Homem na seca


Em 1860, John Fiske, reconhecido filósofo, professor e crítico literário norte-americano escreveu um ensaio sobre A Fome de 1770 em Bengala - (The Unseen World and Other Essays. Boston: Houghton Mifflin, 1876), destacando que a principal razão para a severidade da fome foi uma lei existente proibindo toda a especulação relativa ao arroz. O que segue é um excerto daquele ensaio.


 

Esse desastroso fragmento da lei era devido à prevalência de um preconceito universal do qual as chamadas “comunidades iluminadas” não são ainda totalmente livres. É até hoje habitual abusar daquelas pessoas que, em uma época de escassez, quando os preços estão subindo rapidamente, compram “os produtos básicos para a vida”, por meio disso aumentando por um tempo o custo de vida. Tais pessoas são normalmente ofendidas com generalidades, implicando-as como inimigos da sociedade. Pessoas cujas únicas ideais são puramente “ideais morais”, tratam-nas como trapaceiros sem coração que enriquecem a custa de seus concidadãos. E é às vezes sugerido que tais “praticas” devem ser proibidas por lei.

Agora, está tão longe esse preconceito, antigo por sinal, de ser justificado pelos fatos, que, ao invés de ser um mal, a especulação sobre o pão e outros itens de primeira necessidade é uma das principais formas pelas quais, nos tempos atuais de países civilizados, uma real fome (escassez de alimentos) é praticamente impossível. Esse monopólio natural opera de duas maneiras. Em primeiro lugar, pelo aumento de preços, ela verifica o consumo, colocando a todos em estado de atenção até que os tempos de escassez cheguem ao fim, evitando, então, que a escassez se torne penúria. Em segundo lugar, pelo aumento de preços, ela estimula a importação daquelas localidades onde a abundância reina e os preços estão baixos. Assim, no longo prazo, ela colabora para equalizar a pressão dos tempos de escassez e diminuir aquelas oscilações extremas dos preços os quais interferem com o plano e saudável curso do comércio. Um governo que, em tempos de altos preços, busca controlar tal especulação, age tão sabiamente quanto o capitão de um navio naufragado que recusa a sua tripulação racionar o alimento.

A Captura de Antuérpia

O ponto decisivo da Revolução Holandesa, no que diz respeito às províncias que hoje constituem a Bélgica, foi o famoso cerco e captura da Antuérpia por Alexander Farnese, o Duque de Parma. O cerco durou muito tempo, e a resistência obstinada, e a cidade provavelmente não teria sido capturada se a fome não tivesse sido um fator em favor dos sitiadores. É interessante, portanto, inquirir quais os passos que as autoridades civis tomaram para evitar tal calamidade. Eles sabiam que o conflito à frente deles seria provavelmente de uma luta de vida ou morte pelo sul dos Países Baixos; eles sabiam que existia um risco de serem cercados de forma que a assistência externa seria impossível; eles sabiam que o seu inimigo era um dos mais astutos e invencível dos homens, de longe o maior general do século XVI.

Dessa forma, eles prosseguem a fazer somente o que nosso Congresso Republicano, sob tais circunstância, provavelmente teria feito, e somente o que o New York Tribune, se tivesse em operação naqueles dias, teria os aconselhado a fazer. Notando que vários especuladores estavam acumulando e amontoando provisões em antecipação aos tempos de preços altos, eles apressadamente decidiram, em primeiro lugar decidiram por um fim a tal “injustiça egoísta”. Aos seus olhos, a coisa correta a ser feito era tornar as coisas mais baratas. Eles, dessa maneira, fixaram um preço máximo muito baixo para tudo que poderia ser comido, e prescreveram penas severas para todos que tentassem receber mais do que a soma por lei decretada. Se um padeiro recusasse a vender seu pão por um preço o qual teria sido adequado somente em tempos de grande fartura, seu estabelecimento deveria ser invadido, e seus pães distribuídos à população. As consequências dessa medida foram duplamente imbecis.

Em primeiro lugar, a redução forçada dos preços evitou que qualquer farináceo ou outras provisões entrassem na cidade. Demorou muito tempo antes que Farnese sucedesse em bloquear o Scheldt, de forma a prevenir os barcos carregados com alimentos de chegar ao seu destino. Milho, trigo e outras carnes conservadas podiam ter sido fornecidas às pressas em toneladas para a cidade sitiada. Navios holandeses amigos, com mercadoria abundante, estavam esperando na foz do rio. Mas todos, sem nenhuma utilidade. Nenhum mercante iria expor seu valioso navio, repleto de carga, ao risco de ser afundado pela frota de Farnese, meramente para achar um mercado não melhor do que uma centena de outros os quais poderiam ser acessados sem nenhum risco. Não temos dúvidas que se os mercadores da Holanda tivessem seguido a máxima de “viver pelos outros”, eles teriam encarado a ruína e a destruição ao invés de ver seus vizinhos de Antuérpia escravos.

Não há dúvida que se eles pudessem ter atingido uma visão filosófica ampla dos interesses futuros da Holanda, eles teriam visto que a Antuérpia deveria ser salva, não importando se alguns deles fossem perder dinheiro com isso. Mas os homens ainda não se sacrificam por seus companheiros, nem como regra, veem além do momento presente e suas emergências. E o negócio do governo é legislar para homens como eles são, não como supostamente eles deveriam ser. Se as provisões tivessem gerado maiores preços na Antuérpia, eles teriam levado adiante de um jeito ou do outro. Da forma que ocorreu, pela sua própria estupidez, bloquearam-se muito mais efetivamente do que Farnese poderia ter projetado.

Em Segundo lugar, a redução forçada de preços evitou qualquer comportamento econômico (poupança) por parte dos cidadãos. Ninguém sentiu necessidade de economizar. Todo mundo comprou pão e comeu à vontade, como se o governo, assegurando a sua barateza, tivesse também assegurado a sua abundância. Então a cidade viveu alegre e em constante provocação aos seus atacantes, até que, de uma hora para outra, as provisões terminaram, e o governo teve de entrar em cena novamente para mitigar a revolta (miséria) por ele próprio gerada. Ele se autopromoveu a intendente (oficial do exército responsável por suprimentos), e distribuiu víveres em quantidades ridículas da mesma forma a ricos e pobres, com aquela rigorosa imparcialidade democrática peculiar aos tempos de perigo mortal. Mas isso serviu somente, como a maioria dos paliativos artificiais, para prolongar a miséria e o sofrimento. Na hora da rendição, nem uma fatia de pão podia ser obtida por amor ou dinheiro.

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Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro.



 

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