Caesar III e o fracasso do planejamento central

Algumas semanas atrás, eu entreti um amigo com uma amigável conversa sobre política. Sendo um socialista ardente que é, ele apresentou seu caso do porquê nosso país necessita implementar políticas redistributivas A, B, e C. Depois que ele tinha terminado, I perguntei a ele como poderia esperar que alguém planejasse ou calculasse tudo que seria requerido. Eu perguntei a ele como alguém poderia comandar e governar eficientemente na ausência do livre mercado. Ele sugeriu que eu jogasse um jogo chamado Caesar III. Ele jurou que esse jogo modelou a economia de forma satisfatória e que eu deveria tentar minha sorte para ver quão bem uma sociedade centralmente planificada iria funcionar. Eu aceitei o desafio.  

Para aqueles que não estão familiarizados com Caesar III, é um jogo de construção de cidades que acontece nos dias da colonização romana. No jogo, o jogador assume o cargo de prefeito da cidade e tem que garantir que a sua colônia satisfaça as demandas de César (que exige objetivos arbitrários para as cidades). Sua função, como prefeito, é garantir que você construa uma dinâmica, próspera cidade, com uma economia robusta e pessoas felizes.

Você começa com um pedaço de terra intocado. Dependendo da ocasião, ele tem montanhas para minar ou oceanos para pescar, ou terras aráveis para plantar. Em uma parte da tela está uma barra de tarefas repleta de construções que você pode construir. Você pode escolher construir dezenas de teatros, lado a lado em uma rua se você quiser. Não existe nada que o impeça de construir qualquer obra a qualquer hora – aparte do dinheiro para construir e talvez montanhas ou lagos no caminho. O jogo fornece objetivos específicos a serem cumpridos. Você deverá ter tal nível de “Cultura” (mostrado por quão ricos são os seus moradores), “Favorecimento” (a vontade que César tem por você), “População”, “Paz”, etc.

Com organizador de uma cidade, você deverá decidir em que ordem e quantidade tudo deverá ser construído. Escolhas corretas são recompensadas com um aumento dos níveis naqueles critérios; escolhas erradas custam a você dinheiro e tempo. Para avançar de fases, você deve atender determinados critérios nas quantidades que César escolher. No nível iniciante, ele pode pedir por um nível de “Cultura” de 10, sendo que você pode prosperar com cabanas de barro, contudo, com o decorrer do tempo, você não poderá completar uma determinada fase até o seu nível chegar a 50, o qual requer elaboradas vilas romanas, com vinho e cerâmicas, etc.   

Tão logo você cumpra todos os objetivos, o jogo, triunfalmente, declara a sua cidade como um sucesso.

Infelizmente, não existe nenhuma opção para “Desabilitar o Governo” (talvez os criadores pensaram que assim seria muito fácil ganhar), então somos forçados a aceitar total controle e construir uma cidade desde as suas fundações. Isso se constitui no perfeito experimento em planejamento central. Eu gastei três horas no Skype com meu amigo J.P. Gonzales tentando terminar certa fase. Mesmo com nosso intelecto combinado, ordenar e liderar uma multidão de pessoas provou-se difícil.

No mundo real, existe um componente do planejamento central que todos nós levamos em consideração, e que não existe no jogo: a saber, a realidade de interesses egoístas de parte da casta dominante. No mundo real, é profusamente claro que os governos agem primariamente em seu próprio interesse, de forma que qualquer alegação que a democracia / socialismo é “para as pessoas” pode ser considerada no melhor ingênua, e cruelmente propagandística no pior. Não funciona assim no jogo.

Como supremo planejador de cidades, eu posso dizer na frente de todos vocês que eu tentei o meu melhor para realizar o paraíso visualizado por Marx. Eu trabalhei em estradas e sistemas de água e esgoto, minha testa suando enquanto eu reorganizava os projetos industriais; Eu mesmo doei meu próprio salário de prefeito quando necessário para pagar as dívidas que eu tinha com César. Eu sou um prefeito com ideais superiores, desinteressado pela acumulação material da população governada. Eu não tenho tentações. Mesmo assim, minhas tentativas acarretaram em fracasso após fracasso.

Para começar a minha cidade, meu primeiro ato é desenvolver um sistema de estradas. Afinal, se não existem estradas, eu não posso ter imigração (migração) para a minha cidade e eu terei construído uma cidade para ninguém. Depois que as estradas estão concluídas, então construo casas para o meu povo morar, fazendas nas terras aráveis (conectadas por estradas, é claro), celeiros para estocar trigo, e armazéns para distribuir as mercadorias para os consumidores.

Todo o trabalho – de plantar trigo até alimentar as pessoas – tem de ser organizado totalmente por você. Eu devo hierarquizar todas as diversas tarefas que a minha força de trabalho deve executar por ordem de importância. Um processo de decisão crítico, realmente.

Então surge a água potável. Eu devo construir reservatórios próximos a lagos e os conectar por aquedutos, os quais cortam a minha cidade. Eu tenho que, cuidadosamente, planejar onde os aquedutos serão colocados, para que não haja má alocação de preciosos recursos que estão no caminho do fornecimento de água. Finalmente, eu construo fontes para disponibilizar água para a população.   

Você pode ver como o jogo progride. Além de alimento e água, o mesmo processo deve ser aplicado a escolas, hospitais, templos (dedicados a cinco deuses diferentes), bibliotecas, banhos públicos, teatros, academias, postos de polícia, jardins, postos de engenharia, etc. Essa é uma experiência em primeira mão da verdade no argumento de Mises contra o socialismo: que sem preços de mercado para os fatores de produção, não existe maneira inteligente ou racional para organizar uma sociedade. Não existe qualquer tipo de propriedade privada, e os preços que determinam as mercadorias disponíveis no mercado são completamente arbitrários. O cálculo econômico é impossível. 

Além disso, toda a cidade é construída por meio de fundos oriundos do meu salário de prefeito. As casas, as fazendas, as docas, os armazéns, os anfiteatros, os portos e todo o resto é tirado do meu bolso. Para ganhar dinheiro, eu tenho que aumentar os impostos ou exportar mercadorias para outras cidades. Eu considero o sistema de taxação irrelevante, pois todos os salários advêm da própria máquina estatal. Se todos os salários são uniformemente ditados, tanto quanto as taxas, qual é a lógica deles? Isso é exatamente o que Hazlitt sugere quando ele fala sobre “tirar do bolso esquerdo para dar ao direito”.

Como um complemento, é importante destacar que o Senado e os Fóruns – as bases de coleta de tributos – são algumas das construções mais úteis do jogo. Imagine uma comunidade socialista sem taxação!

Em algum ponto de sua carreira como prefeito, você terá de aumentar a sua receita por meio da exportação. Para exportar, você primeiro deverá comprar o direito por uma rota de comércio. Depois que essa rota é comprada, você deve alocar mão-de-obra para as indústrias que produzem as mercadorias que os importadores querem comprar. Isso requer uma completa mudança na alocação da mão-de-obra e frequentemente cria desemprego em massa; os desempregados então se tornam criminosos e roubam os coletores de impostos, emigram, ou continuam consumindo o seu capital sem produzir nenhuma mercadoria.

O objeto do jogo é completar todos os objetivos dados e seguir adiante. Toda fase torna-se mais e mais difícil, e o planejamento passa de desafiador para difícil até um pesadelo. Eu falhei, pelo menos, uma dezena de vezes em todas as fases até aprender como jogar.

Existem algumas coisas importantes para se recordar sobre o jogo. Em primeiro lugar, você deverá construir uma grande quantidade de postos de polícia em todas as horas. Eles protegem os cidadãos e asseguram que as construções respeitam os códigos de prevenção a incêndios. Se houver falha nesse aspecto, isso resultará na explosão espontânea de construções aleatórias (literalmente!). Houve tempos quando eu me esqueci (ignorância de minha parte) de colocar três postos de polícia ao redor das minhas terras, sendo que todas as minhas fazendas pegaram fogo e tiveram de ser limpas.    

Da mesma forma, o jogo também demanda uma quantidade anormal de postos de engenharia para assegurar que os edifícios estão de acordo com as normas técnicas. Sem eles, ocorre o mesmo colapso espontâneo das construções e uma completa limpeza é requerida. Eu fiquei surpreso que o jogo força você a construir uma quantidade desproporcional de edifícios públicos para garantir que “seus cidadãos estão seguros”. Muitas partes da cidade são assim: se há poucas clínicas médicas ocorrem epidemias; se não há trabalho suficiente direcionado ao cultivo, ocorre exílio em massa.   

Outra característica engenhosa é o conselho consultivo. Clicando nessa opção, você pode conversar com os conselheiros de sua cidade no que se refere ao emprego, religião, alimentos, ameaças militares, etc. A relação que o jogo estabelece com o socialismo do mundo real é espantosa. Eu nunca poderia chegar nem perto de concluir uma fase se eu não consultasse os meus conselheiros a todo minuto. Se os planejadores de Caesar III estavam tentando fazer com que os jogadores se tornassem mais simpáticos aos ditadores, eles poderiam ter feito o planejamento algo mais fácil ou, pelo menos, eles poderiam ter dado aos conselheiros melhores modos.

A quantidade de notificações, alarmes, preocupações, avisos, ameaças e demandas de Caesar, e explosões é suficiente para sugerir um status de não-recomendado para menores. Para aqueles inaptos na arte da multitarefa, cuidado.

De forma geral, Caesar III é uma lição sobre a futilidade do planejamento central. O jogo nem mesmo tenta tratar a população como composto por seres humanos racionais com desejos variáveis. Eles são autômatos para você controlar. A dificuldade do jogo surge da distribuição de alimentos, água, educação, saúde, religião, leis e todos os tipos de bens de consumo (cerâmicas em geral, móveis, etc.). Apesar de condições imutáveis, a impossibilidade do planejamento racional torna o jogo difícil – e especialmente frustrante para os Austríacos. Mesmo com um planejador central brilhante, eu me achei incapaz de satisfazer todos os desejos dos meus plebeus.

Uma descoberta reveladora foi a de que as pessoas melhoravam as suas casas em resposta a quão bem o planejador provia as necessidades básicas. Eu não melhoro as suas casas: eles fazem isso por conta própria. Isso pode poder o único traço de individualidade que o Caesar III permite. Isso foi bem descoberto, todavia, pois ele, pelo menos, implicitamente, admite a verdade de que toda a riqueza econômica pode somente ser criada por indivíduos buscando fins racionais. Eu posso prover os bens, mas se a população decidir viver na miséria, não existe muito que eu possa fazer. 

Infelizmente, eu nunca tive a chance de relatar a meu amigo sobre a completa inadequação do jogo para capturar a essência da ação humana. Se meu amigo, como Platão antes dele, pensa que a sociedade pode ser modelada como uma colônia de formigas, eu acolho suas tentativas de explicar como. Até onde foi possível, Caesar III foi um experimento em refutação. Se um graduando da Mises University tem problemas em planejar uma colônia romana de “faz de conta”, qual esperança existe que alguém pudesse planejar a coisa real?

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Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Juliano Torres.


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