Jacqueline Otto argumenta que existem questões e dados demográficos que são pontos maduros para o trabalho conjunto entre conservadores e libertários. Estes podem trazer a mensagem acerca de mercados livres e liberdade individual para uma audiência ampla, especialmente os religiosos. Eu concedo o ponto tão logo eu aponte as oportunidades para cooperação entre libertários e progressistas em muitas questões.

Entretanto, a questão a ser discutida não é a cooperação entre dois grupos, mas o fusionismo, uma aliança explícita que tem sido a estratégia dominante para os libertários nos últimos 50 anos. Enquanto os libertários tem sido colocados genericamente na direita na história recente, o fusionismo é uma estratégia fadada ao fracasso porque uma aliança explícita fecha as portas com públicos de esquerda, centro e todo o restante do espectro político. Algumas palavras acerca da história e natureza do fusionismo serão informativas para a discussão.

O termo fusionismo foi popularizado no começo da década de 60 por William F. Buckley e Frank S. Meyer da National Review. Esses foram os primeiros dias do movimento conservador e libertário como os conhecemos. Ambos cresceram no contexto e em resposta ao consenso da Guerra Fria, na qual os dois maiores partidos políticos e a maior parte dos intelectuais acreditavam que o New Deal tinha consertado os problemas do capitalismo e que o governo deveria gerenciar uma economia mista. Qualquer um fora dessa visão de mundo era um radical, e um radical completamente sozinho.

Para contar uma história longa e mais complicada em resumo, Meyer e Buckley trabalharam para combinar essas pequenas forças crescentes em um amplo movimento conservador. Evidencias podem ser vistas na assistência de Buckley na criação do Young Americans for Freedom, uma organização explicitamente fusionista – como pode ser vista no seu Sharon Statement. Meyer buscou dar uma justificativa filosófica para esta aliança com o seu livro In Defense of Freedom, de 1962, onde ele declara que a liberdade é essencial na busca da virtude, e que a virtude é necessária para a manutenção da ordem social. Ele viu harmonia entre as posições libertárias e conservadoras. A aliança teve três braços principais, que podem ser pensadas como as pernas para uma cadeira. Uma perna destacou os conservadores tradicionalistas influenciados pelo pensamento de Russel Kirk e primariamente seu livro The Conservative Mind, de 1953. Kirk defendeu um conservantismo burkeano, enfatizando o respeito e aderência a tradições políticas, religiosas e culturais.

Compondo a segunda perna estavam os anticomunistas, liderados por organizações como a John Birch Society, na qual foi criada para revelar conspirações comunistas de derrubar o governo. Enquanto a maior parte dos americanos se opõem ao comunismo, os ferventes anticomunistas tenderam a argumentar para uma forte luta contra as ideias comunistas em casa e para ativamente destruir a URSS no exterior. Eles eram os mais numerosos das outras partes do fusionismo.

A terceira pena era composta pelos liberais clássicos, que depois ganharam o nome de libertários, e receberam influência de um número grande de economistas e filósofos. Inspirações para este grupo incluíram Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, Milton Friedman, e Ayn Rand para citar alguns (como Otto mencionou, existem muitos poucos destacados economistas defensores do livre mercado que não são libertários). Em geral eles defenderam limites extremos para o poder governamental e a maximização da liberdade individual. Mesmo não sendo os mais numerosos, eles trouxeram os componentes intelectuais mais fortes para a aliança.

Eu fiz essa quebra para a tangente histórica porque ela é importante para o entendimento de onde nós estamos hoje. Com o tempo alguns libertários negaram o fusionismo para seguir seu próprio caminho. Ayn Rand e Murray Rothbard me vem em mente. Nos anos 70 o Partido Libertário foi formado; nos anos 80 o Cato Institute tornou-se um think tank respeitado e de sucesso; e o libertarianismo cada vez mais tornou-se um movimento consciente e sustentável. Ainda, com exceções o fusionismo foi a estratégia dominante para os libertários nos últimos 50 anos. Quanto eu penso sobre o fusionismo hoje em dia, faz sentido que os libertários abraçaram ele na metade final do século 20.

Vamos voltar para o presente, onde as dinâmicas mudaram dramaticamente. Comunismo, um perigo existencial para os Estados Unidos e a liberdade em todo o mundo, deram um inimigo comum para conservadores e libertários. Ele praticamente desabou sob o próprio peso e ineficiência. Onde uma vez libertários e conservadores poderiam debater inteligentemente nas páginas da National Review, agora os tradicionalistas estão todos esquecidos, substituídos por conservadores sociais quem enxergam heróis em pessoas como Rick Santorum. Uma vez foi possível se unir sob Barry Goldwater, mas nos últimos anos estes a direita guiaram sua marcha para ordens dos neoconservadores imperialistas defensores de um governo inchado sob George W. Bush e o mestre das marionetes Karl Rove. A cadeira fusionista está irreparavelmente quebrada. Fusionismo está morto, e os conservadores o mataram.

Enquanto os conservadores gastaram os últimos 20 anos destruindo sua credibilidade com os moderados e os jovens, o movimento libertário tem ganhado tração. Nos agora temos nossas próprias instituições passando por think tanks e centros acadêmicos, a grupos de estudantes e redes de movimentos populares. Há uma linha do texto de Jacqueline que eu achei particularmente inacurada: “a sobrevivência do livre mercado está em jogo; como nós estamos vendo a principal tendência da minha geração é virar à esquerda, eu temo que a guerra pela liberdade pode estar perdida enquanto nos na direita brigamos por graus de liberdade”. Isto é simplesmente errado. Os jovens não estão se movendo para a “esquerda”. Eles estão simplesmente abandonando o conservadorismo. Stephen Moore recentemente citou um estudo do conservador Young America Foundation no Wall Street Journal, dizendo, “um importante achado é que não é mais “cool” ser conservador na universidade. Por exemplo, o termo conservador é rejeitado pelos jovens, vistos positivamente por 28% e negativamente por 32%, enquanto termos como livre mercado, empreendedorismo e governo limitado são vistos positivamente.” O que este estudo mostra é que os elementos libertários do conservadorismo permanecem populares; o resto virou tóxico para os jovens.

Enquanto a juventude está abandonando o conservadorismo, o movimento estudantil pela liberdade tem crescido a passos largos. Impulsionado pelas duas campanhas eletrizantes de Ron Paul como também a insatisfação com os governos de Bush-Obama, os estudantes não estão somente abraçando as ideias libertárias, mas tomando para si e a divulgando nos campi. A primeira conferência dos Estudantes Pela Liberdade em 2008 teve a presença de 100 pessoas. Neste fevereiro último, a conferência internacional teve mais de 1400.

Além dessas mudanças dinâmicas e questões geográficas, é válido dizer com grande ênfase que os libertários não estão na “direita”, e é danoso para nós pensarmos assim. Nossas ideias são aceitas por todo o espectro tradicional e abarca elementos de qualquer filosofia política. Do casamento gay a guerra as drogas a falência da seguridade social ao respeito pelo individualismo e empreendedorismo, americanos sustentam posições pró-liberdade. O que torna o libertarianismo único é que enquanto outros podem sustentar essas crenças casualmente, nós defendemos elas absolutamente. Nós não estamos na esquerda ou direita, mas ocupamos o centro radical do discurso político.

David Boaz do Cato Institute fez um comentário muito interessante na Conferência Internacional dos Estudantes Pela Liberdade 2013, que explica o porquê de libertários serem tão preocupados com questões sociais e como eles estão abandonando o fusionismo conservador:

O Partido Republicano reagiu muito negativamente quando os negros começaram a demandar seus direitos civis. E agora os republicanos se perguntam o porquê dos negros não quererem votar neles. O Partido Republicano reagiu muito negativamente quando as mulheres começaram a demandar seus direitos de ter carreiras e se envolverem na política e no cotidiano econômico. E agora os republicanos estão reagindo muito, muito negativamente aos gays demandando simplesmente igualdade legal. Igualdade perante a lei. Então, meu conselho para qualquer republicano assistindo é: não faça as coisas hoje que causarão vocês a dizer daqui a 20 anos “como os gays não votam em nós?”.

Isso é um problema fundamental para o movimento conservador, e porque libertários fazem certo em colocar uma distância entre nosso dois campos. Libertários não devem permanecer em silencio sobre questões sociais ou permitir que sejamos colocamos na “direita”, para a qual é um rótulo perdido e marcado por intolerância e hipocrisia. Uma aliança fusionista próxima com a direita fecha as portas com os moderados e progressistas que são públicos importantes para nossas ideias. Onde estão ocorrendo as mais excitantes vitórias libertárias atualmente? Na igualdade civil de homossexuais e legalização das drogas. Nós devemos focar nesses temas o mesmo tanto, senão mais do que em liberdade econômica.

Nós estamos regando a maturação da geração mais libertária na memória recente. Houve um tempo no qual nós precisávamos dos conservadores para fazer número e para apoio institucional. Mas agora nós temos nossas próprias instituições libertárias e nossas fileiras estão crescendo todos os dias.

Isto não é um argumento contra trabalhar em um partido político, ou contra alcançar diferentes grupos, ou contra identificar como um libertário-conservador, libertário-progressista, ou qualquer outro tipo. As permutas possíveis do libertarianismo são numerosas, o que é uma coisa boa. É a diversidade de nosso movimento que nos dá força. Meu argumento é contra a aliança formal do conservadorismo e libertarianismo, contra dizer que “o movimento pela liberdade é um ramo do movimento conservador”. Meu argumento é para construirmos nosso próprio movimento libertário com nossas próprias instituições, centradas em uma marca jovem e orientada para o futuro.

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Tradução de Juliano Torres.


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