançará uma investigação e “dirá que eu quebrei o Espionage Act e ajudei nossos inimigos, mas isso pode ser usado contra qualquer um que ressalte o quão massivo e invasivo o sistema se tornou”.

A única vez que ele ficou emocionado durante as muitas horas de entrevistas foi quando refletiu sobre o impacto que suas escolhas teriam em sua família, muitos dos quais trabalham para o governo dos EUA. “A única coisa que eu temo são os efeitos danosos a minha família, que eu não serei mais capaz de ajudar. Isso que me tira o sono”, diz, com os olhos cheios de lágrimas.

‘Você não pode esperar por alguém para agir’

Snowden nem sempre acreditou que o governo dos EUA era uma ameaça a seus valores políticos. Ele cresceu em Elizabeth City, na Carolina do Norte. Sua família posteriormente se mudou para Maryland, perto dos quartéis da NSA em Fort Meade.

Ele mesmo confessa que não era um estudante extraordinário. Para conseguir as notas necessárias para obter o diploma do colégio, participou de um colégio comunitário em Maryland, estudando computação, mas nunca completou suas aulas (mais tarde ele obteve seu diploma de ensino médio).

Em 2003, ele se alistou no exército americano e começou um programa de treinamento para integrar as Forças Especiais. Invocando os mesmos princípios que agora cita para justificar seus vazamentos, diz: “Eu queria lutar na Guerra do Iraque porque eu sentia que tinha uma obrigação como ser humano de ajudar as pessoas a ficarem livres da opressão”.

Ele contou como suas crenças sobre o objetivo da guerra foram rapidamente dissipadas. “A maioria das pessoas que nos treinava parecia obcecada em matar árabes, e não em ajudar as pessoas”, diz. Depois de quebrar suas pernas em um acidente em um treinamento, ele foi dispensado.

Depois disso, ele teve seu primeiro emprego na NSA, trabalhando como guarda de segurança para uma das instalações secretas da agência na Universidade de Maryland. De lá, foi para a CIA, onde trabalhou em segurança de TI. Seu entendimento de internet e seu talento para programação permitiu-lhe crescer rapidamente para alguém que não tinha nem um diploma de colégio.

Em 2007, a CIA o colocou em uma suposta missão diplomática em Geneva, Suíça. Sua responsabilidade de manter a rede de computadores significava ter acesso facilitado a uma grande classe de documentos secretos.

Esse acesso, juntamente com os quase três anos que passou nos escritórios da CIA, o levou a questionar seriamente se era certo o que via.

Ele descreve como exemplo um incidente em que ele alega que os agentes da CIA estavam tentando recrutar um banqueiro suiço para obter informações bancárias secretas. Snowden disse que eles conseguiram-nas deixando o banqueiro propositadamente bêbado e o encorajando a dirigir pra casa em seu carro. Quando o banqueiro foi preso por dirigir embriagado, o agente disfarçado buscando amizade se ofereceu para ajudar, e uma conexão foi formada que acabou com sucesso no recrutamento.

“Muito do que eu vi em Geneva realmente me desiludiu sobre como o meu governo funciona e qual o seu impacto no mundo”, ele diz. “Eu percebi que eu era parte de algo que fazia muito mais mal do que bem”.

Ele disse que foi durante sua passagem pela CIA em Geneva que pensou pela primeira vez em expor os segredos do governo. Mas, naquele tempo, escolheu não fazer por duas razões.

Primeiro, ele disse: “A maioria dos segredos que a CIA tinha era sobre pessoas, não máquinas e sistemas, então eu não me senti confortável com os vazamentos que eu pensava que podiam pôr alguém em perigo”. Em segundo lugar, a eleição de Barack Obama em 2008 deu-lhe esperança que reformas reais viriam, tornando os vazamentos desnecessários.

Ele deixou a CIA em 2009 com o intuito de conseguir seu primeiro emprego para uma empresa privada, que o permitiu acessar as instalações da NSA, posicionadas em uma base militar no Japão. Foi lá, ele diz, que “viu como o Obama expandiu as políticas que eu achava que iriam acabar”, e como resultado, “eu fiquei enfurecido”.

A principal lição de sua experiência foi que “você não pode esperar por alguém para agir. Eu tinha procurado por líderes, mas eu percebi que liderança tem a ver com ser o primeiro a agir”.

Durante os três anos seguintes, ele só aprendeu o quão profundas eram as atividades de vigilância da NSA, alegando “que eles pretendiam tornar toda conversa e todo tipo de comportamento no mundo parte do seu conhecimento”.

Ele descreveu como viu pela primeira vez a internet como “a mais importante invenção de toda a história da humanidade”. Quando adolescente, ele gastou dias “falando com pessoas de todos os tipos de visões que nunca poderia encontrar por conta própria”.

Mas ele acreditava que o valor da internet, juntamente com sua privacidade básica, está sendo destruída rapidamente pela vigilância onipresente. “Eu não me vejo como um herói”, disse, “porque o que eu estou fazendo é totalmente do meu interesse: eu não quero viver em um mundo em que não há privacidade e, portanto, sem lugar para exploração intelectual e criatividade”.

No momento que chegou a essa conclusão, que a rede de vigilância da NSA poderia logo se tornar irrevogável, ele disse que foi somente uma questão de tempo antes que escolhesse agir. “O que eles estão fazendo” apresenta “uma ameaça existencial à democracia”, diz.

Uma questão de princípios

Mesmo suas crenças sendo fortes, uma questão ainda permanece: por que ele fez isso? Abrir mão de sua liberdade e de seu estilo de vida privilegiado? “Há coisas mais importantes do que o dinheiro. Se eu estivesse motivado por dinheiro, eu poderia ter vendido esses documentos para vários países e ficado bem rico”.

Para ele, é uma questão de princípio. “O governo concedeu a si mesmo poder que não é seu por direito. Não há fiscalização do público. O resultado é que pessoas como eu tem a liberdade de ir além do que é permitido”, diz.

Seu compromisso com a liberdade de internet é refletido nos adesivos em seu laptop: “Eu apoio os direitos online: Electronic Frontier Foundation”, diz um dos adesivos. Outro adesivos saúdam a organização online que fornece anonimato, a Tor Project.

Perguntado por repórteres a respeito de sua autenticidade para garantir que não fosse um farsante, ele expôs, sem hesitação, seus detalhes pessoais, de seu número da previdência social a seu cartão de identidade da CIA e seu passaporte diplomático expirado. Não há inconsistências. Pergunte a ele sobre qualquer coisa de sua vida pessoal e ele irá responder.

Ele é quieto, esperto, calmo e modesto. Um mestre em computadores, parece mais feliz quando fala sobre o lado técnico da vigilância, em um nível de detalhe compreensível provavelmente a poucos especialistas. Mas ele mostra intensa paixão quando fala sobre o valor da privacidade e como sentia que ele estava sendo constantemente corroído pelo comportamento dos serviços de inteligência.

Seus modos eram calmos e relaxados mas ele tem tido compreensíveis tiques desde que começou a se esconder, esperando por uma batida na porta do hotel. Um alarme de incêndio dispara. “Isso nunca aconteceu antes”, diz, revelando ansiedade ao imaginar se era real, um teste ou uma manobra da CIA para levá-lo para a rua.

Espalhados sobre o lado de sua cama estão sua maleta, um prato com o resto de um café-da-manhã do serviço de quarto e uma cópia de Angler, a biografia do antigo vice-presidente Dick Cheney.

Desde a última semana em que novas histórias começaram a aparecer no jornal The Guardian, Snowden tem religiosamente assistido TV e lido na internet para ver os efeitos de sua escolha. Ele parece satisfeito vendo que o debate que almejava provocar finalmente acontecer.

Ele estava deitado, encostado contra os travesseiros, assistindo o jornalista da CNN, Wolf Blitzer, perguntar em uma mesa redonda sobre a intromissão do governo se alguém tinha ideia de quem era o informante. De 8000 milhas de distância, o informante olhou friamente, nem mesmo cedendo um sorriso irônico.

Snowden diz que admira Ellberg e Manning, mas argumenta que há uma diferença importante entre ele e Manning, que o julgamento coincidentemente começou na semana em que o vazamento de Snowden começou a virar notícia.

“Eu avaliei cuidadosamente cada documento que divulguei para garantir que cada um era legitimamente do interesse público”, diz. “Há vários tipos de documentos que poderiam ter tido um grande impacto que eu não revelei, porque prejudicar pessoas não é meu objetivo. Meu objetivo é a transparência”.

Ele propositadamente escolheu, diz, dar os documentos a jornalistas cujo julgamento ele confiava sobre o que deveria se tornar público e o que deveria manter-se oculto.

E sobre o seu futuro, ele é vago. Ele espera que a publicidade que o vazamento gerou ofereça alguma proteção, deixando “difícil o governo sujar as mãos”.

Ele vê como sua melhor esperança a possibilidade de asilo político, em que a Islândia – com sua reputação de uma campeã de liberdade na internet – está no topo da lista. Ele sabe que isso pode se provar um desejo não-realizado.

Mas depois dessa intensa controversa política que ele já criou com somente a primeira semana de histórias, “eu me sinto satisfeito que tudo isso tenha valido a pena. Eu não me arrependo”.


***

Tradução de Robson Silva. Revisão de Matheus Pacini.


Anarquia Cotidiana

Stefan Molyneux

Clique aqui para ler

As Engrenagens da Liberdade

David D. Friedman

Clique aqui para ler

Teoria do Caos

Robert P. Murphy

Clique aqui para ler

Vícios não são crimes

Lysander Spooner

Clique aqui para ler