Democracia em Singapura

 

Americanos frequentemente descrevem Singapura como uma “ditadura”. Eu ocasionalmente acabo fazendo isso também. Depois de algum tempo estudando, eu conclui que essa visão é simplesmente errada. Singapura é uma democracia tanto na prática como na teoria. Sim, o “Partido da Ação Popular” tem 82 das 84 cadeiras, e tem estado no poder durante toda a história do país. Mas Singapura segue as regras parlamentares britânicas. A oposição é permitida legalmente. Ela simplesmente não ganha.

Como a maior parte dos americanos, minha reação natural a esses fatos é assumir que há corrupção generalizada. Nenhum partido consegue ganhar 82 das 84 cadeiras honestamente, consegue? Mas quando você se aprofunda nos dados, você praticamente não encontra nenhuma evidência que reforcem essas suspeitas. Singapura tem notas incrivelmente altas no ranking de percepção da corrupção da Transparência Internacional. Ainda mais incrível, o ranking de governança do Banco Mundial dá a Singapura notas quase perfeitas em todas as áreas, com exceção da categoria “voz e prestação de contas”. Observadores neutros dizem basicamente que a democracia de Singapura é honesta, mas indiferente.

Ver esses fatos me deixou ainda mais intrigado do que quando comecei. Singapura parece ser sui generis; onde mais no mundo uma democracia honesta leva ao domínio total de um partido só? Depois de extensa reflexão, pensei: ao invés de comparar Singapura com outros países democráticos, eu devo compará-la com outras cidades democráticas. Há muitas grandes cidades nos Estados Unidos onde um único partido ganha extensas maiorias ano após ano. Prefeitos democratas tem continuamente dominado São Francisco há mais tempo do que Singapura é um país independente! E enquanto a corrupção tem um papel na política urbana americana – pense na notória “Daley Machine”[1] – corrupção é dificilmente necessária para o domínio de um único partido.

Porque é mais fácil ter um partido único em uma cidade do que em um país? Provavelmente existem várias razões, mas a mais óbvia é que unidades políticas menores (medidas em termos de população e extensão territorial) são menos diversas. 3 milhões de pessoas espremidas em alguns quilômetros quadrados devem convergir em uma mesma visão de mundo. 300 milhões de pessoas espalhadas em um continente certamente não irão.

É importante notar, além do mais, que o tamanho importa tanto do lado da demanda, quanto do da oferta quando se fala de política. No lado da demanda, unidades políticas menores têm menos discordâncias sobre o tipo de políticos que eles querem; no lado da oferta, unidades políticas menores têm menos candidatos diversos para oferecer. Se Singapura tivesse uma centena de vezes o número de pessoas que ela tem, seria bem mais provável existir um Ross Perot[2] pronto para gastar sua fortuna desafiando o status quo.

Questão: eu citei um mecanismo subjacente de políticas urbanas de um partido; quais são os outros?

Notas

[1] N.R. : O autor se refere ao domínio de 40 anos que a família Daley tem sobre a política de Chicago. O membro mais proeminente do clã - Richard J. Daley -  apesar de nunca ter sido acusado formalmente por corrupção teve vários subordinados presos por esse crime.

[2] N.R. : Henry Ross Perot (27 de Junho de 1930) é um empresário do Texas, muito famoso por ter concorrido por duas vezes à Presidência dos Estados Unidos em 1992 e 1996. Responsável direto por roubar votos de George Bush pai na eleição de 1992 e com isso causar a sua derrota. 

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Tradução de Juliano Torres. Revisão de Ivanildo Terceiro.


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