Ron Paul

 

Fusão. Parece uma coisa tão grande, a união de dois ou mais elementos diferentes dentro de um todo completo e harmonioso. Todavia, não deixe a palavra enganá-lo. Nos últimos anos, até mesmo décadas, de fusionismo entre libertários e conservadores tem sido qualquer coisa exceto isso. Essa fusão pode ser mais bem descrita como um acordo desigual, com conservadores no comando enquanto os libertários devem ficar quietos, passivos, apenas apoiando o que conservadores estão propondo no momento. O fato de que estamos tendo essa discussão mostra o quanto o libertarianismo evoluiu como movimento e o quão impraticável é a situação atual.

Apesar de libertários e conservadores até compartilharem algumas ideias, eles possuem bases filosóficas fundamentalmente diferentes. Para mim, essas bases são, de fato, incompatíveis. Como o nome sugere, libertarianismo refere-se à liberdade, liberdade individual especificamente. Conservadorismo, por outro lado, diz respeito a conservar o quanto for possível do passado, tendo o mínimo de mudança possível. Os libertários estão motivados acerca do futuro e das mudanças que nos aguardam na tecnologia, na sociedade, na cultura e em muitos campos diferentes. Conservadores, por outro lado, apenas se estremecem. Libertários amam a liberdade. Conservadores amam a tradição. Essas não são filosofias que deveríamos esperar a funcionar juntas.

Em seu texto de abertura, Jacqueline Otto expõe diversos pontos onde libertários e conservadores convergem. Porém, note o estranho no ninho: as questões sociais. Em nenhum ponto de seu texto ela escreve sobre casamento gay, legalização das drogas, liberdades civis, feminismo ou até mesmo política externa ou imigração. Estes são assuntos sérios e onde libertários e conservadores frequentemente discordam. Em vez disso Otto escreve exclusivamente sobre economia, como se isso fosse o tema principal do libertarianismo. Entretanto, é apenas uma parte, não o todo.

Vamos pegar um assunto especialmente contencioso: o casamento gay. Libertários são a favor de deixar casais de gays e lésbicas desfrutarem dos mesmos benefícios e reconhecimentos legais atribuídos aos casais heterossexuais. Conservadores, por outro lado, tem sido contra isso e em favor de relegá-los a um status de segunda classe, ou apenas não reconhecê-los de forma alguma.

Para os libertários, isso é um assunto de direito do indivíduo governar sua própria vida. Isso é, afinal de contas, o que liberdade significa. Para um conservador é a sociedade, em grande medida, que governa a vida de uma pessoa. Nem sempre é uma questão sobre o que o indivíduo queira, mas sobre o que é certo para a comunidade. A comunidade, por sua vez, é construída sobre tradições centenárias. Permitir o casamento gay quebraria essas tradições, razão pela qual a maioria dos conservadores está condenando-o como imoralidade excessiva. Vendo por este lado, os conservadores realmente são apenas o outro lado da moeda esquerdista. Ambos colocam a comunidade no comando.

Quando terminamos o Juramento à Bandeira, o fazemos utilizando-se das palavras "Liberdade e Justiça para Todos" e não "Liberdade e Justiça somente para aquelas pessoas que gostamos". Libertários acreditam no primeiro, no entanto, os conservadores, em maioria, acreditam no segundo. Isso não é algo que podemos apenas acobertar. Como explicarei mais adiante, ser associado a isso também dificulta muito o movimento da liberdade.

E o que dizer sobre a economia? Certamente podemos concordar com os conservadores nessa questão. Mas vamos ser honestos, Jonah Goldberg estava errado em dizer que Friedman, Hayek e outros foram o Memorial do Monte Rushmore da economia conservadora. Economia conservadora é mais apropriadamente descrita pelo termo "capitalismo de compadres" ao conceder incentivos fiscais e subsídios às empresas e aqueles no topo, a riqueza irá fluir para baixo e vai melhorar a vida daqueles que estão no fundo do poço. Mas isso não está aumentando a liberdade ou limitando o governo, está meramente inclinando a sociedade na direção de um grupo em vez do outro.

Isso não é libertário. Uma política econômica libertária seria eliminar todos os subsídios dados às empresas, conceder incentivos fiscais para todos e derrubar as barreiras que impedem novos empresários de abrir empresas. Libertarianismo é universalista e não de cima para baixo

Isso destaca a maior diferença entre a economia "libertária" e "conservadora". Libertários são pró-capitalismo. Conservadores são pró-empresa. Mesmo que soem parecidos, essas ideias não são enfaticamente as mesmas e nunca poderiam ser. Através dos meios de destruição criativa, o capitalismo frequentemente desmantela e destrói empresas estabelecidas. Conservadorismo, no entanto, está em sua busca de manter o status quo, interferindo no processo supracitado. O melhor exemplo? 2007. Se conservadores fossem verdadeiramente pró-mercado, eles nunca teriam permitido legalmente programas governamentais para resgatar empresas e equilibrar o setor financeiro, mas eles fizeram e socorreram os bancos. Isso é uma política econômica conservadora, não libertária.

Todas essas coisas dificultam os libertários quando tentamos explicar a liberdade para americanos e expandir o movimento. As pessoas notam e os recordam e, porque nós também gostamos dos mercados livres, eles lamentavelmente associam os mercados livres a essas políticas. E isso cheira a hipocrisia. Somente torna nosso trabalho de defender o livre mercado muito mais difícil.

Por causa desse acordo desigual, o povo americano comumente não percebe que libertários foram contra a guerra no Iraque, contra leis que suprimem as liberdades civis por conta de ameaças terroristas, contra o Departamento de Segurança Interna, contra resgates econômicos e contra a forma de grandes gastos governamentais da administração conservadora de George W. Bush. Só reentemente, com o surgimento de libertários como Ron e Rand Paul, Mike Lee e Jeff Flake, nós temos sido capazes de chegar e, verdadeiramente, falar com as pessoas.

Eu concordo com Otto de que precisamos agir para salvar o livre mercado hoje. No entanto, discordo sobre o motivo do por que estamos em perigo. Não é por causa de brigas ou por não apresentar uma frente unida. É precisamente porque temos apresentado uma frente unida que nós estamos com problemas. E por causa desse acordo desigual entre nossos dois campos que os libertários não tem tido voz para combater o conservadorismo social que está condenando o livre mercado. Enquanto os libertários estiverem vinculados a políticas sociais retrógradas do conservadorismo e a defesa pró-empresa do status quo, nós não iremos progredir com o povo americano - o mesmo povo que, então, marchará alegremente para condenação socialista.

Se o objetivo é salvar o livre mercado e estabelecer um verdadeiro governo limitado nos EUA, os libertários precisam sair da sombra dos conservadores. Precisamos acabar com o acordo desigual e emergir como uma marca totalmente independente, em pé de igualdade. Precisamos criar uma causa pela liberdade sem empecilhos. Liberdade para todos, até mesmo para aquelas pessoas que eu poderia não gostar tanto. Essa postura consistente irá conquistar os americanos, enquanto a conservadora inconsistente não. Não deveríamos mais tolerar somente receber tapinhas nas costas de conservadores e ficarmos calados. Fizemos isso por anos e não recebemos nenhuma liberdade a mais.

Antes de concluir, desejo apontar rapidamente duas questões. Primeiro, quando falo de fusionismo, eu sou neutro na questão partidária. Especificamente, sou um neutro do Partido Republicano. Estou focando em ideologias políticas, na esquerda e direita, não em instituições ou partidos. Para mim, o partido é uma ferramenta política. Tendo libertários tomando a liderança do partido republicano e trabalhando dentro dele para alcançar mudança pode - ou não - ser a estratégia mais efetiva na política. Eu não sei. Isso é uma questão para consultores políticos, estrategistas de campanha e comentaristas de TV resolver.

Segundo, eu deveria salientar, para que não pensem que libertários e conservadores deveriam romper permanentemente e se tornarem inimigos, que eu não sou contra coalizões para um fim específico sobre certos assuntos. Se há um assunto no qual conservadores e libertários largamente concordam, nós deveríamos trabalhar juntos nisso. Mas por outro lado, se há algo que libertários e progressistas concordam, deveríamos trabalhar juntos com eles nisso. Anteriormente, isso era um anátema. Libertários nunca foram trabalhar com "o outro lado", mesmo que compartilhássemos muitas coisas em comum com isso. Mas isso nos engana e dificulta a causa da liberdade por negar o outro caminho que podemos utilizá-lo para promovê-la. Nós deveríamos e devemos nos tornar oportunistas políticos, trabalhando com qualquer um que concorde conosco nos assuntos do dia. Nós nunca concordaremos com todas as pessoas em todo tempo, mas nós concordamos com algumas pessoas na maioria das vezes - depende apenas de quem são "algumas" dessas pessoas.

Fusionismo tem sido apresentado como uma aliança igual entre parceiros, uma aliança que seja forte e necessária para avançar a liberdade. Mas não tem sido igual e não tem avançado a liberdade. O caminho a seguir parece claro pra mim: libertários devem ser independentes dos conservadores. Somente apresentando uma visão de liberdade independente e consistente irá finalmente triunfar.

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 Tradução de Rodrigo Viana. Revisão de Matheus Pacini.


 

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