Liberdade Econômica policiais no egito

Publicado em 29 de julho de 2013 | por Fraser Nelson

É de Capitalismo, não de democracia, que o Oriente Médio precisa

Assistir os eventos no Egito é como assistir uma gravação da Primavera Árabe sendo mostrada ao contrário. Às urnas foram chutadas para longe, a constituição rasgada, os militares anunciaram o nome de um presidente marionete – e milhares se reúnem na praça Tahrir enlouquecidos de alegria. A monarquia da Arábia Saudita, que estava apreensiva dois anos atrás, telegrafou suas congratulações para os generais de Cairo. Para o delírio de autocratas em todo o mundo, a breve experiência do Egito com a democracia parece ter terminado como um vergonhoso fracasso.

Normalmente, líderes ocidentais estariam alinhados em lamentar o golpe de Estado, mas ontem, mesmo William Hague parecia sem palavras. Como regra geral, ele diz, a Grã-Bretanha prefere um governo civil. Mas quando pedido para condenar o golpe no Cairo, ele se recusou. Os perfis do Twitter do mundo árabe, antes cheio de otimismo revolucionário, se transformaram num recinto de aflição. “O Egito ensinou que a democracia é uma mentira e um presidente eleito é um mito,” escreveu Ahmed al-Husseini, um pregador sunita do Bahrain. “Parlamento, eleições, urnas. É tudo uma mentira.”

Ele tem certa razão. As eleições no Egito se mostraram como um referendo Irlândes na UE: os eleitores poderiam dar a resposta que quisessem, desde que ela fosse a resposta correta. O exército não estava contente com a situação, por isso pediram para os eleitores escolherem novamente. Enquanto o ocidentes estava comemorando a entrada do Egito para o comunidade das nações democráticas, os egípcios estavam escorregando para um abismo econômico, sofrendo com uma terrível escassez de combustível, comida e segurança. Violência sectária entrou no meio, com a perseguição de cristãos copta seguido por conflitos entre sunitas e xiitas. A taxa de homicídio triplicou. A situação estava desmoronando, motivo pelo qual os generais terem sido bem recebidos de volta.

Mas a Primavera Árabe era uma busca por liberdade, não necessariamente democracia – e a diferença entre os dois é crucial. Tome, por exemplo, o caso de Mohammed Bouazizi, que começou a cadeia de eventos colocando fogo em si próprio vivo em uma rua na Tunísia dois anos atrás. Como sua família atesta, ele não tinha nenhum interesse político. A liberdade que ele queria era o direito de comprar e vender, e de construir seu negócio sem ter que pagar suborno para a polícia ou temer ter seus bens confiscados a qualquer hora. Se ele foi mártir de alguma coisa, foi do capitalismo.

Tudo isso foi demonstrado por Hernando de Soto, um economista peruano que viajou para o Egito para investigar as causas da Primavera Árabe. Seu time de pesquisadores descobriram que Bouazizi tinha inspirado 60 casos similares de autoimolação, incluindo cinco no Egito, quase todos eles sendo ignorados pela mídia. A narrativa de uma revolução estilo 1989 na esperança de uma mudança de regime parecia tão atraente para os estrangeiros que houve pouca busca por maiores explicações. Mas o time de de Soto rastreou aqueles que sobreviveram suas tentativas de suicídio, e as famílias desoladas. E sempre encontraram a mesma história: esse era um protesto pela liberdade básica de possuir e obter ras el mel, ou capital.

Bouazizi se matou depois que a polícia confiscou todas as suas frutas e um par de balanças eletrônicas de segunda mão. Era tudo o que tinha. Ele era um comerciante talentoso; ele esperava poupar dinheiro o suficiente para comprar um carro e aumentar seu negócio. A princípio, perder algumas frutas e um par de balanças eletrônicas de £100 parecem um motivo estranho para se suicidar. Mas ao ter se tornado inimigo da polícia, Bouazizi percebeu que não conseguiria fazer comércio novamente. Sua família disse que ele sentiu como se sua vida tivesse acabado e que, se ele tivesse que morrer por alguma causa, seria que os pobres deveriam poder comprar e vender.

Para a maioria do mundo em desenvolvimento, tal direito não existe. Na teoria, todo mundo é protegido pela lei. Mas na prática, o processo de adquirir uma licença é tão marcado de subornos e burocracia que apenas uma pequena minoria consegue superar. Para de Soto, isso explica muito da pobreza no mundo. Saia do Nilo Hilton, diz ele, e você não estará deixando pra trás o mundo da Internet, máquinas de sorvete e antibióticos. Os pobres têm acesso a tudo isso se eles realmente quiserem. O que você estará deixando para trás é o mundo das transações de direitos de propriedade legalmente cumpridas. Esses comerciantes não quebram as leis – as leis é que os quebram.

Tome Fadoua Laroui, uma mãe marroquina, cujo suicídio foi filmado. Ela explicou seus motivos antes se colocar em chamas. “Eu irei me imolar,” ela disse. “Estou fazendo isso para protestar contra a hogra e a exclusão econômica.” Hogra significa desprezo por pequenos comerciantes, o desprezo a que Bouazizi sofreu da polícia. Uma história similar foi contata pelos sobrevivente, e os parentes da mulher. Como o irmão de Bouazizi explicou para de Soto: “Pessoas como Mohammed estão preocupadas em fazer negócio. Eles não entendem nada de política.”

Tecnicamente, a lei cobre todo mundo. Mas sob Hosni Mubarak, por exemplo, abrir uma pequena padaria em Cairo demorava mais de 500 dias de burocracia. Abrir um negócio no Egito significa lidar com 29 agências governamentais. A mesma história se repete por toda a região: o árabe médio precisa apresentar quatro dúzias de documentos e suportar dois anos de burocracia para se tornar um proprietário legal de terra ou empresa. Se você não tem tempo ou dinheiro para fazer isso, você estará condenado a viver no mercado negro: não importa o quão bom você seja, você nunca irá conseguir sair da pobreza. Os árabes estão com tanta raiva disso que estão se queimando vivos.

William Hague disse ontem que os egípcios querem a liberdade para expressar suas opiniões e escolher seus políticos. Estabilidade, ele disse, “vem das instituições democráticas”. Porém não tem havido quase nenhuma evidência dessa estabilidade no Egito democrático – como os sauditas estão alegremente mostrando. Isso serve como um terrível exemplo para as outras recém democracias: se as coisas complicarem, o exército pode expulsar o governo e começar de novo. Quem quer que seja o sucessor de Mohammed Morsi como presidente saberá que, na prática, ele servirá às vontades do exército.

Algumas semanas atrás, de Soto disse ao congresso americano que o ocidente entendeu errado a Primavera Árabe e está perdendo uma enorme oportunidade. Bouazizi, e os cinco egípcios que se autoimolaram, falaram por 380 milhões de árabes que não possuem direitos de propriedade ou qualquer proteção legal. Isso se aplica à Grã-Bretanha: se quisermos nos tornar heróis dessas pessoas, e exigir a extensão dos direitos de propriedade em troca de nossa ajuda externa, isso poderia ser a estratégia anti-pobreza mais efetiva já concebida. E poderíamos fazer milhões de novos amigos no mundo árabe.

Essa não é uma ideia nova, mas a restauração de uma antiga. Como Margaret Thatcher disse uma vez, “ser democrático não é o suficiente – a maioria não pode transformar o que é errado em certo”. Liberdade, ela disse, depende da força das instituições: lei e ordem, uma imprensa livre, a polícia e um exército que serve ao governo, em vez de supervisioná-lo. A história tem provado que ela estava certa – na Rússia, Afeganistão, Iraque e agora no Egito. A fachada da democracia pode ser horrivelmente enganadora; é a força das instituições que decide se as nações prosperam ou desmoronam.

Tradução de Fabricio Aiko. Revisão de Ivanildo Terceiro. // Artigo Original


Sobre o autor

Fraser Nelson

Fraser Nelson é um jornalista britrânico, colunista do The Daily Telegraph e editor da The Spectator Magazine. Já passou pelas revistas "The Times" e "The Scotsman". Ele também é membro do think tank Centre for Policy Studies.



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