A filosofia de Don Draper
- Escrito por Guilherme Inojosa
A essência da aclamada série da AMC Mad Men sempre foi a personalidade intrigante, enigmática e forte do seu protagonista, Don Draper. Como poucos personagens de séries, sua construção (ou desconstrução) frente ao público se deu em um ritmo fundamental, a revelia das críticas contra a sua “lentidão”, para que nenhuma de suas nuances se perdesse ou ficassem sem explicação durante o desenvolvimento da trama. Tendo por mote a pergunta mais famosa do seriado (“Quem é Don Draper?”), esse texto irá se aprofundar na filosofia de vida desse personagem que tanto nos fascina.
Matthew Weiner, criador e produtor da série, é famoso pelo seu perfeccionismo. O cuidado detalhista com a produção técnica e a edificação dos seus personagens e de suas motivações é um fator determinante na superioridade de Mad Men como produção em comparação com as demais. Não surpreende para quem conhece a série, porque todos os prêmios que ela levou desde a sua estréia, foram mais que merecidos.
Draper, o personagem principal da série, é um homem único. Ignorando a obviedade de que ele não passa de um personagem de ficção, é interessante como todas as suas características, que foram tão bem definidas durante as quatro primeiras temporadas da série*, o tornam mais real do que muitas pessoas de carne e osso. Ele sente dor e felicidade, é sincero e mentiroso, vive amando e traindo, é, enfim, humano. Contudo, o que o diferencia dentre a gama de personagens existentes na ficção, é a sua determinação. Don sempre sabe claramente o que quer, quando quer e como é. Ele é um homem com valores definidos, sem meios termos e que não se permite sacrificar sua felicidade pela dos outros. É, portanto, uma pessoa que vive para si mesmo.

Esta também é a principal característica da filosofia Objetivista, cujo principal expoente, a filósofa e escritora Ayn Rand, já foi inclusive citado durante alguns momentos da série. O Objetivismo acredita que o ser humano possui o direito de buscar a própria felicidade e que não deve ter como obrigação fazer algo pelo próximo caso ele julgue que isso incorra em um sacrifício e vá prejudicá-lo. Ao fazer um sacrifício, o ser humano estaria fazendo algo que o deixará infeliz por dar mais valor a outro indivíduo do que a ele.
Filosofia esta, que é baseada nos princípios de básicos na Carta de Independência Americana, ao dizer que os seres humanos possuem direito a “vida, liberdade e busca pela felicidade”. Ou seja, as pessoas possuem o direito de buscarem um modo de vida que as torne felizes, o que não configura o fato de elas terem direito de obrigar os outros a viver esse modo de vida O altruísmo é visto assim como um valor que só deve ser seguido caso seja voluntário, e que a sua imposição é um mal.
Don Draper é um homem que, acima de tudo, valoriza a liberdade para procurar ele mesmo, ser feliz, sem com isso fazer com que outros se sacrifiquem por ele. Todos os seus atos concordemos com eles ou não, foram feitos buscando o melhor para o próprio personagem.
Como essa certeza do que quer, vem a arrogância dele pelas propagandas que cria. Ele sabe que consegue atingir o público com o que faz, porque ele faz bem. Grande parte do charme da série vem dessa suposta arrogância, quando ele tenta provar aos donos das empresas que ele fará publicidade sobre o porquê de ter que ser feito e da forma como ele quer. Assim como grandes dos momentos da série são quando são pedidas concessões em relação ao que ele propôs, pois se o que ele faz sempre fica bom, por que ele deve abrir mão para o que as empresas pensam? Essa característica é compartilhada por um dos mais célebres personagens de Ayn Rand, Howard Roark, um arquiteto que desafia todo o padrão da época pautado no classicismo e chega ao ponto de trabalhar em uma pedreira para não abrir concessões sobre o que ele acredita que seja melhor. Pode parecer extremismo, mas vale lembrar que todos os grandes artistas do mundo conseguiram esse posto por estarem a frente do seu tempo, e que eles teriam caído no esquecimento caso decidissem fazer o que os padrões da época ditavam em vez de seguir seus próprios gostos.
Logo na primeira temporada, vemos que Don não quer de forma alguma possuir um contrato com a Sterling & Cooper, algo que em teoria não deveria ser um problema e sim uma garantia. Isto acontece porque, ao assinar um contrato, ele estaria adquirindo uma obrigação com a empresa que ele poderia no futuro não querer mais arcar. Não é a toa que, em um momento icônico da série, ele é recompensado por isto ao simplesmente dizer que iria sair da Sterling & Cooper caso ela tomasse certo rumo, o que seria impossibilitado caso houvesse um contrato assinado.
Da mesma forma, ele só procura se vincular com as pessoas que ele enxerga um certo tipo de valor e, graças a isto, acaba ganhando uma fama de antipático. Entretanto, por que ele iria tentar fazer amizade com pessoas que ele não vê nenhuma característica em comum, ou possui certo tipo de admiração, como acontece com grande parte do escritório? Tanto que ao mesmo tempo em que ele repudia boa parte do escritório, possui uma forte amizade com Roger Sterling no início da série. Isto acontece por ele enxergar o Sterling como um homem parecido com ele e um modelo a ser seguido na forma como lida com os negócios, chegando ao ponto de ele permanecer na empresa após uma oferta melhor devido unicamente à forma como Sterling faz negócios. Não vem, neste sentido, a ser uma simples coincidência o fato de a amizade de Draper e Roger se diluir na mesma proporção da decadência deste. Da mesma maneira, vemos ele se aproximar de Peggy à medida que ela vai ganhando mais espaço na empresa e adquirindo características que ele julga de alguma forma importante. Vale lembrar que boa parte dessa suposta sociopatia também é creditada a qualquer um dos ditos heróis criados por Rand, em especial o já citado Roark.
Boa parte das três primeiras temporadas foi pautada por mostrar a infelicidade matrimonial de Don com sua esposa Betty. Boa parte dos romances de Rand dedicam um tempo considerável em expor o que é chamado de teoria do sexo. Esta teoria diz que o sexo entre duas pessoas é pautado pelo reconhecimento, para ambas as partes, dos valores que elas consideram importantes em si próprios e refletem no outro. Caso um lado não reconheça mais este valor, a prática do sexo se torna um flagelo e o matrimonio incompleto. Não é exatamente isso que acontece com Don? Casado com uma pessoa cuja personalidade em nada batia com a dele, sempre procura a felicidade através de outras garotas, que ele julga que conseguem completá-lo melhor. Culminando em sua separação e casamento com Megan que, pode até não vir a completar Don em sua essência, mas é uma mulher que sabe o que quer e se aproxima bem mais dos valores de Don. E que, por ele ser uma pessoa diferente das demais, dificilmente conseguirão ser plenamente satisfeitos. É graças a isto que vemos uma constante atração, que possivelmente nunca será concretizada, entre Don e Peggy, já que para ambos existe esse reconhecimento de admiração mútua. Alguns podem ter dúvidas se esta teoria se aplica, eu acredito que para relacionamentos de longo prazo ela consegue explicar muito bem questões como atração não apenas sexual como afetiva também, nenhum relacionamento consegue durar com pessoas possuindo uma visão de mundo completamente diferente, o que não quer dizer evidentemente que elas tenham que concordar em tudo.
O leitor mais assíduo deve estar perguntando com que base ele fez a atitude mais polêmica de toda a série: Sua mudança de identidade visando fugir da guerra. Para entender melhor isto, vamos aos fatos: Dick Whitman possuía um companheiro que havia sido morto e iria sair da guerra e uma ânsia profunda de voltar aos Estados Unidos, usando a identidade do amigo, ele não o estaria prejudicando, já que o retorno do Don Draper “original” para os Estados Unidos, seria impossível, e assim ele poderia retornar para casa. Algumas pessoas podem achar que ele estava profanando o nome do morto, mas não foi uma atitude que ele tomou visando prejudicar ninguém, já que o uso de uma nova identidade não iria gerar nenhum dano ao cadáver do primeiro Don. Teria algum benefício para ambos os lados se, em vez de apenas um, os dois fossem mortos na guerra?
Além disto, vemos que o próprio Don reconhece que ele deve contribuir de alguma forma pelo benefício que conseguiu. Draper é uma pessoa extremamente grata pela nova vida que foi possibilitada após sua mudança de nome. A maior prova disto é o sentimento fraternal que ele guarda por Anna Draper, esposa do finado Don, que chega ao ponto de uma graciosidade que contrasta com toda sua personalidade. Ele sabia que possuía uma dívida de gratidão muito forte não apenas com o colega, mas com a esposa que poderia tê-lo denunciado e não o fez, tentando retornar isto com o auxílio possível. No fundo, isto não deixa de ser uma relação de interesse mútuo: Ela oferecendo espontaneamente o seu perdão, enquanto Don oferecia o que fosse possível em troca. Deste interesse mútuo, surgiu a única amizade que ele talvez tenha tido durante toda a vida.
Esses aspectos são apenas a ponta do iceberg para o mar de profundidade que é uma análise do íntimo de Don Draper, este personagem cuja complexidade tanto nos intriga. Vários outros elementos podem ser retirados, alguns pontos aqui até mesmo aprofundados. Uma compreensão maior do Objetivismo consegue ajudar bastante na pergunta chave da série::”Quem é Don Draper?”.
Caso queiram conhecer melhor sobre esta corrente filosófica, confiram esse link da entrevista da Ayn Rand onde ela explica sua filosofia melhor. E para ver o formidável discurso de Howard Roark onde também é explicada a filosofia Objetivista. Clique aqui .
Observação: Texto feito em parceria com o Adriel Santos Santana.
