Anarcocapitalismo voluntarismo

Publicado em 11 de outubro de 2013 | por Peter Miller

Uma introdução ao Voluntarismo

Nesse ensaio discutirei a filosofia do voluntarismo. No tópico 1, explicarei os princípios básicos dessa filosofia. No tópico 2, discutirei algumas das mais controversas conclusões lógicas dessa filosofia. No tópico 3, darei algumas respostas a objeções comuns que as pessoas levantam em relação ao voluntarismo, e, no tópico 4, finalizarei o ensaio com alguns comentários e perspectivas para o futuro.

1. O Que é o Voluntarismo?

Conceitualmente, o voluntarismo é uma filosofia moral muito simples – é a proposição básica de que todas as interações humanas deveriam ser diretamente consensuais. O voluntarismo rejeita a iniciação da força em todas as suas várias formas, incluindo a violência física, ameaça de violência, roubo, bullying, escravidão, estupro, assassinato, etc. Entretanto, ao contrário do pacifismo, o voluntarismo não impede que a vítima da coerção responda de uma forma estritamente autodefensiva. E o voluntarismo completamente rejeita qualquer tentativa de interpretar ataque como defesa, como na frase “a melhor defesa é um bom ataque”. Finalmente (e isso nem precisava ser mencionado, mas em prol de uma definição completa, vou incluir), o voluntarismo não discrimina com base na raça, gênero, orientação sexual ou habilidade física ou mental.

Tenho esperança de que, até esse momento, os leitores não pensarão que algo notável foi dito. As definições supracitadas realmente deveriam soar menos como uma “nova filosofia” e mais “como eu já vivo e conduzo minha vida”. De fato, 90% das interações humanas já são conduzidas da maneira voluntária descrita acima. Na próxima seção discutirei os 10% restantes de interações as quais contradizem a filosofia voluntarista. (Note que 90% e 10% são somente numero que inventei para representar “grande” e “pequena quantidade”, respectivamente).

2. Algumas Conclusões Controversas do Voluntarismo.

Baseado nas definições acima, a maioria das pessoas concordaria que o voluntarismo é uma filosofia moral que merece ser defendida. Contudo, na minha experiência, quase todas essas pessoas alteram sua opinião e rejeitam completamente o voluntarismo quando descobrem o que as conclusões lógicas do voluntarismo acarretam. Aqui vou listar e discutir brevemente algumas das conclusões lógicas que as pessoas normalmente consideram controversas:

Voluntarismo rejeita restrições ao comércio (tais como a proibição de substâncias ou armamentos).

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A livre troca de bens entre vendedores e compradores é uma das mais importantes consequências da filosofia voluntarista. Pois para a troca ser voluntária, ambas as partes devem ser livres para estabelecer os termos da operação. O vendedor deve ser livre para cobrar qualquer preço e o comprador deve ser livre para requerer qualquer preço. Ambas as partes devem ser livres para rejeitar o preço da outra parte e, realmente, toda a negociação em si, se assim desejado. Obviamente, o roubo é o total oposto desse arranjo voluntário e, portanto, é completamente rejeitado no voluntarismo.

Se o vendedor teme que o comprador possa usar os bens comercializados para um propósito com o qual ele (o vendedor) pessoalmente não concorda então, de acordo com a filosofia voluntarista, o vendedor está completamente justificado em rejeitar a troca. Por exemplo, o vendedor pode temer que o comprador use as armas que ele vende para atacar pessoas inocentes, caso em que ele estaria livre para boicotar o negócio. Da mesma forma, alguém pode comprar uma casa e descobrir que existem plantas de maconha crescendo no seu jardim. Se essa pessoa não aprova o uso de maconha então, de acordo com a filosofia voluntarista, não existe uma exigência de vender as plantas mesmo se fazer isso fosse lucrativo.

O voluntarismo defende a aquisição de qualquer tipo de armamento com fins defensivos, e nega a legitimidade da interferência de um terceiro no comércio de tais mercadorias. Posse e uso de drogas (a saber, álcool, cafeína, tabaco, heroína) não estão relacionadas à coerção e é, portanto, totalmente permissível na filosofia voluntarista. Portanto, o voluntarismo não autoriza a interferência de terceiros no comércio entre compradores e vendedores de drogas.

O Voluntarismo rejeita a tributação (não importando qual o propósito do imposto)

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Os impostos são uma forma de troca involuntária, e são sinônimos de roubo. Sem a iniciação da força, os impostos não mais existiriam. Os impostos não estão sujeitos à negociação voluntária entre comprador e vendedor, mas, em vez disso, consistem de um terceiro intervindo por meio da força em uma transação para extrair uma quantidade arbitrária.

E como esse é um dos conceitos mais difíceis de serem entendidos pelos novatos no voluntarismo, vou dedicar grande parte da seção 3 para responder a objeções comuns à afirmação de que “a tributação é roubo”.

Voluntarismo rejeita tanto as guerras não defensivas quanto o recrutamento obrigatório para qualquer guerra.

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Como foi brevemente mencionado na primeira seção (definições), o voluntarismo pode ser diferenciado do pacifismo, pois o voluntarismo permite a autodefesa enquanto que o pacifismo, não. Portanto, a resposta voluntarista à ameaça de invasão é agir defensivamente em relação aos ofensores, usando a força bruta somente como última opção; ao passo que a resposta pacifista seria ficar parado e observar (ou ser morto) pelo exército inimigo.

Contudo, iniciar um ataque, não importando o suposto propósito daquele ataque, contraria diretamente a filosofia voluntarista. Por exemplo, se existe uma forte suspeita de que um regime vizinho está preparando-se para um ataque, a resposta voluntarista não seria atacar de forma preventiva tal regime, mas sim assegurar que a situação seja esclarecida e que quaisquer danos sejam reparados. Se o regime é irracional e ainda deseja proceder com a invasão, então o curso de ação voluntarista poderia ser fortalecer suas defesas. Provavelmente, seria também sábio informar o regime que essas defesas não têm o objetivo de lançar um ataque, de forma a minimizar as chances de uma corrida armamentista. [Se você deseja um esclarecimento maior da teoria libertária sobre guerras, veja este artigo].

Outra questão importante relacionada à autodefesa voluntária em larga escala é a contratação de mercenários. De acordo com o voluntarismo, o recrutamento obrigatório deve ser rejeitado, pois envolve forçar alguém a fazer algo (lutar) contra a sua própria vontade. Em vez disso, o voluntarismo requer que os mercenários escolham livremente conduzir quaisquer atividades de defesa. E, é claro, aqueles que desejam que os mercenários os protejam estão livres para prover os incentivos (por exemplo, dinheiro, terras, etc.) em troca.

Na seção 3, responderei à objeção de que esses mercenários poderiam voltar-se contra aqueles que concordaram em defender.

Voluntarismo = Anarquia.

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Como você deve ter observado pelas conclusões acima, o principal oponente do voluntarismo é o governo. Pode causar estranheza àqueles que consideraram a definição de voluntarismo dada na primeira seção como uma boa definição de moralidade. Se o voluntarismo é sinônimo de moralidade, então o oposto de voluntarismo deve ser também o oposto de moralidade, tornando o governo inerentemente imoral.

Isso não quer dizer que todas as coisas que o governo faz são necessariamente imorais, mas sim que a maneira pela qual essas coisas são feitas é imoral. Por exemplo, prover assistência aos inválidos pareceria uma atividade muito moral e isso é realmente algo que os governos fazem. No entanto, a maneira pela qual o dinheiro do assistencialismo é obtido para ser dado aos inválidos é de vital importância.

Os governos obtêm seu dinheiro ou por meio da tributação, ou por meio de leis de moeda corrente e a impressão de dinheiro (inflação), ambos requerendo a iniciação da força, então, a única ação moral a ser tomada com esse dinheiro é a sua devolução às vítimas. Na seção 3, eu refutarei a objeção de que os pobres e os inválidos não teriam acesso à assistência em uma sociedade voluntarista.

Vale também a pena mencionar aqui que o termo anarquia pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes. Algumas pessoas associam a anarquia ao caos – realmente, esse é o uso típico da palavra, enquanto outros associam a anarquia à ausência de propriedade privada (comunismo). Contudo, quando me refiro à anarquia nesse ensaio, simplesmente quero dizer “sem governo”. Isso não significa “sem regras”, mas sim “sem regras involuntárias”. O Voluntarismo, é claro, permite que as pessoas voluntariamente se subjuguem aos governantes (num exemplo simples, um personal trainer é um tipo de governante, e, da mesma forma, poderia ser um empregador), todavia, são os governantes que não foram legitimamente escolhidos de uma maneira diretamente consensual que são ilegítimos sob o voluntarismo.

Nesse ponto, você deve estar sentindo-se chocado. Minha aposta é que você nunca tinha considerado coisas como a proibição das drogas, a tributação ou o alistamento militares obrigatório imorais e, ao menos que você faça parte de uma minoria minúscula, eu estou razoavelmente certo de que você nunca considerou a anarquia como moral. O triste fato é que as pessoas com mais poder no mundo no qual vivemos aprovam leis as quais diretamente contradizem a filosofia voluntarista. Contudo, o voluntarismo é de alguma forma sustentado pelo fato de que o cidadão médio interagindo com seus amigos, comprando coisas nas lojas ou simplesmente vivendo a sua vida já está agindo de acordo com a filosofia voluntarista.

3. Respostas a Objeções Comuns ao Voluntarismo.

Iniciarei essa seção com uma breve discussão sobre alguns aspectos positivos da natureza humana – a saber, a compaixão humana por outras pessoas que estão em situação menos afortunada do que nós, e a tendência humana a trabalhar para melhorar nossas vidas tanto pela criatividade individual quanto pela cooperação com os outros. Referir-me-ei novamente a esses pontos tão logo responda algumas objeções comuns ao voluntarismo no decorrer dessa seção.

Assim como quase todos os seres humanos possuem duas pernas e dois braços, quase todos os seres humanos sentem compaixão uns pelos outros. Pesquisadores da Universidade de Princeton descobriram que o cérebro humano parece programado para responder ao sofrimento alheio [1]. Eles perceberam que o ato de ajudar os outros aciona a atividade no núcleo caudal e no cingulado anterior, porções do cérebro que se ativam quando as pessoas recebem recompensas ou sentem prazer. Isso é algo extraordinário – ajudar os outros traz o mesmo prazer que obtemos pela realização de um desejo pessoal. Enquanto pode ser fora do comum para alguém devotar toda a sua vida somente para ajudar os outros, não é raro para um grande número de pessoas devotarem uma pequena parcela de esforço para ajudar seu próximo. Mil pessoas doando seu tempo e esforço por somente uma hora por semana tem um efeito muito maior do que uma única Madre Teresa diligentemente devotando todas as horas de sua vida para a mesma coisa.

Outro aspecto positivo da natureza humana é a tendência humana a trabalhar para melhorar a sua própria vida. Na sua mais básica forma (microeconômica), esse traço é essencial para a sua sobrevivência. Exemplos incluem trabalhar para se alimentar, se vestir e se proteger das intempéries. A forma mais complexa (macroeconômica) desse traço é responsável por todo o progresso econômico que desfrutamos no moderno mundo da alta tecnologia. Exemplos incluem o desenvolvimento da ceifeira-debulhadora, a qual permite a um simples agricultor fazer a mesma quantidade de trabalho que previamente requeria milhares de pessoas, o desenvolvimento de equipamentos e técnicas médicas as quais ajudaram a aumentar a expectativa de vida humana de menos de 30 anos para mais de 75, e a viagem aérea supersônica a qual pode transportar pessoas de um lado ao outro do globo em menos de um dia (para citar apenas algumas poucas realizações humanas!). Todas essas realizações são devidas à criatividade individual e colaborativas humanas. Também vale a pena ressaltar que a coerção jamais foi necessária para o desenvolvimento das invenções. As pessoas não precisam de uma arma apontada as suas cabeças para desenvolver coisas novas – elas farão isso tanto porque é algo que satisfaz a alma quanto porque as recompensas são grandes.

Com todas essas características humanas em mente, agora vou responder a algumas das objeções comuns à filosofia voluntarista:

Sem a tributação, os pobres e os inválidos morreriam de fome.

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A primeira coisa a notar aqui é que a objeção não contesta o fato de que a “tributação é roubo”. Em vez disso, ela foca nas consequências da eliminação do imposto. Em outras palavras, essa objeção pressupõe que a iniciação da força (roubo, nesse caso) é justificável contanto que os fins sejam suficientemente justos. Na verdade, essa noção é parte de outra filosofia conhecida como consequencialismo. Por outro lado, o voluntarismo advém da categoria ética deontológica da filosofia. Muitos livros foram escritos para debater os méritos relativos dessas duas filosofias de modo que eu não aprofundarei tal debate aqui. Contudo, eu vou argumentar contra essa afirmação particular simplesmente alterando os fins em questão.

Considere o seguinte cenário: existe uma necessidade de prover água potável, vestimentas, equipamentos médicos, etc., para as pessoas mais pobres do mundo, muitas das quais estão atualmente vivendo em situação precária na África. Partirei sob a suposição de que a pessoa levantando tal objeção concorda que alcançar tais fins é um objetivo admirável. Portanto, eu posso propor ao discordante o seguinte meio para alcançar tal objetivo: “amanhã, começarei a roubar carros, começando com o seu, e então os venderei para doar a receita aos famintos da África”. Minha suposição é a de que o discordante insultar-se-á com essa ideia. Então posso continuar, “mas você não se importa com aqueles que estão passando fome na África?”. Espera-se que o discordante responda: “É claro que sim, mas essa causa admirável não justifica o roubo de minha propriedade. Eu estaria preparado a doar voluntariamente para uma instituição de caridade africana, mas você não pode simplesmente roubar minhas coisas para financiar sua operação!”.

Acredito que esse cenário demonstre que roubar a propriedade alheia é imoral, mesmo pelo motivo nobre de ajudar os pobres e os inválidos. Como discuti no início dessa seção, as pessoas são naturalmente compassivas, e quando se deparam com outras pessoas que estão em situação difícil, elas estão naturalmente dispostas a dar uma mão, doar uma quantia em dinheiro ou até mesmo mercadorias para ajudar.

Por fim, devo mencionar que 100% das pessoas que levantam objeções ao voluntarismo terão nessa uma das suas principais objeções, o que eu tomo como maior prova de que as pessoas são muito interessadas no bem estar dos pobres e dos inválidos. Minha expectativa seria que, se a compulsão governamental fosse eliminada da equação, mesmo assim permaneceria um desejo muito difundido de assegurar que os pobres e os inválidos sejam bem tratados. Além disso, na ausência de impostos e inflação, recursos adicionais vastos tornar-se-iam disponíveis para esse proposito.

Sem a tributação, não existiriam estradas, hospitais públicos, polícia, etc.

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Essa é outra objeção muito comum ao voluntarismo, e, como na primeira objeção, não contesta o fato de que a “tributação é roubo”, mas, em vez disso, foca nas consequências da eliminação do imposto. O tópico oculto dessa questão é que sem a tributação, o cidadão médio não seria capaz de dispor das necessidades básicas as quais estamos pagando atualmente por meio da tributação. Algumas pessoas também apontarão para os Estados Unidos quando defenderem tal objeção, dizendo que quando o sistema de saúde não é administrado pelo governo, ele custa muito mais caro para as pessoas.

A objeção supracitada é, na verdade, derivada de outra filosofia política que é muito popular nas democracias ocidentais atualmente: o socialismo. Isso se torna mais claro quando a objeção é reformulada de uma forma mais ampla: é aceitável agir de forma imoral porque, assim fazendo, resultará em mercadorias e serviços mais baratos.

Existem duas respostas a essa objeção e as apresentarei. A primeira é que o voluntarismo é uma filosofia moral e, por isso, não está diretamente preocupada com a eficiência econômica. Um exemplo da história servirá nesse caso. Durante o final dos anos 1700, nos Estados Unidos, todo o algodão era cultivado e colhido por escravos afro-americanos. O principal medo da época era de que se a escravidão fosse abolida, então os lucros dos produtores de algodão seriam menores, dado que teriam de pagar trabalhadores para fazer o serviço voluntariamente. A resposta voluntarista a esse dilema (com a qual se espera que o discordante concorde) é que nenhum nível de lucro justifica escravizar alguém. Isso também se aplica as estradas, hospitais públicos e polícia – nenhum nível de redução de custo para alguns pode justificar o roubo a outrem. Se as estradas, hospitais e serviços que protegem as pessoas podem ser fornecidos pela troca voluntária (e explicarei no próximo parágrafo que podem), então, isso está perfeitamente alinhando com o voluntarismo. No entanto, o voluntarismo opõe-se a essas coisas tanto por serem financiadas por dinheiro roubado como também por terem sido forçosamente monopolizadas.

O parágrafo anterior pode deixar alguns leitores receosos de que a sociedade voluntarista seria muito cara, levando à segunda resposta a objeção – o envolvimento governamental é inerentemente caro, e, na verdade, sociedades nas quais todas as interações humanas são diretamente consensuais (portanto, uma sociedade de trocas voluntárias) são as sociedades mais economicamente eficientes até hoje vistas pela humanidade. Eu não vou aprofundar muito no tópico da economia, dado que já existe bibliografia suficiente a respeito, mas é suficiente dizer que:

A) Monopólios coercivos tem o menor incentivo a diminuir preços, visto que enfrentam o menor nível de concorrência econômica [2].

B) Uma vez que leis são aprovadas por governos, é praticamente impossível repeli-las, mesmo se, de modo geral, são ineficientes e desnecessárias [3].

C) A regulação governamental de atividades de outra forma voluntárias pode reduzir a eficiência econômica até o ponto onde o mercado torna-se tão ineficiente quanto o governo que ministra as regulações [4].

O ponto final é o argumento para quase todo o sistema de saúde norte-americano, o qual as pessoas erroneamente citam como modelo de troca voluntária. Um sistema de saúde alternativo erigido sob os princípios voluntaristas seria o modelo de ajuda mutua o que existiu antes da tomada de posse do mercado de saúde pelo governo no inicio do século XX.

Para resumir, longe de não existirem estradas, hospitais e sistemas de proteção na ausência da tributação, esses serviços seriam, na verdade, fornecidos de uma maneira ética e a um custo muito menor.

Sem o governo, déspotas tomariam o poder.

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Essa objeção surge com frequência. A primeira coisa a notar é o uso da palavra déspota para descrever uma entidade coerciva que é tanto legal como moralmente livre (irresponsável). Contudo, como discutido na seção 2, o governo já é a instituição coerciva em quase todos os países tanto legal como moralmente livre (irresponsável). Os governos escrevem suas próprias leis as quais governam seu código de conduta, de forma que, se eles desejarem fazer algo previamente classificado como ilegal, eles podem simplesmente legalizá-lo em forma de lei. Então, a questão deveria ser reformulada para “sem uma entidade moralmente eximida de deveres, outras instituições moralmente eximidas de deveres podem surgir”. Quando colocada dessa forma, a objeção parecerá, no mínimo, estranha. Se o objetivo é eliminar entidades moralmente eximidas de deveres, então, certamente, o primeiro passo deveria ser eliminar a existente.

Eu suspeito que quando as pessoas levantam essa objeção o que elas realmente querem dizer é, “e se, em uma sociedade gerida por princípios voluntários, déspotas escravizassem populações inteiras sob um regime militar ditatorial?” A resposta simples a isso é que as pessoas em uma sociedade voluntária deveriam estar sempre preparadas para tais tentativas, erigindo os mecanismos por meio dos quais isso não seria possível. [Uma explicação mais detalhada sobre esse problema e como resolvê-lo foi dada aquiObviamente, eu não posso prever os mecanismos que as pessoas podem escolher, mas aqui seguem algumas ideias:

A) Um aplicativo para celular que alerta um grande número de pessoas quando do perigo de invasão, de forma que o sistema de defesa possa ser acionado o mais rápido possível (punições para alarmes falsos são recomendadas).

B) Delegação da responsabilidade de defesa para um grupo de empresas de segurança, cada qual sendo mantido na linha por uma apólice que possa ser retirada se o código de conduta voluntarista for violado.

C) Agências de internet e televisão investigarão quaisquer entidades capazes de formar um exército, e noticiarão quaisquer entidades que se neguem a ser totalmente transparentes.

É claro que existe um número infinito de maneiras possíveis pelas quais o problema da segurança poderia ser resolvido. Na ausência do governo, seria do interesse primordial de todo o indivíduo procurar falhas no sistema de provisão de segurança e resolvê-las. Como mencionado no início da seção 3, as pessoas são muito criativas quando encarando desafios, e quando grandes grupos de pessoas colocam sua mente a serviço de uma causa, elas são praticamente incontroláveis. Visto por esse prisma, a proteção oferecida pelas forças de segurança do governo não parecem mais tão seguras como normalmente se pensa.

Sem o governo, os ricos tomariam o poder e, essencialmente, mandariam no país

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Como a objeção ao voluntarismo baseada nos déspotas tomando o poder, essa objeção já contém uma suposição tendenciosa. Nesse caso, a suposição é que, até agora, os ricos não tomaram o poder e não estão administrando o país. A realidade, todavia, é que é difícil encontrar um país onde essa objeção já não é o caso. O valor líquido médio dos políticos está dentro dos milhões e, com frequência, dos bilhões de dólares nas democracias ocidentais [7]. E, da mesma forma, os consultores e os lobistas que influenciam esses políticos são extremamente ricos (e, em muitos casos, são ex-políticos) [8].

O voluntarismo não tem nenhuma objeção à riqueza, desde que seja obtida por meio da troca voluntária. Na verdade, a riqueza obtida dessa maneira é uma recompensa pelo fornecimento de bens e serviços que um grande número de pessoas desejava. Entretanto, a riqueza obtida por meio de privilégios ou por favores políticos secretos a empresários amigos em troca de uma propina é o completo oposto da troca voluntária.

A eliminação do governo, longe de ser benéfico aos ricos, iria, na verdade, bloquear uma grande fonte de seus recursos. Sem a habilidade legal de tributar ou retirar dinheiro das pessoas, ou mesmo imprimi-los para si [9], o rico necessitaria produzir algo de valor para vender algo aos consumidores.

O governo democrático já é voluntário. Nós tomos concordamos em ser governados quando votamos.

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Enquanto pode ser verdade que o ato de votar expressa a vontade de um indivíduo ser governado, certamente não é verdade que essa ação significa o desejo de outrem ser governado. Se votar é sinônimo de consenso, então, aqueles que não votam não deram seu consentimento, e esse consentimento certamente não pode ser dado em nome da pessoa. Esse fato não é alterado pela razão de votantes e não votantes. Não é necessário dizer que os voluntaristas recusam-se a votar [Para entender melhor essa ideia, recomenda-se a leitura dessa obra].

Se você não gosta daqui, você é livre para ir embora

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Assim como as objeções anteriores, essa objeção contém um proposito oculto. Isso é mais bem percebido através da reformulação da objeção: “O sistema pode bem ser imoral, mas as pessoas preferem assim. Se você fosse embora, parando de levantar tal questão, então, tudo voltaria ao ponto da pretensão de que as coisas estão bem”.

Como discuti na Seção 1, 90% de nossas vidas nas democracias ocidentais atuais já são conduzidas de acordo com a filosofia voluntarista. Os 10% restantes envolvem as interações das pessoas com o governo. Pessoalmente considero o governo um ente inoportuno, todavia não a tal ponto que seja insuportável. Se a intromissão governamental aumentasse a tal ponto onde se tornasse insuportável, eu imagino que procuraria um novo país que estivesse mais alinhado ao voluntarismo (se algum existisse, se não, permanecer ali seria a melhor opção). Contudo, até que cheguemos a tal ponto, eu preferiria tentar abrir a mente das pessoas para o voluntarismo, na esperança de gerar uma mudança de paradigma.

Conclusão

Agora você possui um conhecimento razoável sobre o voluntarismo. Não há dúvida que você pode pensar em um grande número de objeções a essa filosofia. Talvez, escreverei mais ensaios refutando outras objeções. Até lá, todavia, em vez de pensar que o “voluntarismo é realmente uma ideia moral e admirável, mas que nunca funcionaria na prática”, pergunte-se porque nunca funcionaria, indo além e pensando “poderia funcionar se um número suficiente de pessoas desejassem?” Também considere se o voluntarismo alinha-se ou não com a natureza humana, e considere se os desvios em relação ao voluntarismo (principalmente o governo e os criminosos) estão alinhados ou não com a natureza humana. Toda a objeção geral que pode ser levantada no que diz respeito ao voluntarismo tem sido um problema em um estágio ou outro da história, e tem sido resolvido de uma forma voluntária previamente. Eu penso que temos todas as razões para buscar esses padrões elevados novamente.

Por fim, uma rápida discussão sobre os objetivos do voluntarismo. Claramente, o objetivo desse ensaio tem sido tentar e convencer o leitor a se juntar à causa voluntarista. Mas qual é a causa voluntarista? Bem, é muito simples – primeiramente, educar o máximo de pessoas em relação à natureza da moralidade. Isso é algo que não é ensinado nas escolas, então, tanto como as pessoas nos anos 1.300 tomavam por certo que o Sol girava ao redor da Terra, as pessoas hoje tomam por certo que os governos são capazes de agir de uma forma moral. Se esse despertar educacional pode ser alcançado, então, minha aposta é de que o desejo de eliminar programas coercivos e (onde for aplicável) substitui-los por alternativas voluntárias, acontecerá de maneira natural daí em diante.

Se você concorda com a definição voluntarista de moralidade que expliquei na primeira seção e se você pode ver como as consequências mostradas na segunda seção são derivadas das definições originais, e se você concorda com as refutações na terceira seção, então, eu provavelmente ensinei a você tudo que é necessário saber para que você comece sua própria jornada de descoberta. Seguem algumas fontes de pesquisa:

https://www.youtube.com/user/LarkenRose – Rose apresenta ótimos vídeos desafiando as percepções normais em relação ao governo. Em particular, veja “if you were king” e “the jones plantation”

https://www.youtube.com/user/stefbot – Stephan Molyneux tem um programa de rádio discutindo todos os aspectos da vida de um voluntarista. Escute “A história da sua escravidão” e “the bomb in the brain”.

https://www.youtube.com/user/StormCloudsGathering – Storm Clouds Gathering é um canal de notícias que passa a perspectiva voluntarista dos fatos. “The psychology of authority” é excelente.

https://www.mises.org.br/Default.aspx – Ótimo para quem gosta de ler artigos, ouvir podcasts ou até mesmo assistir palestras sobre temas relacionados à liberdade.

NOTAS

[1] http://greatergood.berkeley.edu/article/item/the_compassionate_instinct

[2] http://wiki.mises.org/wiki/Monopoly

[3] http://www.theatlantic.com/politics/archive/2010/06/can-government-make-essential-choices/58468/

[4] http://www.governing.com/blogs/bfc/inefficient-government-rules-regulations.html

[5] http://www.freenation.org/a/f12l3.html

[6] http://www.lewrockwell.com/2005/10/stefan-molyneux/the-stateless-society-an-examination-of-alternatives/

[7]http://www.celebritynetworth.com/list/top-50-richest-politicians/, http://www.news.com.au/money/money-matters/revealed-australias-cashed-up-politicians/story-e6frfmd9-1225871772277

[8] http://en.wikipedia.org/wiki/Revolving_door_(politics)

[9] http://useconomy.about.com/od/glossary/g/Quantitative-Easing.htm

***

Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Adriel Santana.


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